DIÁRIOS DO UMBIGO

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Este Inverno estava a ser assustadoramente apocalíptico, embora as garrafas de Gin continuassem a ser esvaziadas com a delicada mecânica de sempre. O telefone não toca há vários dias, a folha que está na máquina de escrever tem tanto pó que não consigo perceber onde acabei a frase. No gira-discos só há Louis Armstrong a cantar o W.C. Handy, também ele coberto daquele pó característico que faz estalar as velhas colunas de madeira.

A roupa está mais ou menos arrumada, cortesia da Tânia que aparece sem avisar e, caso a vontade de tirar a roupa seja pouca, diverte-se a arrumar as minhas camisas e roupa interior como se quisesse terminar ali a sua juventude e tornar-se numa Mulher com aliança no dedo.

No fundo, tudo não passa de uma brincadeira para ela e a sua jovialidade enche-me de alegria e um ligeiro arrepio na espinha transforma-se logo em desejo.

A Tânia diverte-se com este homem mais velho e acho que é ela quem me ensina realmente a olhar para esta existência sombria com a vitalidade necessária para esquecer os velhos poemas de amargura.

Num final de tarde aparece-me em casa e atira o seu casaco para o chão, como de costume, saltando para cima de mim com um beijo desajeitado, tal como é normal. Ainda no meu colo explica-me com a alegria dos seus vinte e três anos que tem planos para hoje.

"Um amigo meu que é realizador de cinema vai mostrar a sua nova curta-metragem no Bicaense. Vai lá estar muita gente fixe."

As propostas da Tânia são sempre interjeições sem direito a negação, não consigo dizer-lhe que não. Mas isso acontece-me frequentemente com as Mulheres e com as garrafas de Bombay Sapphire.

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A caminho da Bica, ainda a ajeitar o casaco, explica-me que é um colega das Belas Artes que se tornou realizador e que assina a sua primeira obra. Fujo destes realizadores e das suas primeiras obras como o Luís Represas do barbeiro; cinema para mim é uma estória bem contada. Odeio violentamente aqueles onanismos que não servem propósito algum a não ser a exaltação do nada. Tenho mais que fazer.

Aquele bar sempre me trouxe boas recordações, boas conversas patrocinadas pelo álcool que podiam dar em revoluções mas que eram esquecidas com a ressaca do dia seguinte. Enquanto atravesso o bar até à sala onde uma multidão se ajeitava para começar a sessão, recordo-me de alguns episódios caricatos e quando a Telma aparece como um fantasma na minha memória a Tânia empurra-me para um canto porque estava mesmo a começar.

Trata-se-se de uma mostra de curtas que acontece todas as semanas sempre às terças-feiras onde há duas curtas-metragens a concurso, com conversa e presença dos senhores realizadores. Esta noite era excepcional porque estavam três curtas em competição. Perguntei-me onde se votava mas não me pareceu que o público contasse para alguma coisa.

A multidão era considerável e achei que iniciativas assim fora da elite eram uma boa forma de combater o amiguismo inerente às artes em Portugal. Se toda a gente tiver uma oportunidade o mundo torna-se mais justo. Quem me dera ter assistido a tertúlias destas há uns anos atrás quando começava a escrever as primeiras frases.

A primeira das curtas abriu-me logo o apetite. Era um Noir em Português com três mulheres belas, uma delas detective. Havia um assassinato e alguém incriminava a actriz principal, coisa normal, mas a estória vai-se desenrolando com alguns twists que me deixaram de boca aberta. Não estava à espera do desenlace e notei alguma inexperiência na realização mas este filme fez-me sorrir. Há quem me compreenda, afinal. Quero conhecer este gajo, tenho umas ideias para um Noir que envolve uma ruiva e uma morena.

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A Tânia notou a minha satisfação e fez aquele sorriso característico que ela faz sempre que ganha uma discussão. Afinal eu estava a gostar.

Mais um Gin pedido à pressa que o segundo filme estava a começar. Desta vez era uma adaptação de um texto de teatro com uma personagem peculiar, um médigo legista tranvestido, muito bem interpretado. Soltei uns sorrisos valentes mas tentei conter a minha satisfação não fosse a Tânia notar. Um homem não pode dar parte de fraco, não é?

O terceiro Gin já foi sorvido mais devagar e encontrámos duas cadeiras para ver confortavelmente o último filme que era aquele do amigo da Tânia. Espectativas em alta, a primeira cena começa.

Acho que entornei um bocado de Gin. Não queria acreditar naquilo que estava a ver e já tinha visto muita coisa na minha vida. Gostava de descrever aquele filme mas só me lembro de uma sucessão de cenas sem nexo com três más actrizes em planos com uma luz duvidosa. A salva de palmas que se seguiu confirmou que afinal o povo quer é isto: metáforas enxertadas com muitos pós de absolutamente nada.

Pensei cá para mim, anda uma mãe a criar um filho para ele fazer estas coisas.

Olhei para a Telma e ela pareceu ter gostado mas ao observar a minha expressão ficou preocupada.

Cá fora retomo o fôlego e conseguimos conversar mais a sério.

"Tu não consegues perceber nada do filme porque nasceste num bairro rico"

"E o que é que isso tem a ver? Uma pessoa não escolhe onde nasce".

"Por isso mesmo, não consegues enquadrar-te no contexto porque só conheces uma realidade".

"Eu quero lá saber da realidade, eu fabrico a minha própria realidade ou já te esqueceste que até escrevo umas coisas?"

"Mas isso não te dá o direito de criticar a visão artística dos outros!"

"Pois não, mas dá-me o direito de querer dizer ao teu amigo que procure outra profissão porque aquele filme é como uma parede por pintar. Talvez tivesse feito melhor em seguir advocacia ou construção civil."

Reparámos que estávamos a caminhar no sentido contrário. Já no Cais do Sodré lembrámos que o jantar não tinha existido por isso continuámos a conversa na Merendeira com um caldo verde.

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Comemos em silêncio durante um bom bocado até que ela pousa a colher e quase que murmura:

"Tens razão, aquilo não tinha estória nenhuma."

Sorrio, triunfante:

"Queres voltar para casa e ver um filme em condições?"

"Só se for um daqueles que fazemos sem roupa, pode ser?"

Não sei onde isto vai parar, mas esta miúda percebe-me melhor que as minhas próprias palavras.

Subimos até Campo de Ourique de mãos dadas como duas crianças crescidas e a Tânia era uma femme fatale que se dirigia ao meu gabinete de detective com um problema e uma forte vontade em tirar o vestido.

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