DIÁRIOS DO UMBIGO

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Não sei se por ter visto muito cinema independente americano se por ter ouvido muita música suburbana britânica, sempre senti um certo fascínio por aquele tipo de miúdas sombrias e solitárias que parecem guardar em si tanto de discrição como de mistério. Apesar de ter querido o destino que saísse uma extrovertida tagarela que de discreta pouco tem, todos os finais de ano e consequentes inícios, passo por um bizarro processo mental que me coloca num desgovernado 'merry-go-round' comigo mesma, na mistura caótica de vontades absolutas e de dúvidas absolutamente inúteis.

No meio da tontura e do desejo urgente que os pés consigam tocar o chão o mais rapidamente possível, dou comigo a pensar que sou uma dessas miúdas misteriosas. Ok, às vezes também acho que sou só uma triste personagem de um livro do Pedro Paixão que apenas tem de se deixar de merdas. Mas fiquemos na primeira hipótese porque ninguém aguenta a possibilidade da segunda.

Enquanto a parvoíce não passa, o clichet impõe-se: o alívio serve-se numa boa dose de açúcar e de música. De tarde de maçã na mão esquerda, vou deixar que a minha mão direita escreva sobre o álbum que melhor tem acompanhado o meu estado de espírito, um álbum que tão depressa não terá prazo de validade: Face the Sun – The Entrance Band

The Entrance Band - Medicine

The Entrance Band começaram por ser o espectacular playground para os uivos psicadélicos e de do guitarrista e compositor Guy Blakeslee que, enquanto Entrance, foi responsável por acrescentar Death ao clássico Sex, Drugs and Rock and Roll. Responsável por uma tão sombria, atraente e idiossincrática miscelânea de psych-rock e blues, em 2009, deixou de ser um solitário para liderar o colectivo composto por Paz Lenchantin e Derek James. Nesse mesmo ano, o álbum homónimo mostra a força do lado negro deste power-trio numa viagem circular por entre solos de guitarra psicadélicos, stoner rock aqui e ali e um groove folk à prova de bala.

Passados quatro anos, mais propriamente em Novembro passado, regressaram com Face the Sun. Mas não se deixem enganar pelo título, Blakeslee e companhia não saíram da escuridão onde se sentem tão bem. Este é sim um exercício de transformação, de expiação de adições, ansiedades e tristezas usando como ferramentas a psychadelia, o garage rock, o stoner rock que de tão grunge é quase metal e até pitadas de rockabilly.

The Entrance Band - No Needs

Face the Sun é composto por nove temas que de linear nada têm, um pouco como os elementos que compõem a banda. O ínício vigoroso e repetitivo com Fine Flow contrasta logo depois com um certo conforto angustiante que apresentam os temas MedicineSpider. Já The Crave traz arrepiantes e chorosos riffs de guitarra a lembrar os primeiros temas de Blakeslee. No Needs, o single escolhido para mostrar o novo trabalho, é um conto de optimismo pautado por uma onda quase surf-rock que nos dá vontade de dançar. Nite Cat, o tema de fecho, é um ziguezague quase hipnotizante que nos deixa no limite entre estar acordado e a dormir. No fim das contas, este é um belo álbum, claro na sua despretensão, ainda que a banda possa não ter encontrado a total clareza ou tenha derrotado os seus demónios.

Em Face the Sun, os The Entrance Band apresentam-se apostados em explorar as tensões que preenchem os dois extremos que ligam a Luz e a Escuridão, na esperança frágil de encontrar, no final desse processo, a primeira. E nesse esforço, eu pareço também estar a encontrar a minha.

The Entrance Band - Spider

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