MÚSICA

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Uma esquina branca e um charrriot. Azáfama bastante para um Sábado à tarde. Miúdos e não tanto apressam-se a trocar de roupa. Com a mesma peça, novas combinações de cor e formato. Alegria que não é imediatamente associada a um espaço mais ou menos institucional como o de um museu. Há exposições que têm esta capacidade de gerar atmosferas, simultaneamente, estranhas e acolhedoras. Há dois anos, os parangolés de Hélio Oiticica tiveram a boa desfaçatez de subverter um edifício tão incrustado em estrutura ambulante.

E de arrojo se fala quando se assiste a um concerto de Egberto Gismonti, ali bem ao lado no Grande Auditório do CCB, no passado sábado. O tom é bem mais formal. Não há parangolés, muito menos penetráveis e os papagaios e araras não escolheram esta rota. Egberto apresenta-se de calças e camisa preta, com o célebre lenço na cabeça, desta vez vermelho. Senta-se e pega na guitarra. Desliza, dedilha e quando considera conveniente acentua uma ou outra nota. Irrepreensível, como sempre. Após os primeiros temas – Alegrinho & saudade, Mestiço caboclo & dança, Águas luminosas & Bianca & águas avança para Salvador. Com uma mão no braço da guitarra a apanhar as cordas, a libertá-las, a jogar e a dançar com elas como cavalheiro pega em senhora, e com a outra, bate na madeira, uma espécie de batuque, como não, mas sons que teriam cabimento em qualquer festa Andaluza. Transforma, não exageramos se afirmamos que parangoleia, a guitarra no autêntico cajón flamenco. Selva amazônica, Lundu, Dança dos Escravos termina o fraseio com a guitarra, o baile, o jogo, o diálogo interno.

Passo firme, decidido, com a solenidade mais própria de um europeu, afinal Egberto desde cedo encetou colaborações com diversos músicos deste continente, tendo publicado inúmeros discos pela editora de Munique ECM, dirige-se para o piano. Salta de 7 anéis para Maracatú para Infância com a precisão de quem conhece o piano como a sua alma. Cria desequilíbrios, reconstrói equilíbrios, forja outros, como um edifício que se espera se venha a desmoronar a qualquer instante. Segue o trilho dos ritmos e combinações perfeitas. O arquitecto das harmonias impossíveis?

Antes dos dois encores e, já quase no final, decidi falar. Desculpa-se, pelo facto, “Já no Porto tinha sido assim de tão concentrado que estava.” A herança dos portugueses, a saudade, o cuidado com o próximo, e sempre, sempre, o que para muitos é desaforo – a mestiçagem. Essa capacidade em se abrir, em ser curioso, em aprender com os outros, em se transformar e crescer com esse processo.

Em noite de várias propostas aliciantes, Mike Watt na ZDB, Tudo é vaidade no São Jorge com Ana Moura, Samuel Úria e Selma Uamusse ou ainda PZ na Casa Independente, foi este o parangolé que escolhi vestir. Assenta-me bem na cor, no formato e na liberdade.

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