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Dois Projetos de Arte Pública

Em Lisboa, podem ser observados dois trabalhos contemporâneos de arte em espaço público de naturezas diferentes (uma instalação escultórica e um painel mural) de duas artistas já experientes no desenvolvimento deste género de práticas.

Ambas as obras visam lembrar e evocar a memória dos 40 anos do 25 de Abril. Qualquer dos dois projectos teve o apoio da Câmara de Lisboa e apresentam visualmente uma qualidade e interesse estético/artística, afastando-se de uma linguagem estereotipada mais panfletária. A primeira peça é de Catherine da Silva designer de iluminação luso-francesa, sendo um projceto geminado com a Cidade de Paris e instalado no Largo do Carmo; o segundo é da pintora Tâmara Alves e foi colocado na fachada lateral do edifício Forum Lisboa. As Girândolas de Luz são uma produção no plano iconográfico de teor simbólico e de caráter conceptual mais acentuado do que o mural que vive essencialmente de uma composição expressiva ao gosto do seu estilo pessoal.

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A instalação de luz sob a iniciativa da Associação 25 de Abril é constituída por dois momentos: oito girândolas, flores metálicas e esguias distribuídas no espaço central do Largo e oito projectores de luz. Os oito cravos de luz representam as reuniões principais preparatórias do Movimento dos Capitães que antecederam o 25 de Abril e que tiveram lugar em vários pontos do país. O resultado da intervenção artística é a projecção de luz nas fachadas dos edifícios do Largo do Carmo mencionando as datas das reuniões e as coordenadas geográficas dos referidos lugares.

A activação do equipamento realiza-se por ordem cronológica, na qual a luz branca da flor passa a vermelho; sendo um trabalho de luz para chamar a atenção para esse período especifico. No final da instalação para fechar o ciclo previsto para Setembro, sete das oito flores irão ser deslocadas para as zonas onde foram feitas as reuniões e a oitava ficará em Lisboa.

O Largo do Carmo foi escolhido com um duplo significado e obedeceu a dois grandes momentos da nossa História: as Ruínas da Igreja do Carmo vestígio do terramoto de 1755 e o início da queda do regime há quarenta anos. Catherine já colaborou em vários eventos, como a Luzboa onde a acção da sua intervenção também esteve ligada às projecções de luz revelando um resultado subtil e poético que a carateriza. Esse exercício visual é bem visível nas pétalas de luz onde a sua forma discreta e silenciosa adequa-se ao espaço, não perturbando as linhas arquitetónicas de uma monumentalidade oriunda de um passado longínquo.

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"Gosto especialmente de paredes desgastadas "(t.a.)

O mural O 25 de Abril hoje que evoca a rica tradição dos murais políticos é de Tâmara Alves tendo sido vencedora (de entre 21 concorrentes) de um concurso lançado pela A.M.L conjuntamente com a GAU e presidido por Júlio Pomar. É uma artista urbana que se inspira na cidade, utiliza diversos suportes, cruzando a pintura com a ilustração e o graffiti, a instalação com a performance.

Interessa-se por uma arte que se insere no mundo, abandonando os museus, para apresentar as suas obras nos espaços públicos. Trata-se de uma composição formada por uma dezena de figuras numa dança em movimento e uma pomba desenhadas a preto e branco, sob um fundo rosa com apontamentos a vermelho, numa alusão ao cravo nas extremidades como que rematando o painel. O conjunto da figuração retrata um jogo de mulheres e homens de igual para igual, um povo unido numa dança que mantém o conceito de trabalho de equipa com variadas posições ora de cabeças erguidas, ora inclinadas com a cabeça para baixo, com os corpos entrelaçados, abraçando-se uns aos outros, lutando em uníssono numa total entreajuda.

"O meu desenho não é algo que possa ser feito de maneira rápida nas ruas. Desenho sempre à mão, sou muito perfecionista e minuciosa". Tecnicamente este trabalho realça a importância do desenho, oferecendo uma dinâmica própria através de linhas de força da atuação dos corpos em acção num gestualismo cheio de energia como se se tratasse do começo de um bailado coreográfico bem orquestrado onde cada personagem tem a sua história para contar, umas mais dramáticas, outras mais serenas mas onde globalmente todas transmitem através do calor humano, o resultado de uma inquietação onde a tensão impera.

Em simultâneo, são destacadas as manchas das superfícies pintadas que têm a função de ajudar a compor o traçado da narrativa numa atuação que caracteriza o tratamento moderno através da sugestão de traços mais sugeridos do que descritos. Numa conciliação acertada entre desenho e pintura, existe algo que permanece em aberto e de inacabado onde os corpos aparentam alguma fragilidade e delicadeza anunciando uma certa libertação.

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