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Em torno das linhas do Desenho num jogo entre o exercício do ver e do ler

Até ao mês de Agosto encontra-se em exposição On Drawing II na Cristina Guerra Contemporary Art uma série de composições na área do Desenho de oito artistas plásticos, três nacionais: (Julião Sarmento, João Onofre e Rui Toscano) e cinco internacionais: (Matt Mullican, Erwin Wurm, Lawrence Weiner, Jim Shaw e Anamary Bilbao).

A presente mostra segue as mesmas premissas num aprofundamento dos trabalhos num território comum e similar numa sequência lógica dentro de uma continuidade segundo os critérios da On Drawing I que decorreu há dez anos com outros autores à excepção de Rui Toscano que por sua vez tinha mostrado desenhos em vez do vídeo Lisbon Calling que surge actualmente. Nesse vídeo surgem perfis urbanos, em skyline com linhas contornantes de cidades chamando a atenção para a natureza da paisagem com o contorno, uma linha impossível que assinala o fino limite das coisas.

As técnicas utilizadas das obras assentam sob diferentes suportes visuais que variam desde a tinta acrílica, caneta, técnica mista, grafite e gesso sobre papel, sendo umas mais antigas e outras mais contemporâneas, de nomes uns mais significativos e marcantes do que outros, no panorama internacional pertencendo a gerações distintas.

O Acto de desenhar é algo permanente; somos de uma certa forma todos riscadores

No plano iconográfico, os registos possuem configurações próprias do percurso de cada pintor, podendo ser baseado num referente com elementos mais figurativos de traço em jeito caricatural como nas Emotions de Matt Mullican (n.1951); um conjunto de esboços de rostos ancorados nos códigos da cultura popular distribuídos numa trama geométrica disposta em quadrícula como em Jim Shaw (n.1952); corpos depurados apenas esboçados desenhados subtilmente em esquisso como nos desenhos de Erwin Wurm (n.1954); peças onde o informalismo se impõe num escrituralismo sígnico, dentro de uma análise gráfica previamente estudada preenchida no seu interior com a inclusão de palavras soltas de uma forma mais ou menos organizada como nas composições densas de João Onofre (n.1976) e nos trabalhos de grande espacialidade de Lawrence Weiner (n.1942) onde é introduzida cor nas letras livremente espalhadas; traços com um forte gestualismo entre linhas expressivas como na Andromedae de Julião Sarmento (n.1948) que remete para uma figura da cultura ocidental.

Anamary Bilbao (n.1986) é a artista mais nova que expõe neste conjunto com o seu trabalho Presente passado de uma linearidade mais subtil com uma seriação na repetição de traços na horizontal ou na vertical. O seu trabalho encontra-se numa única sala num lugar de destaque onde esteve presente em 2004 o então jovem Diogo Pimentão, havendo entre ambos uma certa semelhança na linguagem e no tratamento plástico utilizado.

A obra da criadora luso-espanhola constitui assim uma excelente síntese onde as linhas vivem infinitamente no espaço da composição, de uma forma infindável, aparecendo como inacabada sendo uma das definições do próprio desenho como disciplina preponderante. É um excelente instrumento de uma linguagem que em princípio nunca está terminada, fica sempre em aberto, nunca acaba pelas soluções infinitas que apresenta, vale por si mesmo como processo evolutivo de uma obra.

Qualquer dos trabalhos figurados sob a diversidade de formatos utilizados encontram-se porém desligados da narrativa e do percurso plástico de cada artista. Uns apresentam uma maior sobriedade do que outros, estes são caracterizados por uma complexidade numa trama mais enredada onde todos confluem para uma extrema subjetividade. O desenho é para além de um meio visual também faz parte de um exercício permanente de um artista visual. O desenho é transversal à actividade humana e sempre inconclusivo nas suas aplicações. A sua vitalidade provém da sua capacidade inerente de forjar um elo imediato entre o que pensamos e o que sentimos. A sua liberdade é concedida pela rapidez de execução e pela quase inexistência de mediadores entre aquilo que sente/pensa e aquilo que deixa sobre a superfície. É a linguagem artística que está mais próxima do início das coisas e da criação. Linha do desenho não ilude, não mente, existindo nessa candura de uma maneira quase intuitiva.

Os suportes das composições são de uma grande variabilidade onde o papel torna-se o suporte basilar para a construção das mesmas. O branco da folha de papel converte-se num território de concentração e dispersão de signos mais ou menos legíveis. É a arte mais próxima da origem que permite que o gesto se inscreva sobre uma superfície de uma linguagem gestual por excelência. O desenho como inventor de espaços é uma invenção do olhar.

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