NOTAS SOLTAS

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"Avia-me um copo duplo que isto com um maço lights não vai lá", diz ele por entre gargalhadas de nicotina cuspidas no cinzeiro do chão. É assim a rentrée de mais uma noite de verão que se veste de interdições às quatro paredes caseiras, empolada pelo suor copiado à anterior.

Estou no Estádio do Bairro Alto e o jogo em directo está no intervalo entre o peso da noite passada e a ameaça da duas ou três visitas atrasadas. Tenho duas armas: um copo na mão direita e um cigarro na esquerda – ninguém teria coragem de se meter comigo sem ter atestado em condições.

No plasma, o circo ambulante tardio da política teima em arder nos olhos e desalinhar a harmonia dos ouvidos. “Estou indignado com esta política. Quero mudança” – refrões de taberna, ecos populares.

A, B e C chegam finalmente e já não estou sóbrio o suficiente para o resto do alfabeto. Consta que Paredes de Coura foi assim, as praias do Algarve estão como estavam e são horas de assaltar o MusicBox. So far, so fixe, diria o amigo Vasco. Pagamos pelo privilégio de não ter de pedir o próximo copo e lembro-me de assaltar o Capela a caminho do Cais do Sodré.

À porta já se ouvem as vozes electrónicas que a dupla Syndicate oferece a outros copos, há o protagonismo de uma ou outra cara familiar e a esponja dos ouvidos que partilham estéticas muito nossas.

“Boredom is a thing of the past” ouve-se num plano de fundo que não estranho ser britânico, seguido do som de queda de água abundante. Sempre gostei dos frutos do subconsciente que andam à solta no reino da embriaguez e que atingem o seu auge na literatura quase grafitada das casas de banho – a do Capela, um belo espécime pitoresco. É uma lotaria, que tanto nos presenteia com o irrelevante e o irracional como toca por vezes o poético em escatologias de lua cheia.

Despedimo-nos da familiaridade do som do António e da Elsa para desbravar meia dúzia de ruas a caminho do poiso que nos protege até às seis da manhã sem desculpas de fecho.

O eufemismo da caixinha musical sob o arco da rua do Alecrim estende um tapete vermelho a habitués e atiramo-nos de cabeça para passar as três horas restantes no deslumbre da companhia-performance que as luzes e o som nos presenteia. A fila para entrar é do tamanho da vontade de trocar calores de rua por êxtases interiores e a nossa entrada é verdadeiramente irrevogável, Dr. Portas.

Terceira hora/entrada: despem-nos os casacos que não temos por ser verão e vestem-nos de gin e outras heresias de bar que giram ao som de cabeças que rolam Yeah Yeah Yeahs e das promessas de noites felizes dos Daft Punk. Encontramos a nossa amiga Xana e o elixir da amizade traz abraços e convites de dance floor. “Não conhecias a Sarah? Como é possível? ou “Fizeste o quê ontem?!” – contornos de surpresa que lembram outras noites.

(A de Lisboa, como a vida, é cheia de intermitências de felicidade espontânea pontual e de momentos arrastados à beira de a reencontrar: engole-se o irrelevante, a circunstância derrotada, o episódio vencido e a sobrevivência do hábito em nome de uma proximidade e reconhecimento de que o meu peso também te é comum. E quando o som nos aproxima, a minha dor é a tua, o meu prazer é o teu.)

Quarta hora: assoberbados de noite, pedimos outro copo, alimentamos a proximidade, satisfazemos o ego da diferença, dançamos o que só nos pertence, comungamos do novo conhecimento – é tão gira aquela miúda que conheci agora à pouco –, lançamo-nos de cabeça à espontaneidade que grita carpe diem… e experimentamos aquela bebida que “sempre quis, sabes, mas por algum acaso...” –crónica de vontades derrotadas ao defrontar o hábito.

Quinta hora: às vezes, a meio da noite, aquele tema que corta conversas a meio; às vezes, a meio de uma conversa uma interrupção – porque há um projéctil humano às 12 horas que não vias há uma década e meia, pronto para cortar o fio de uma outra navalha; às vezes… enfim, às vezes há que cortar a cabeça de alguma cumplicidade, porque o imprevisto é padrasto e quando o álcool não passa o teste do balão social o caldo alheio pode ser entornado na nossa camisa ou na camisa alegórica da paciência ou de algum humor avulso.

Sexta hora: músculos mentais e físicos doridos. Emprestam-me mais espaço naquele canto da pista, porque, tal como o meu, o peso é comum. Vacila a energia, sobra o álcool – esse alimento dionisíaco da noite, agre e amargo, parceiro da batida do tabaco difuso em laivos de bass drum. Cérebro: amassado. Ao fundo, o ecrã que se desfaz em abstrações conceptuais; perto, a erva fumada na mesa sui generis da ponta acompanha olhos desfocados. O cinzeiro, artefacto esquecido, supervisiona a cinza que ornamenta o chão (lugar comum) e ocupa as trocas de conteúdo semi-vazio que ocupam os barmen.

Heineken't take it, diz o Filipe, sobrevivente da cerveja, e procura uma saída, demasiado pesada para os cumprimentos da despedida. No domínio do catatónico, sobram saídas (carecem entradas) ao passo que o sangue das luzes vermelhas lava o cenário e convida os desertores a cumprimentarem a porta da rua; gosto do pretexto e parece cada vez mais familiar. Faltam dez minutos para o fim, pouco menos para acabar a bateria do smartphone e do dono. O meu copo da noite está meio-cheio, outros meio-vazios, mas a gota que ameaça transbordar é do tamanho de um inteiro.

NoitesBrancas2

Cá fora, a estratégia de sobrevivência é a deserção e cada cabeça cambaleia a caminho da sua base. Faço um roteiro das horas em que a baixa pombalina passa por baixa combalida e já só vejo lençóis à minha frente. Um táxi pára, porque levantei aleatoriamente uma mão irracional, e pede-me direcções: “é para a rua onde eu moro, por favor.” Perplexo, o taxista arranca sem saber para onde ir.

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