MÚSICA

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Falar do concerto da passada quarta-feira no Teatro Maria Matos é tudo menos uma tarefa fácil. Nunca conseguirei dissociar o meu sentimento à qualidade do próprio concerto e momento.

Ainda as luzes estavam acesas e sentia as asas das borboletas a baterem dentro do meu estomago. Quebram-se as luzes e sussurro “até estou nervosa”. No palco estão três lugares bem definidos, o de Teho Teardo, compositor italiano responsável por trilhas sonoras de vários filmes, nomeadamente o Vida Tranquila, tendo recolhido prémios com o seu trabalho. As suas colaborações têm sido variadas junto de nomes como Lydia Lunch, Placebo, Mick Harris / Escárnio, Girls Against Boys e muitos outros. Junta-se agora a Blixa Bargeld, cujo nome quase dispensa apresentações pela grandiosidade do seu percurso.

Blixa é alemão, nasceu em Berlim Ocidental, e este poderia ser apenas um facto, mas a questão é que isso influência muito a sua arte e capacidade criativa. A tecnologia alemã está presente no seu experimentalismo musical, como se nos quisesse dizer que instrumentos todos têm, e a música é algo que se encontra ao alcance de todos. No entanto, no seu caso, a música é arte, é performance, é teatro, é emoção, e a nossa mente vagueia por todos os mundos onde ele reside. Mentor dos Einstürzende Neubauten e com colaborações muito presentes com Nick Cave & The Bad Seeds, Alva Noto, entre outros. A sua participação em filmes tem sido frequente, contando com 14, pelo menos no seu portfólio.

São acompanhados por Martina Bertoni, a elegante violoncelista que ajuda a conferir a intensidade dramática a toda a cena. O palco transborda elegância, Blixa é um senhor de uma imagem cuidada, irrepreensível, e a postura pode-nos dar a ilusão da austeridade alemã, mas nada mais errado, ele é dotado de um sentido de humor incrível, sarcástico qb, e de repente estamos sideramos, rendidos defronte dele.

O reportório abrange todo o trabalho feito por este trio, o álbum Still Life, o mesmo que foi apresentado no ano passado em Leiria. Blixa atreve-se aqui a abraçar uma nova língua neste seu percurso, diz não se sentir à vontade com a língua italiana, mas a meu ver isso torna tudo ainda mais sedutor, intervala com a sua língua mãe e dirige-se à plateia em inglês. A diversidade de sons, a técnica o perfeccionismo de Blixa está presente a cada momento. Os seus gritos dilacerantes e viscerais que tanto o caracterizam vão e vêm numa espécie de coro, que ele grava à medida que os vai emitindo, e com a ajuda da tecnologia e recurso ao pedal, volta a eles sempre que necessário.

A intensidade desesperante e bela de Still Smiling, Come Up and See me, What If?, são aligeiradas com um tom que por vezes Blixa adquire, o seu lado crooner e entertainer, quando introduz os próximos temas, Buntmetalldiebe e A Quiet Life.

Brinda-nos com um tema de Caetano Veloso cantando em inglês, The Empty Boat, momentos antes de nos ser apresentado o quarteto de cordas que foi convidado a participar neste evento: o Quarteto Lopes-Graça.

Seguimos assim rendidos até ao fim, até sermos presenteados com a mais bela forma de encerrar este concerto, o facto de Blixa e Teho terem resgatado um “one hit wonder” gravado por Patrick Samson na década de sessenta, Soli si Muore / crimson and clover, carregada de sentimento é a forma que encontrou para nos deixar encantados e nos desfazermos em elogios à saída do auditório.

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