DIÁRIOS DO UMBIGO

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Há alguns anos atrás, quando o sangue ainda fervia cá dentro com a loucura de um furacão, que hoje o álcool já evaporou toda a minha sanidade, saltava de aventura em aventura como se começasse um livro e o abandonasse a meio, querendo lá saber como seria o final.

Mulheres belas espreitavam em todas as esquinas do Bairro Alto com os seus lábios húmidos a pedir conversa, a brisa que por ali soprava era de aventura. Os bares tardavam em fechar e desembrulhavam-se discussões líricas que ora acabavam com o amanhecer no Cais do Sodré ou numa cama bordada a desejo. Cigarros amontoados nos entretantos da calçada e copos em esculturas megalíticas, era um tempo onde as saias eram mais compridas e os escritores ainda dominavam os becos de uma Lisboa sem Centros Comerciais.

Obrigado pela matriarca a desenrascar-me na vida (as manchas de tinta da escola de artes ainda não tinham secado) vi-me atrás de um balcão numa loja muito em voga no Chiado. A dona do boteco, Teresa de seu nome, também ela uma amiga dos pincéis e da grafite, tinha-me tomado o gosto e os olhares deram em sorrisos e os sorrisos acabaram em pequenas escapadelas no minúsculo armazém daquela loja muy cobiçada.

Se quiserem culpar alguém da minha gula pelo Gin, falem com a Teresa.

De dia vendia roupa moderna e à noite rendia-me à boémia, e uns meses passaram até aparecer a Telma.

Começou a trabalhar lá na loja e eu odiava-a. Engraçada, nariz empinado, corpo de curvas intrigantes, sempre sorridente e prestável. Um snobismo assolava-me e considerei-a culpada de todas as minhas imperfeições. Mas quis o acaso que um bikini cravado na minha íris derretesse o meu fraco coração.

Quando sozinhos na loja evitava-a, e ela parecia divertir-se com isso, provocando-me. Descobriu por acaso que me davam os ares da escrita e não havia piada que não envolvesse humilhação de tão nobre profissão.

O Verão chega e com ele um novo desafio. Teresa, sem profetizar o desenlace que viria da sua missão, envia-nos para o Algarve para participar numa qualquer mostra de moda, representar a sua loja com nobre dedicação. Uma semana fora de Lisboa soa sempre bem, e lá fomos.

Acho que começou no momento em que ela chegou no seu carro minúsculo de óculos escuros e vestido curto. Deve ter sido a forma segura como carregava no acelerador ou a gentil descoberta de um pouco mais das suas pernas quando engatava a quinta mudança. Pode ter sido também o vento nos seus cabelos ou o olhar divertido com que me olhava.

Não. O primeiro arrepio que a Telma me provocou foi culpa do Robert Plant.

A viagem de ida foi quase sem palavras. Lembrei-me de trazer uma velha cassete dos Led Zeppelin que nos acompanhou na auto estrada. Uma espécie de compilação, gasta de tantas audições na rebeldia adolescente enquanto os amigos se divertiam com os Sonic Youth ou com os guedelhudos das garagens norte-americanas.

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A Telma sabia as letras quase todas de cor, murmurando-as enquanto abanava a cabeça embalada pelos solos do Jimmy Page.

Ao chegar ao Algarve tive uma premonição, antes mesmo de sairmos do carro. Aquela rapariga que tanto me irritava afinal começava era a suster-me o coração.

Dois quartos de hotel num lugarejo convertido em cemitério de arquitectos. Hotéis, resorts e pilhas de betão sem nexo cresciam como ervas daninhas. Hordas de turistas amontoavam-se com os seus ridículos panamás e lancheiras enormes em direcção às praias apinhadas. Era a minha primeira vez no Algarve e parecia que não tinha saído de Lisboa.

Fiquei uns bons minutos no meu quarto com vista para a confusão, deitado na cama a olhar para um tecto normalíssimo. Pormenores surgiam-me; o puxar da alça do vestido, uma mão que domina um cabelo selvagem, uma mordidela nuns lábios carnudos, um roçar de mãos acidental, uma viagem de calafrios e suspiros embalada pela violência da bateria do John Bonham e do bater do meu coração.

Nem ouvi bater à porta. Ela entrou pelo meu quarto e, talvez por culpa do sol que entrava com força esculpindo-lhe os contornos de um corpo de menina crescida ou talvez pela minha incrédula surpresa, o que é certo é que caí da cama, sobressaltado por tal visão de céu e inferno.

Ainda no chão confirmei-lhe outro vestido e um bikini que espreitava timidamente, os pés calçados nuns velhos all star brancos.

"Tens dois minutos para vestir o fato de banho. Anda".

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No caminho para a praia tive um impulso em agarrar-lhe a mão, como se estivesse a ter um deja vu do que se iria passar nos dias seguintes. Encontrámos um lugar vazio, ensanduichados entre um casal de ingleses e uma família portuguesa.

Demorei algum tempo a decorar-lhe os contornos do corpo já mais despido. Se o teu corpo é instrumento preciso de aprender a tocar-lhe. Ela repara na minha insistência visual e aproxima-se mais de mim, tirando os óculos escuros.

Fiz logo ali uma promessa, Telma: irei tomar-te o coração.

A conversa foi longa, e à noite jantámos e ocupámo-nos a observar a fauna que andava neste lugar. Os copos de vinho desapareciam como papel na fogueira e depois de um pequeno abastecimento no único supermercado da zona subimos até ao meu quarto.

A conversa muda de tom e entramos mais a fundo nas nossas complexidades. A lua entrava de forma discreta e embalava a nossa proximidade. As pausas foram-se tornando mais longas e reparei que ela ainda tinha o bikini por baixo do vestido.

A frase foi ecoada como um relâmpago, humedecida pelo resto da cerveja, e ficou a pairar no vazio do quarto.

"Não sei o que me fizeste, mas só me apetece tocar-te".

Encosta-se a mim e ampara a sua cabeça no meu colo, eu contei-lhe os fios do cabelo e uma violência carnal disparou cá dentro. Puxo-a para mim e o primeiro beijo quase que nem é um beijo porque o vestido dela já estava no chão. O romantismo vem depois da carne.

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Ali, banhados por aquela lua azulada, detivemo-nos numa sofreguidão de suor, unidos por uma intensa vontade de possuir o corpo um do outro. O sal que secara no seu corpo não estragava a doçura do seu sabor, o cheiro a maresia entranhado na sua pele levava-me por oceanos sem destino.

A noite rapidamente se fez dia, e de manhã sabia de cor todos os recantos daquele corpo que já fazia parte de mim.

E foi nesse momento, enquanto ela dormia, que escrevi a última página do nosso livro, que dali a cinco anos seria impressa e cravada a sangue frio na nossa vida, como uma tatuagem, e assombraria também todas as palavras e adjectivos que no futuro iria escrever.

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