MÚSICA

  • none
  • none
  • none
  • none

Fotografias: Hugo Lima.

Dia 4 – Xanax Vintage e Postes de Alta Tensão

O final de tarde do 4º dia começou quente e meloso. Tal como o tempo, a música de Noiserv (projecto que dá corpo ao sonho musical de David Santos) amoleceu e fez sonhar aos pouquinhos os ouvidos dos que ouviram tocar os múltiplos instrumentos em tempo real (guitarra, teclas, vozes sobrepostas e uma pistola de plástico para efeito sonoro foram alguns). O espaço não era o ideal, não tinha a envolvência intimista necessária, mas a melancolia ingénua das canções agradou o público claramente conhecedor, que juntou mais uma colher de açúcar ao acompanhar algumas canções como o tema Today’s the same as yesterday, but yesterday is not today saído de uma caixinha de música que amoleceu novos corações que certamente demorarão a solidificar.

pc1

Só com tempo para ir buscar mais uma bebida fresca e sem mergulho no Taboão (era o que apetecia com o calor que estava) fomos até ao palco principal ouvir o que os Glockenwise sabem fazer melhor - Rock’n’roll! Depois das riffalhadas de garagem e das taquicardias da bateria se ouvirem por toda a inclinação do palco principal, o mosh não demorou muito a começar. O sol queimava e nós pulávamos ao som de Stay irresponsible ao bom estilo old school junkie, fazendo lembrar algumas imagens do Trainspotting. Foi electricidade feita de riffs, refrões curtos, bateria acelarada, calças justas e t-shirts demasiado usadas mas que continuam cool. A banda de Barcelos estava como peixe na água, contudo ansiosos, pois actuar num festival que iam desde miúdos era uma grande responsabilidade… mas eles conseguiram. A juntar-se às cargas eléctricas esteve João Vieira com a sua guitarra e sintetizador. O músico dos X-Wife foi a cereja no topo do bolo feito de chantilly, baquetas e cordas, terminando a noite a substituir Will Haus que não conseguiu comparecer por causa de problemas com o voo.

pc2

O calor começava a atenuar e o amarelo forte dava lugar a um azul envergonhado que se fundia com o verde da vegetação luxuriante, circundando o palco onde os Peace começavam a tocar de forma simpática. Bem-dispostos e com músicas a pedirem o abanar da cabeça, mostraram a sua nuance de Stones Roses... mas com um lado primaveril.

E de um momento para o outro descíamos às profundezas do punk corrosivo dos dinamarqueses Iceage, que mantinham o público em transe no palco secundário. O vocalista vociferava e o hardcore ganhava forma através de uma soturnidade imprevisível, mas que toda a gente conhecia. Era como se estivessem num universo negro paralelo ao festival. Foi dark.

pc3

A noite já estava instalada quando os The Horrors entraram com o já habitual bucolismo dos anos 80 e debitaram com o seu look sombrio um concerto morno. Sem grandes desvios da ordem e do caos que normalmente se espera dos laivos sonoros  de sintetizadores do negrume do pós-punk foi uma viagem cósmica que parou em todas as paragens e apeadeiros, como Mirror's Image, Scarlet Fields e Endless Blue. Foram competentes, fizeram jus às calças skinny e à posição imóvel e desgrenhada de Faris Badwan... mas faltou chama. Pois, a expectativa era alta.

pc4

No intervalo antes de Echo & The Bunnymen lembrei-me que apesar do nome sonante e histórico que carregam, foram a banda escolhida para substituir os The Kills por causa da lesão do guitarrista Jamie Hince... a expectativa não podia deixar de ser alta.

E se calhar foi esse o problema, pois é estranho quando nos apercebemos que as músicas dignas de karaoke quase afinado não pertencem à banda, mas sim aos Doors, Lou Reed e Roadhouse Blues. Ian McCullouch no alto do seu sobretudo de inverno e óculos escuros ainda descreveu The Killing Moon como "melhor canção alguma vez composta" antes de a cantar. Com esta, dei por mim a entrar na onda de karaoke com leve sotaque, mas sem grande companhia (a não ser algumas pessoas mais velhas que felizmente reconheceram  e acompanharam quase todas as músicas mais ou menos históricas da banda).

