MÚSICA

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Fotografias: Hugo Lima.

Cinco dias para abanar o sistema

Entre 13 e 17 de Agosto, o Vodafone Paredes de Coura desceu às margens do rio Taboão para celebrar o melhor da música, em comunhão com a natureza.

Mais de quarenta artistas, entre bandas emergentes e nomes consagrados, participaram na festa que mais uma vez surpreende pela diversidade e qualidade do cartaz e pela forte adesão de um público entusiasta. O festival, que comemorou o seu 21º aniversário, ultrapassa as fronteiras formatadas do panorama musical e volta a desafiar o passado, o presente e o futuro.

Mas nem só de música vive Paredes de Coura. O arvoredo e a praia fluvial convidam a momentos de puro lazer ao ar livre. As altas temperaturas encheram o rio e as suas margens com milhares de festivaleiros que afluíram ao evento. A tradição das capas e galochas foi quebrada ao longo de toda a semana para dar lugar a aglomerados de insufláveis e provas de mergulhos acrobáticos. Imperou a música, o sol, o calor e a partilha de bons momentos, tudo isto na paisagem paradisíaca que envolve Paredes de Coura.

Dia 1 – O que é nacional é bom

Em antecipação aos horários do cartaz, a vila que dá nome ao festival recebeu momentos musicais inesperados. Concertos-surpresa, sessões acústicas e DJ sets funcionaram como um aperitivo do que se iria passar na praia fluvial do Taboão. Alguns privilegiados que passeavam pela vila, puderam assistir às actuações inesperadas de Bombino, Widowspeak, Citizens ou Dj Nuno Lopes.

A primeira noite do festival faz-se no espaço o palco Vodafone FM. Na tarde de terça-feira vive-se já uma alegre azáfama. Quem chega, vai preenchendo os socalcos e terrenos circundantes do festival com tendas e criativos recantos lúdicos. A música portuguesa integra um menu de luxo e promete uma noite animada.
Por volta da oito horas da tarde, Paredes de Coura recebe o seu primeiro momento musical com os Tape Junk. O projecto liderado por João Correia aqueceu o palco e cativou os festivaleiros que começavam a afluir ao recinto, com acordes de inspiração folk ou outlaw country.
Seguiram-se os acordes poderosos dos portuenses Bisonte, a desencadear choques de eletricidade no público, com poderosas doses de rock inconformista, cantado em português.

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O recinto já se encontrava bem preenchido para receber a atuação dos Sensible Soccers, uma autêntica máquina na arte de fazer sacudir as pernas. Os quatro rapazes contagiaram a plateia e voltaram a justificar porque merecem ser projetados por este mundo fora.

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Os ânimos já estavam elevados quando passámos dos Soccers para a baliza tropical de Moulinex. A moldura de ananases construída por Luís Clara Gomes foi o suplemento vitamínico da boa disposição em tons dançantes. A convidada Da Chick foi recebida com muito agrado entre os presentes, nomeadamente em Maniac (da banda sonora de Flashdance), tema que ganhou um novo colorido.
Os courenses The Filthy Pigs fizeram destilar a plateia pela madrugada fora. A dupla revisitou o passado e o presente do festival com uma playlist que passou pelo rock, pop até às sonoridades electrónicas. Os DJ's da casa foram os anfitriões perfeitos para nos dar as boas vindas.

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Dia 2 – O mundo cabe em Paredes de Coura

Depois de uma tarde onde voltou a reinar a animação fluvial, arrancou a festa na tenda Vodafone FM. Os culpados intitulam-se Discotexas Band, um refinado colectivo de artistas que reúne os ingredientes perfeitos para dançar enquanto o sol desce na paisagem minhota.
O mesmo palco deu depois lugar aos êxtases psicadélico dos Unknown Mortal Orchestra. O trio neozelandês assenta a sua energia nos dotes vocais de Ruban Nielson, na poderosa bateria de Riley Geare e nos riffs de Jake Portrait.
A tenda estava já repleta para receber os muito aguardados Alabama Shakes. A voz poderosa de Brittany Howard conquistou a audiência nos momentos que se seguiram com a plateia a entoar temas como Hold On. A banda fez transportar o espírito soul e as paisagens do sul dos Estados Unidos para as margens do Taboão.

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Da América para os ritmos quentes dos desertos do norte de África. As vibrações intensas de Bombino e a sua trupe, levaram-nos a um electrizante ritual Tuaregue. O autor do celebrado albúm Nomad, produzido por Dan Auerbach dos Black Keys, é um músico sábio, perito em derreter decibéis. Omara "Bombino" Moctar distribuiu boa disposição e sorrisos pelo público e elevou a plateia ao rubro.

Para os resistentes, a madrugada seguiu num registo dançante com o set de Dani Guijarro. O jovem produtor e líder dos Headbirds, dá a cara ao projecto que funde vários géneros da electrónica, como o house ou techno.

Dia 3 – Vamos agitar as convenções

O terceiro dia do festival arrancou em pleno, já com o clássico Jazz na Relva ou o Palco JN durante a tarde e um cardápio de peso para dividir entre os palcos Vodafone e Vodafone FM.

