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Os The Who não precisam de introduções. Ganhando fama como a banda über-mod de referência, os The Who irrompem pela cena musical inglesa como uma das mais explosivas bandas alguma vez vistas até então. Com um forte sentido estético e actuações permeadas de finais caóticos e de destruição avassaladora, os The Who estavam no sítio certo, à hora certa. My Generation de 1965 era o seu grito de guerra com o qual se identificava uma geração presa entre os tradicionais valores britânicos pós guerra e os tempos mais livres do final dos anos 60.

Se há um adjectivo que não qualifica os The Who, é o adjectivo 'estagnado'. Rapidamente começaram a evoluir para novos caminhos. Ainda com fortes resquícios mod, A Quick One de 1966 demonstra já as ambições do grupo incluindo até uma 'mini-ópera' no tema título do álbum.

Chegado o ano de 1967, novas tendências começavam a emergir no mundo musical e não só. Com o aparecimento da vaga psicadélica original, muitas bandas já estabelecidas como os Beatles ou os Rolling Stones fizeram incursões pelo admirável mundo novo da psicadelia. No caso dos The Who, acontece talvez a incursão mais interessante.

Ao seu terceiro álbum, os londrinos inventam o concept album. The Who Sell Out (1967) é uma emissão de rádio onde eles têm a liberdade de conciliar sonoridades mais modernas (como Armenia City In The Sky) com sonoridades mais clássicas (Mary Ann With The Shaky Hand) para o que era a música não só da banda como da época. Transição é talvez a melhor maneira de descrever a proposta apresentada pelos lordes do movimento mod para 1967, abraçando o novo movimento sem negligenciar as raízes.

No entanto, o single I Can See For Miles não cumpriu as expectativas do grupo, levando o temperamental guitarrista a proferir a lendária frase "I spat on the British record buyer". O que me leva a pensar no tema Melancholia.

Gravado nas sessões do álbum, este tema foi só editado em 1994 no box set Thirty Years Of Maximum R&B e juntamente com a edição de 1995 do The Who Sell Out. É um tema denso, com o veneno rancoroso a que os The Who nos habituaram. Rancor amoroso em que nada consegue levantar os espíritos de quem é deixado.

O seu delicado dedilhado inicial é seguido por um tema cheio de drive com passagens que demonstram o tormento da melancolia e coros angelicais que escondem desconforto e sensação de perda até chegarmos a um fim explosivo característico dos The Who. Liricamente, há uma junção de exemplos tão quotidianos como um café frio ou um cão doente que nos faz compreender o estado de espírito do narrador desta vinheta sónica, comparando o desgosto a um virus.

Se o Pete Townshend cuspiu em quem não comprou o single I Can See For Miles, o que faria a quem não gostasse desta faixa. Talvez por isso mesmo esta música, apesar de brilhante, foi deixada de parte. Felizmente, todos podemos agora partilhar a angústia da melancolia em versão sonora.

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