MÚSICA

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Estica o pescoço e com o rabo apoiado no calcanhar espreita pela janela. No recreio, nada de especial acontece. Nenhum motivo de interesse. Na sala de aula também não. Mas alguma vez lá esteve? O seu universo é outro. Concentra-se. De cabeça baixa e com os braços fechados, como tartaruga em casa, rabisca bilhete. Objectivo? A miúda da primeira fila. Nunca foi muito bom a falar, mas a desenhar arrisca. Um casaco cinzento e um par de luvas pretas. A professora intercepta-o. Não só não chega ao destino, como ainda tem de se justificar perante a turma. Ninguém se lembra do que disse ao certo. Nem ele. Mas, o resultado não esquece – pôs toda a malta a rir-se e a rapariga de quem gostava mais furiosa que vento de Inverno.

Desconheço se alguma vez Scott Matthew na sua Queensland natal passou por situação idêntica. Nem os motivos pelos quais nos delicia com canções tão melancolicamente alegres. Contraditório? Talvez. Mas não tanto. Quem assistiu ao seu último concerto, na passada Quinta-feira, dificilmente poderá ter saído do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém angustiado ou com vontade de lançar corda em limoeiro para encurtar pescoço. São canções sobre amor? Sim. E de amor não correspondido? Também. Sobre as angústias de andar apaixonado? Ainda mais. Mas não é motivo mais que suficiente? Não. Porque o que canta é o amor, não a tristeza, é a amizade. Não são canções tristes. Haverá alguma que seja? São odes à melancolia.

Perante uma sala praticamente esgotada e já a meio confessa – “Sinto-me diva.” O agradecimento a um público apaixonado e bem-disposto. Cada tema, emoção. Na guitarra ou na voz o instrumento não é técnica, é coração. E surpresa. Ouvir a Celine da Piedade cantar a versão de I wanna dance with somebody, original de Whitney Houston, é brincadeira que não esquecerá. Nem ela, nem nós. Inesquecível foi também a versão de Anarchy in the UK dos Sex Pistols. Reminiscências de uma banda na juventude. Punk o Scott Matthew? Mas, alguém com este coração deixaria de ter vontade de mudar o mundo? Fomos todos convocados para os diferentes aquis e agoras do cantor. Nós, e quem lhe serviu de inspiração: John Denver, os amigos e as adversidades, Burt Bacharach, Shortbus e as suas personagens, Neil Young (a versão de Harvest Moon não é decididamente melhor que a original – tens razão Tiago Castro), mas é dedilhar sentido. Assim, como no segundo encore, Love Will Tear Us Apart (Joy Division), a alma estava na laringe. Esgotado, convida-nos para ir ao bar mais próximo. Obedecemos. Bebemos copos com os amigos, escrevemos nos bilhetes para entregar à pessoa amada, depositámos dois euros para suportar a causa contra a homofobia. Isso tudo. De sorriso largo e coração cheio.

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