MÚSICA

  • none
  • none

Gatekeeper, Fictional Boys e Emptyset universos distantes, somente na aparência. Cada um, planeta musical distinto, não com isso, vizinhos. Em exercício inábil de catalogação: música electrónica, dança, exploratória. Não sendo astrónomo, nem musicólogo permitir-me-ei inexactidões e imprecisões de natureza diversa, correndo o risco de colidirem. E colidiram. Em Lisboa, em três momentos geraram caos. E umas quantas interrogações.

Debrucemo-nos sobre a última ocorrência registada. Teatro Maria Matos, concerto de Emptyset, dia 10 de Dezembro.

Comecemos pelo interior, pelos autores. Projecto fundado em 2005, em Bristol por James Ginzburg e Paul Purgasem. Assumidamente “como um processo de conhecimento dos próprios”, na pesquisa de novos cruzamentos entre artes, contra a híper especialização, que segundo os mesmos, se verifica na produção contemporânea.

Como PSO J318 5 - 22, são planeta raro e para observadores atentos. Sala com bancada montada, o que vem sendo habitual em concertos de menor dimensão. Público conhecedor de cada pormenor e subtileza sonora e visual. Vamos percorrendo o caminho tacteando.

O sonoro é sincopado, o visual desordenado ou em aparências geométricas mais ou menos livres. Tactear, afigura-se como opção mais sensata. Há ausência de certezas, internaliza-se a novidade, reconstrói-se e caminha-se a cada momento. Vontade em ser pioneiro e correr riscos.

Na aleatoriedade da estrutura procura-se passagem. Porém, o piloto automático parece sobrepor-se. Do sobressalto inicial, seguem-se estruturas mais ou menos conhecidas.

A projecção num único ecrã mantem-nos focados num ponto demasiado tempo, e a música, em vez de procurar a aleatoriedade entre os diferentes vértices, tão intrinsecamente contemporâneo, limita-se a rota mais ou menos conhecida. Não tendo sido possível manter estas ligações em permanentemente estado de tensão, ficou-se com a sensação de um concerto algo plano, demasiado previsível.

A duração do mesmo, aproximadamente 45 minutos, para tal contribuiu. A meio caminho e, lá nessa paragem semi-longínqua, o espírito de pioneirismo perdeu-se. Outras soluções eram possíveis. Uma projecção assíncrona em quatro paredes, longe de ser factor distractivo, reforçaria a imagem de aleatoriedade, vazio/cheio e, em momentos determinados, contradiria a estrutura musical, ou reforçá-la-ia, se necessário.

A nível sonoroso, mais audácia nas interações entre intensidade, arriscar quase ao limite do audível, e ausências/silêncios seria bem-vinda.

Paredes de Coura, The Knife, talvez o exemplo maior, Gatekeeper em Fevereiro na ZDB, Fictional Boys no Lounge em Junho, em mais uma noite FÚ, bem como muita da programação do Lux indiciam que é na intersecção entre performance visual/auditiva que poderá passar o futuro dos concertos.

Sendo assim, duas questões. Por que é que não se organiza um festival de média dimensão nesta área? Não terão as galerias ou outros centros de produção artística uma intervenção importante na programação de um evento deste tipo?

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: