MÚSICA

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Fotografias: Alípio Padilha.

Figura feminina debruçada sobre si. O rosto coberto. Cabelos negros, esses longos encobrem o rosto. Movimento livre, simultaneamente sincopado e contraído; não contraditório. A liberdade é interior. Pina Bausch? A evocação da transcendência? Lisboa, e nós lisboetas, soltamo-nos. Aproximadamente, a meio do concerto de Forest Sword, no Musicbox, esta imagem impregna-nos. Por mim, na orla de um oceano. Por mim, a imersão como única decisão. Cada um, a sua escolha. A liberdade da escolha, a opção sempre. A liberdade. Assim desde a primeira música.

Matthew Barnes e a tela branca no primeiro tema. Ele e a matriz electrónica. Não como síndroma da folha/pauta em branco, mas como manifesto. A partir daqui, todos os caminhos possíveis. Uma ode libertária. Embarquemos. Definitivamente não nos cruzeiros que atracam, mas na jangada. Seguimos à bolina e nas amarrações dispersas. Guia-nos por uma cidade nova que nos dá a descobrir e que queremos avidamente conhecer. Irmão nado em Liverpool, porque não? Matrizes e matizes electrónicas da segunda década do século. Somos cosmopolitas. E assim vamos. A evocação da transcendência. Nesta cidade saturada, da ditadura dos shots e dos copos de plástico é ponto de fuga. Fuga celebratória. Do quinquagésimo concerto da digressão para eles, sim James acompanha-o no baixo, e para nós. Há esperança nos olhares.

E esperança é alicerce. A esperança na contaminação. Dub? Definitivamente, tantos momentos. Sussurros, igualmente. Drone e trip-hop, também. Comparações com Burial, inevitáveis. Assim é apresentado na folha de sala, e não podemos deixar de concordar. Concordamos e acrescentamos, porque é mais, muito mais. Tece sonoridades. Camada sobre camada constrói universos. Na apresentação do aclamado álbum Engravings são sedimentos que pousam, sem necessidade de martelo ou de compressões abruptas, entrecortar de sons, diálogos com eco, penetrantes, ramos rítmicos que se entrecruzam. Anos-luz.

Peter Evans, dois dias antes no Panteão Nacional dispara trompete. Trompete, atmosfera, trompete e eco. Genialidade pura. Um trompete e manta sonora. Evocação. E, voltando a Forest Sword. Eco? Sim, mudo. Profundidade. Imersão. Novamente a figura feminina, de vestido branco, de cabelo negro, e imersão. Somos Taris, roi de l’eau. Continuar submersos, nadar e nadar.

Forest Sword é concerto nosso. Só. Só nosso. E como, tanto. Musicbox? A casa de todos nós. De quem não se conforma com Lisboa do turismo massificado, de quem procura alternativa. De quem vê ±, de quem já assistiu a Planning to Rock, a Flama Blanco, das Noites Príncipe. A ancoragem é aqui. Obrigado Matthew Barnes.

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