Corria uma brisa fresca que ajudava a sentar e ouvir os Echo a contemplar a vegetação por trás do palco que mudava de cor imperturbável. Contudo as pessoas iam aqui e ali deixando clareiras no relvado do anfiteatro natural e a banda tocava pragmaticamente até se recolher e voltar novamente para tocar a da despedida de forma algo monótona. Aí houve um sopro de reconhecimento por parte do público, mas sem grande alarido, só pelo que eles representam talvez.

Durante o intervalo quem reparasse na revolução que acontecia no palco poderia prever a energia contangiante com que mais tarde os Simian Mobile Disco pulverizaram o ambiente.

O anfiteatro encheu-se de gente articulada que dançava aquilo que não tinha dançado durante o dia ao som da música composta por James Ford e Jas Shaw. As luzes pareciam relâmpagos ao som do house electrizante e contagiante que bombava para uma pista de dança gigante ao ar livre. Música inteligente com bits consistentes e bem enquadrados ora explodia, ora descia como pede o figurino.

pc5

Hustler foi um dos temas mais contagiantes a julgar pelos movimentos frenéticos da audiência e Simian Mobile Disco foi sem dúvida um dos concertos memoráveis do dia que terminou de forma um pouco abrupta e com o relvado a aplaudir por mais.

Mas para quem o pézinho de dança ainda não queria descansar esteve muito bem servido com os Delorean (não, não é o carro do Regresso ao Futuro), a banda de Barcelona que começava a debitar o seu indie-pop meio experimental no palco secundário por volta das 2h da manhã.

Foi um concerto feliz em que se déssemos uma volta de 360º aos pulos iríamos ver toda a gente a sorrir e a dançar. Foi uma viagem alegre com os temas Deli, Season e Destitute Time.

Para uma tarde que se tinha revelado tépida e morna o final de noite veio com energia e fulgor... e ainda faltava um dia :^)

pc1

Dia 5 – Sensibilidade e Shots de Tequila

E para quem pensava, à semelhança de sexta, que o último dia eram só mais uns mergulhos no Taboão, um espreguiçar melancólico na relva e ao final da noite é que bombava... enganou-se redondamente. O dia da despedida começou de forma orgânica com a pop electrónica da banda portuense Papercutz. A sonoridade cósmica continuou, mas mais hard-core com o riffs dos Black Bombaim, acompanhados pelas teclas de Shella, pelo saxofone de Pedro Sousa e por um theremin que deu uma nova nuance psicadélica ao som destes pupilos do stoner.

A passagem foi como comer um gelado de menta com chocolate. Ouvir o electrónico elegante e fresco dos Ducktails a seguir ao achocolatado dos Bombaim faz-nos reflectir o quanto sabe bem estar por Paredes nestes dias. Matt Mondanile disse que Portugal era o seu sítio favorito, que ia ficar mais uns dias pela região e que agradecia se alguém os acolhesse “somos 4 bons rapazes” disse. E depois disso e em forma de presente tocaram algumas musicas novas cheias de pirilampos e indie-pop a esvoaçar.

O sol tostava e algumas pessoas mergulhavam na multidão ao som de Step up for the cool cats dos londrinos Palma Violets. Foi a primeira vez que tocaram em Portugal e ficaram tão apaixonados que chegaram a dizer de sorriso na boca “Portugal I love you, and I always will(depois do elogio e insinuação de Mat Mondanile pensámos logo que também queriam que alguém os albergasse, mas não). Um punk meio ingénuo que transpirou contentamento e terminou com os músicos a entregarem-se nos braços do público, regressando ao palco para tocar (e dançar) só com guitarra e bateria o tema 14.

