DIÁRIOS DO UMBIGO

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Uma porta verde. Não entra. Não por falta de vontade. O lugar afigura-se acolhedor e misterioso em doses iguais, simplesmente está cansada. Acabava de subir a Calçada Cascão e antes a Rua dos Remédios. A soleira é mais convidativa. Cléo senta-se. Dá folga às alpercatas, tira moleskine e lomo. Olha com atenção para monumento em frente, mas não o desenha. A magnitude da escala intriga-a e a função também. Deixa-se estar. Pensa no filme que tinha visto na noite anterior – As Praias de Agnés, inserido no Lisboa na Rua. O cinema europeu não lhe é desconhecido, via nouvelle vague, mas a vida de Varda e a forma como a narra contagia-a.

Olha em redor. Uma cara parece-lhe familiar. Não a identifica imediatamente. Quando se aproxima reconhece-lhe o cabelo encaracolado/desleixado, a t-shirt às riscas e aquele caminhar de quem está sempre a tentar fazer a ponte entre os polos, como se a cada passo o equilíbrio fosse o objectivo. É Noah. Riem-se. É inevitável. Tinha-lhe entornado uma chávena de café sobre a blusa antes do filme de ontem. Não contava revê-lo, mas fica contente por tal acontecer. Afinal, são dois americanos numa cidade estranha.

Sobem um pouco. Clara-Clara. Antes de pedirem olham para o cartaz afixado no quiosque – Ciclo de Cinema Sci-Fi, todas as quartas-feiras, às 22, ao ar livre, até 09 de Outubro. Fica a leve sugestão, não dita, de reencontro. Lynch e Cronemberg; Billy Wilder e John Houston. A conversa estende-se. Ambos identificam os primeiros acordes de I’ll try anything once. É o telemóvel de Cloé. Mariana acabara de desmarcar encontro para jantar. Sofia Coppola sempre foi uma das suas realizadoras fétiche.

Uma agenda livre, fim de agosto, segunda-feira. Rumam até ao 11, R/C da Rua da AchadaConto de Verão de Eric Rohmer. Uma escolha certeira depois do filme anterior. Perguntam pelo bar. “Não há” – respondem; “Só mesmo café.”. Noah decide não arriscar. Cléo agradece, afinal não trouxera tanta roupa assim. Conversam com outros espectadores. Inquerem sobre Lisboa e respectiva “bolha cinéfila”. Será o seu carácter cinematográfico? O porquê de todos os ciclos programados para as próximas semanas serem gratuitos e ao ar livre? Sente-se o entusiasmo nas perguntas e nas respostas. É o ressurgimento do cinema enquanto momento de partilha e discussão? Estarão a assistir a um fenómeno para ficar? Animam-se com as sugestões em catadupa: o Fuso, os filmes dos músicos na Casa Independente, o Cinema no Terraço ZDB e no Mercado de Fusão. Ficam apreensivos com a situação da Cinemateca e prometem assinar a petição.

Sentam-se. As luzes apagam-se. Só uma fica acesa. Vão até Dinard. Por breves segundos, Cléo fecha os olhos. Relembra o dia e os encontros furtuitos. Vê um homem de cabelo grisalho a dizer-lhe adeus. Será difícil partir.

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