NOTAS SOLTAS

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4. His life. On the Road

Existem pessoas que conheço apenas à distância e que torço para que encontrem um caminho amplo para que possam brilhar de uma forma muito particular. Foi o caso do Pedro. Vi-o uma vez ainda no “Pica” e soube que se o coração acompanhasse a cabeça, suplantaria um palmo de cara estupidamente fotogénica. No início de 2013 lembrei-me dele para reencarnar Neal Cassady. Com tanto por contar sobre a Beat Generation, para mim o Neal foi a musa usada e deitada fora, depois de quase durante uma década lhe terem sugado a espontaneidade.

Na verdade a única experiência que haviam tido de quem era Neal havia sido brincar aos bad boys. Amigos que eram o público alimentavam-se da atitude electrizante daquele homem, do seu “movimento sem sentido”, da sua dispersão na ausência de raízes. Podia-me referir a Jack Kerouac, dizer que Neal de facto escreveu On the Road e deitar as culpas a quem não o amou e não o aceitou de forma convicta para que ficasse mais tempo por este planeta, mas decidi simplesmente resumir a sessão do Neal a uma caminhada, porque foi assim que escolheu viver. Escolheu ser abraçado e não ficar em casa, escolheu o tempo em que o fez, escolheu envelhecer acompanhado por desconhecidos, escolheu morrer sozinho.

“Porquê eu?” perguntou na altura o Pedro. “Porque és tu, porque preciso de alguém que seja transparente quando tenta a todo o custo esconder-se. Preciso de alguém que aprecie este tipo de viagem.” A fragilidade pisciriana tem estes obstáculos, e mesmo com uma dinâmica tão directa, o desafio foi aceite. As sessões não foram fáceis de conseguir. Suspeito que se tivesse feito o mesmo convite ao Neal, também teria faltado a uns quantos encontros e tentaria compensar-me na próxima estação. Go with the flow foi a palavra de ordem neste contexto, ir ao sabor da boleia. Ia o dia a meio e apanhei o Pedro numa curva, ou apanhou-me ele, já tarde, atrasado mas sempre sorridente. A fome voraz da novidade fê-lo querer repetir a sessão e já tardiamente dirigimo-nos a uma linha de comboio parada à beira rio. Já me tinha mencionado que odiava ser fotografado e por isso foi andando. E eu atrás dele. Durante uma hora foi nos sapatos de Neal até ao fim da linha.

De acordo com o mito urbano, Neal saiu de um casamento e dirigiu-se aquilo que poderia chamar de casa durante uma noite. Há quem diga que foi contando o número de postes pelo caminho, as estrelas e de forma romântica o número de passos. Morreu de forma incerta no meio de uma tempestade. Da mesma forma, o Pedro foi caminhando até ao pôr-do-sol. Com aquela leveza pesada de alguém que nos quer dar tudo o que tem mas não sabe exactamente como. Para quem observa de fora, Neal e o Pedro serão sempre vistos como carne inconstante, multíplice, inconsistente e em gestação.

Abraçam toda a novidade que cruza o seu olhar e abandonam-na com a mesma intensidade à procura da seguinte. Deslumbram-se sempre um pouco com tudo o que encontram e no que perdem pelo caminho, mantendo sempre a vida como uma escolha em aberto. É a escolha de quem os escolhe; de os abraçar e de os deixar seguir a estrada que escolheram.

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