O lusco-fusco já espreitava e contrastava com as tonalidades verdejantes da vegetação densa quando os Calexico nos aqueceram com os seus ritmos mariachi já tão próprios. O palco composto por instrumentos e incentivos de coiote que Joey Burns fazia questão de emitir, passava a boa onda que a banda transbordava e contagiava os bamboleantes que batiam palmas a acompanhar os saxofones, o acordeão, o contrabaixo, os teclados, toda uma parafernália de instrumentos a tocar Puerto e Guero Canelo. Mas se tivéssemos que isolar um momento do concerto de forma a descrevê-lo como um todo, esse momento seria Minas de Cobre, do longínquo Black Light, onde viajámos num carro descapotável pelas paisagens áridas da América do Sul durante “longos” 5min. Os Calexico cumpriram a promessa: fazer a festa no último concerto da digressão europeia com toda a equipa (incluindo roadies) num mesmo abraço com vénia. E conseguiram.

Ainda fomos a bambolear espreitar o trio do Mississippi Bass Drum Of Death e enchemos os ouvidos de rock’n’roll negro e visceral. Foi uma passagem com muito contraste e casacos de cabedal à mistura. O power de som escorria em forma de suor pela tenda do palco secundário e o garage rock tinha corpo de Black Rebel Motorcycle Club.

Sabiam que as bolas de sabão também desenham? Pois bem…

É boa aquela sensação de final de festival, em que o cansaço já vai tomando a forma do corpo e nos deitamos pomposamente a olhar para o céu à procura das Ursas, quando de repente olhamos para o palco e está cheio de corpos, instrumentos e luz. Foi assim que os Belle & Sebastian nos mimaram, cheios de música revivalista muito bem interpretada e amadurecida. Boy with the arab strap e Judy and the dream of horses foram alguns dos temas que Stuart Murdoch cantou e saltitou acompanhado pela trupe de músicos (a que se juntaram quarteto de cordas e metais português). Bolas de sabão desenhavam ondas pelo ar e algumas pessoas dançavam de forma ridícula enquanto Sukie in the graveyard era tocada – mesmo a combinar, portanto.

Às tantas Stuart Murdoch chama público para o palco que dança um género de coreografia tão bem que nem parecia improviso. Chama mais gente e quase deixamos de ver os músicos que estão atrás, mas a música não pára, pelo contrário parece que cresce cada vez que uma pessoa sobe lá para cima e dança. Olho em redor e o público parece todo ele uma massa saltitante feliz… mais acima vejo mais bolas de sabão e sorrio a aplaudir um dos concertos mais bem-dispostos a que assisti nos últimos tempos.

Enquanto uma cruz desconjuntada forrada a papel de alumínio deslizava por cima do público, o anfiteatro enchia-se com Assim falava Zaratustra, de Johann Strauss. As pessoas agitadas reconheciam o épico usado no filme do Kubrick e davam as boas vindas ao DJ set dos Justice a acompanhar a música esbracejando como um maestro em frente a uma orquestra.

pc2

O palco estava carregado de luzes que quando acendiam encandeavam o público que estava 4 metros à frente do palco, mas visto de longe era um espectáculo efervescente e animadíssimo. Dançava-se ao som de Marvin Gaye, Dandy Warhols, funk, disco, techno e Don’t stop me now, dos Queen. A dupla gadelhuda (certamente inspirados pelo Brian May) transformou o relvado numa disco dos anos 70, ficando só a faltar as bolas de espelhos, as calças à boca de sino e as camisas com padrões ridículos. Foi óptimo!

And So I Watch You From Afar foi o princípio do fim da noite. O quarteto post-rock de Belfast entrou sem subtilezas para uma fervorosa cartografia de cosmos e o público respondeu à altura levando até ao final do concerto uma sensação de caos instalado com vontade de incendiar os instrumentos. Isso não aconteceu, mas pouco faltou a julgar pela combinação de calor estratosférico que se fazia sentir.

No fim o que fica é a sensação algo vazia de já ter passado, mas saímos de barriga cheia de boas paisagens sonoras, óptimo tempo com o sol sempre a rir-se para nós e bons momentos passados com os amigos... And is all that matters, isn't it?

Os créditos fotográficos deste artigo pertencem a Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

ARTIGOS RELACIONADOS

Música

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: