MÚSICA

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Fotografias: Luís Martins.

Seis da manhã, dia em duas horas, frio e claridade suficiente para antever somente o automóvel da frente. Invulgarmente a sensação não é de desconforto. Viaja-se com os pensamentos. O mesmo na curva de sempre com os néons das superfícies comerciais e armazéns e que por megalomania inconsequente e sem despudor apelidamos de “A curva Los Angeles”. A Segunda Circular e o nó de Alfragide, a cidade que se expande, a dos limites difusos e feitos na cerzidura dos interstícios. Cidade que servira como personagem desolada no filme de Marco Martins – Alice. A outra metade do bilhete-postal – sem hotéis de charme nem loja gourmet, sem selfies nem cafés cliché.

17 monitores sobre o palco, 18 para ser exacto e o maior deles todos, aquele que permite sair e voltar ao Maria Matos nos instantes desejados. 17 monitores que projectam imagens sem identificação imediata, reconhecíveis mas não apropriáveis, sem carimbo de elegância e sofisticação. São cruas, repetitivas e que conjuntamente com as sonoridades do trio constituído por Alex Zhang Hungtai (Dirty Beaches), saxofone e guitarra, Shub Roy e André Gonçalves, electrónicas, construíram, camada por camada de mosaicos fragmentados, uma matriz sonora, densa, hipnótica, absorvente para a maioria, desconfortável e agreste para outros. Em quase hora e meia de actuação, não necessariamente de concerto no sentido tradicional, recorde-se a discussão que gerou The Knife em Paredes de Coura 2013, o trio foi capaz de materializar o resultado da residência artística que realizou por encomenda da ZDB, através da exigência, de estruturas musicais iminentemente contemporâneas, de mantras sonoros em permanente submersão.

“Sou o meu próprio país”, “Imagino que a pátria seria um passaporte de colagens, paisagens e recordações acumulados ao longo da vida e dos quilómetros”, refere em entrevista a Sérgio Hydalgo, Alex Zhang Hungtai. As memórias, as colagens e o desejo de avançar, sem a necessidade de um rumo imediatamente identificado, tornam o trabalho de Dirty Beaches fascinante. Longe os tempos de Badlands, que surpresa a actuação de há dois anos no aquário da ZDB, ou mesmo de Drifeters, mais próximo de trabalhos como a banda sonora de Water Park de sonoridades diluídas, de centralidades dispersas, de errâncias permanentes.

A Umbigo, em artigo publicado o ano passado, imaginou-o em digressão entre Marraquexe e Lisboa, e com ele, um par de alpercatas. Desconhecemos se ainda andará à procura do suissinho, muito certamente ainda calça alpercatas e com toda a certeza voltará a Lisboa. A cidade precisa de quem a dispa, de quem a confronte, de quem lhe mostre as costuras. Alex Zhang Hungtai é o novo homem na cidade. Deste nevoeiro, quem sabe, se não salvação, pelo menos virá inquietação e interrogação, o que convenhamos, já é passo gigante.

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