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3. “Let me out now, please let me in”

Este foi o caso atípico de querer ser típica. Foi uma das alturas em que tal como noutras sessões peguei na morte como um momento de definição da vida, por contraponto do seu significado. Quis neste caso que assim fosse para demonstrar como as figuras femininas do movimento Beatnik foram quase dissimuladas pelo tempo e pela história como groupies sortudas. Em concreto mencionamos Elise Cowen. Judia, vinda de uma família ultra conservadora, enamorada de um Ginsberg ainda asfixiado pela rotina do armário. Elise era desafiante. Assustadoramente desafiante. Porventura a figura a par de Diane diPrima mais enigmática e simultaneamente in your face da literatura contemporânea. Para este julgamento sobram-nos escassos manuscritos, mas facilmente percebemos não só o génio mas o potencial não realizado. E pior: o não aproveitado durante a sua curta existência.

Na sua história o sexo não vendeu. Foi praticamente apagada, esquecida e diminuída com a ajuda dos seus familiares que após o seu suicídio decidiram com a ajuda de vizinhos destruir o incómodo dos seus relatos sobre morte e sexualidade (This will kill your mother). Na Primavera de 1956 Elise é definitivamente empurrada do ninho, voando em direcção a S. Francisco. Voo curto. Como muitos, Elise sabia escrever melhor que viver.

Cansada, desiludida assegura no início da década de 60 “Twenty-seven years is enough”. A lista das compras continua: Mother – too late – years of meanness – I’m sorry / Daddy – What happened? (…) / Let me out now please – / Please let me in. (…) Depois de a ler passei várias noites em branco, com uma enorme raiva, provavelmente só comparada á enorme angústia de a querer resgatar. De a “vingar”. Para além da temática da invisibilidade feminina recuperada de forma heróica por Brenda Knight,  Cowen sofreu como quase toda esta geração do pós guerra de emancipação precoce. Progenitores ainda sobrecarregados por uma dose pesada de realidade e trauma definiam como destino de colónia de férias para os filhos os melhores hospitais psiquiátricos. Muitos de conhecimentos (Solomon e Ginsberg) foram travados nestes locais. A temporada oferecia medicação e os tradicionais choques eléctricos. Tudo isto soa a familiar se fizermos um exercício de memória e nos lembrarmos de de Ken Kesey (autor de One flew over the Cuckoo’s Nest), ponte entre a Beat Generation e a concentração Hippie.

Voar pois a esta altitude nos anos 50 era picar o ponto. E ainda hoje é. O sentimento de culpa parental e o fosso entre gerações continua a ter resposta pronta de alguns (demasiados) maus terapeutas com soluções rápidas. Se nos anos 50 homossexualidade e ansiedade simples de questionar o mundo era sinónimo de comportamento disruptivo, hoje acrescenta-se a dimensão que nem a normalidade é normal. Birras, desmotivação e dificuldades escolares são catalogadas facilmente como bipolarismo ou déficit de atenção quando os petizes não são facilmente apaziguados com a compra de um iphone ou de uma PSP. Na altura, pior; não havia moeda de troca nem resgate. No meio deste sufoco, a ruptura era sempre previsível. Se uns vêm a saída na evasão virtual e na dinâmica “touch”, a criação artística foi insuficiente para manter Elise de uma saída com 7 andares de altura em voo picado. Deu a si mesma alta do hospital Bellevue e dirigiu-se a casa. Tinha 25 anos e o anonimato soube-lhe bem. Hoje, não sabe; os 15 minutos de fama são obrigatórios e enquanto o alarme não toca, manda a pressão que sejamos eternos de qualquer forma (Columbine does it).

A escolha do local foi mais do que simbólica; o isolamento do Caramulo surgiu como alternativa perfeita à escolha original do Hospital Miguel Bombarda. O primeiro conhecido como a principal estância sanatorial da Europa, só recentemente foi descortinada a quantidade de mortes derivadas de falta de “escola” por parte dos médicos bem como muitas experiências feitas em pacientes com menores capacidades económicas. A sessão deu-se no estado de vigília entre a 1 da manhã em Lisboa e as 3 da tarde no Caramulo com a correria prévia de encontrar uma modelo em cima da hora (surgiu um milagre da fotogenia chamado Cláudia). A maioria das fotografias foi tirada no antigo Grande Sanatório do Caramulo e no Sanatório Infantil. Neles encontrámos assustadoramente muito das Elises deste mundo. Alienação de um espaço/corpo (como existem muitos) que poderia ser aproveitado. Corredores pavimentados com carrinhos de rolamentos, ervas daninhas, auditórios com colónias de morcegos, salas de luz imensa e pequenas pistas vivas para quem as quiser descortinar de gente anónima. E fez-me pensar que o pior que existe não é o anonimato mas memória apagada.O seu nome adaptou-se de forma profética à sua vida. Elise Nada Cowen, chamada por vezes de Ellipse, desapareceu como o seu nome do meio de forma orgulhosa. Ela entre muitas elas. (Pianíssimo).

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