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Até 26 de Janeiro de 2014 encontra-se no CAM a exposição Gymnasion de Raija Malka.

A mostra foi concebida especialmente para esse espaço e quando a artista o visitou pela primeira vez imaginou que este poderia muito bem ser o de um ginásio. Essa foi a ideia inicial. Criou de raíz as obras (pinturas; esculturas/instalação, arquitetura e som) recorrendo assim a uma maqueta da sala que esteve no seu atelier durante dois anos. O próprio título que é central na exposição faz assim parte da temática do percurso e dos elementos ali conducentes inerentes à criação de um ambiente desportivo, num ginásio à espera dos visitantes e dos que pretendem ir treinar, no plano do imaginário.

Os dois bancos toscos corridos que se encontram na sala poderão exercer a função para o descanso dos atletas. O termo Gymnasion remonta à Grécia antiga, que o usavam não apenas para exercitar o corpo mas também a mente. Antes de entrar na sala surge uma enorme esfera de cor verde água que invade a entrada da exposição e impede que se possa observar a profundidade e a perspectiva do espaço em seu redor, cortando-o deliberadamente. A peça possui assim um forte impacto visual e plástico pela sua escala monumental encontrando-se como que sufocada sem poder respirar pelo facto de ficar entalada entre o piso térreo e o tecto, produzindo uma sensação de esmagamento.

No interior, encontram-se quadros e pinturas tridimensionais em que os títulos das obras estão associados a expressões directas de desporto. As esculturas de parede de cores lisas, monocromáticas composições de grande formato pousadas verticalmente, fazem lembrar os cortes de ténis em descanso. Estas pranchas cénicas podem também funcionar como portas de saída, como escapatórias do ginásio.

Num dos locais mais discretos da exposição figura uma esfera reduzida encostada a um dos cantos da sala podendo ser uma bola de ténis que ficou perdida no campo, contrapondo com a da entrada num jogo vai vem inerente ao ténis. As pinturas inteiramente bidimensionais visam realçar e enfatizar o tema da trama do jogo das peças tridimensionais, aparecendo esferas pintadas, desenhos de fragmentos de estruturas volumétricas geometrizantes, rampas, tábuas e plataformas indo ao encontro de uma reflexão sobre o ginásio.

O Corpo e a sua Finitude

Para além das telas e esculturas ouve-se uma banda sonora de uma partida de ténis que foi gravada neste espaço; sendo este um dos pontos basilares da mostra. A artista transfere o som dessa partida para a entrada da sala, permitindo ao visitante ter uma noção sonora mesmo antes de percecionar as obras. O som que se ouve é oriundo de uma ampla caixa tapada de negro, que mais parece a estrutura de uma urna, é uma das instalações mais enigmáticas da exposição que dialoga com a pintura preta e com os elementos no interior das telas.

Essa estrutura tem semelhanças formais com a sua obra apresentada na mostra Waiting for Godot na Galeria do Teatro Municipal de Almada. As batidas da bola poderão funcionar como uma caixa-de-ressonância ao ritmo do coração humano. Junto à escultura negra, encontra-se uma pintura, a única obra que não pertence à artista de Fernando Calhau, The Island of Dead segundo Arnold Böcklin, uma das suas referências.

Isabel Carlos vê nesta exposição uma reflexão sobre a vida e a morte, contudo, apesar de se tratar de uma mostra ligada ao corpo, não existe nenhuma representação figurativa. Tratando-se de peças abstractas, de forte cromatismo mas austera e despojada nas formas sóbrias e de traçado enérgico negro e espesso com pinceladas nervosas, de grande luminosidade e pureza formal que marcam o espaço criando jogos de perceção estimulantes que evocam e convocam o corpo.

Em súmula, tudo está meticulosamente desenhado no plano arquitectónico em total conjugação ao ponto de estarmos perante um exercício de um formato lógico onde está subjacente o pensamento de uma cenógrafa onde todos os elementos fazem parte de adereços e integram-se num cenário de um espetáculo que poderá estar prestes a começar.

No seu percurso anterior Raija criou cenários, portanto não é de estranhar a sua contribuição cénica que transporta para a galeria expositiva. Para além de pintora, fez uso da sua experiência como cenógrafa de espaços teatrais para criar obras onde a sala transforma-se numa espécie de pintura pronta para o público habitar, instalar-se e usufruir.

São diversos exercícios em simultâneo onde os suportes da pintura à escultura, do som à arquitectura sem uma fronteira definida diluem-se, formando um todo.

Raija Malka artista Finlandesa nascida em 1959 vive desde 2009, entre Lisboa e Helsínquia.

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