Por volta das 18h40 os Everything Everything inauguravam o palco principal ainda com muito sol a incidir no anfiteatro natural. A voz de Jonathan Higgs chama a atenção pelo seu registo vocal a roçar o falsete e as sonoridades. A banda de Manchester não esconde as influências de uma pop rock britânica, sintetizada numa combustão bem orelhuda.
Quase em simultâneo, no palco secundário, actuavam os Widowspeak. A dupla de Brooklyn parece saída da floresta encantada, para nos seduzir com as suas melodias perfeitas. A voz cândida de Molly Hamilton e os acordes sombrios de Robert Earl Thomas são o mote idílico para um final de tarde intimista em harmonia com a natureza.

O mesmo palco recebeu a surpreendente actuação dos Veronica Falls. A banda britânica volta a pisar os palcos nacionais, onde tem colhido um cada vez maior numero de adeptos com a graciosidade da sua indie pop. O 2º albúm Waiting for Something to Happen, lançado ainda este ano, é a prova disso mesmo. A voz densa e calorosa de Roxanne Clifford aqueceu a multidão num dos momentos mais envolventes da tenda Vodafone FM.

O sol desceu sob o anfiteatro natural do palco principal onde já se encontravam os australianos Jagwar Ma. A banda de Sydney remete para algumas comparações aos géneros musicais que recuperam os finais dos anos 80 e inícios de 90. As influências de Happy Mondays ou Stone Roses são visíveis até mesmo no balançar serpenteado do vocalista Gabriel Winterfield.

Apesar de ainda não ser noite, o palco secundário veste-se de negro para receber os Toy. A banda londrina, formada por quatro rapazes e um elemento feminino (teclista) formaram uma barreira sonora de cabelos ondulantes. O resultado foi um turbilhão rock psicadélico que fez sacudir a plateia numa cadência em uníssono.
Por volta das nove e meia, o anfiteatro natural estava já repleto para receber os britânicos The Vaccines. A postura e sonoridade dos londrinos, tornam implícita a referência a uns Strokes. A banda liderada por Justin Young, cuja formação remonta apenas a 2010, conquistou já uma legião de fãs em paragens lusas. Temas como Post-break Up Sex foram seguidos à letra e revelaram ser o antídoto ideal para curar qualquer depressão ou coração destroçado.

Enquanto a banda britânica distribuía acordes anti-depressivos pelo palco principal, Victoria Christina Hesketh, mais conhecida como Little Boots, fazia a festa no palco secundário. A compositora, multi-instrumentista e produtora pertence a uma nova geração de artistas cujo maior intento é fazer dançar. Apesar da grande concorrência dos Vaccines, a energia e boa disposição foram suficientes para que Victoria obtivesse o prémio de agitar as ancas da plateia.

Perto das onze da noite, estava chegada a hora de exorcizar os espíritos e dançar efusivamente ao som dos Hot Chip. De volta a Portugal, Alexis Taylor é o porta-voz de uma das bandas que mais tem marcado a pop electrónica ao longo da última década. Uma máquina engenhosa composta por sete músicos em palco, desafia a multidão a acompanhar incansavelmente os seus ritmos contagiantes. Apesar da inclinação natural do anfiteatro de Paredes de Coura, em temas como Ready For The Floor, o relvado transforma-se literalmente numa pista de dança.

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Os muito aguardados The Knife são precedidos por um warm-up levado a cabo por um exótico performer que agita um público durante uma sequência de aeróbica de protesto. O sábio anónimo consegue a proeza de colocar toda a plateia em poses gímnicas com a sua energia fervorosa.

Por volta da uma da madrugada, surgem finalmente os The Knife, um terramoto que abanou Paredes de Coura. O palco Vodafone transforma-se subitamente numa base lunar onde os druidas da Escandinávia descarregam todo o seu magnetismo. O trabalho dos irmãos Karin e Olof Dreijer desenrola-se numa performance que desafia as sensações do público durante cerca de uma hora. Já sabíamos que a banda de Estocolmo não era produto fácil e as reacções divergiram, mas ninguém ficou indiferente à atmosfera inebriante e às sonoridades electrónicas da banda. Os suecos que deixaram a crítica internacional rendida com o lançamento de Silent Shout, voltam a sequestrar a atenção do público em Shaking the Habitual. O título deste último álbum é a chave do enigma para o espectáculo que presenciámos; um prenúncio de futuro ou um desafio aos estereótipos de um concerto... may The Knife be with you!

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Jonh Talabot e Pional aterraram no espaço Vodafone FM para temperar os momentos que se seguiram com um set contagiante. A dupla de produtores e DJ's da vizinha Espanha conseguiu expandir a pista de dança pelo recinto fora ao longo de uma tapeçaria rica em cadências electrónicas e loops vocais.
Para finalizar a noite que já ia longa, os The 2 Bears deram continuidade à proeza de recriar no recinto uma enorme arena electrónica. A dupla londrina constituída por Joe Goddard (dos Hot Chip) e Raf Rundell desafiaram o cansaço da assistência e fizeram as delícias de uma noite inesquecível.

O espírito manteve-se entusiasta até de madrugada. Enquanto alguns festivaleiros ainda brindam as últimas cervejas, outros regressam a 'casa' para recuperar o corpo e aguardar pelo corrupio dos dias seguintes. O que se segue precede novas ordens; dançar até à exaustão com Simian Mobile Disco e Justice; viajar na companhia de Echo and the Bunnymen ou Belle and Sebastian; devanear ao som de Ducktails ou Delorean.

Os créditos fotográficos deste artigo pertencem a Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

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