DIÁRIOS DO UMBIGO

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A vida desenha-se na superfície da terra através de fluxos, circuitos e dead ends de terráqueos em busca de um sentido ou de uma solução. O sentido ou a solução emerge de formas distintas segundo os lugares onde nascemos: a busca do prazer e da harmonia dos terráqueos do Norte colide com a busca de sobrevivência  dos terráqueos do Sul.

Em Marraquexe cruzam-se aqueles que buscam uma vida mais simples longe dos padrões impostos pelo Ocidente e aqueles que buscam a todo o custo a oportunidade de aceder a um El Dorado mítico de sucesso do outro lado do estreito. Ao longo da minha estadia tenho encontrado estas pessoas tentando perceber o que os move na sua busca.

O caminho nem sempre é fácil, a Marrocos impõe-se uma política de estado tampão. A pressão de conter os fluxos de imigração ilegal para a Europa provoca atitudes que vão contra o que deveria ser o respeito pelas liberdades individuais e os direitos humanos. A propósito da última visita do Rei de Espanha a Marrocos, perseguições mais estritas se impuseram às comunidades africanas.

Em Marraquexe conheci vários jovens homens e mulheres senegaleses que chegaram aqui tentando obter algum trabalho que lhes permita em breve tentar a sua sorte cruzando o estreito em frágeis barcaças ou rompendo as barreiras de Ceuta e Melilla. A Fanta, uma jovem que vende artefactos senegaleses nas ruas de Rabat, contou-me uma vez que já tinha tentado por duas vezes. Uma vez o barco onde seguia perdeu-se no mar. Por sorte, deram à costa perto de Nador. Uma segunda vez foram apanhados pela polícia no mar e levados para o centro de detenção em Marrocos de onde são depois transportados em carrinhas, como carga humana, para a fronteira com a Argélia, perto da cidade de Oujda.

Um outro amigo que frequentou a minha casa em Marraquexe, o Said, trabalhava numa pizzaria quando o conheci. Os trabalhos aqui são algo instáveis. O Said perdeu o seu trabalho na altura do Ramadão quando tudo fecha e resolveu tentar também passar para o outro lado. Uma noite disse-me que ia para Casablanca procurar trabalho. Só voltei a ter contacto com ele duas semanas mais tarde, quando me contactou pela Internet dizendo que estava finalmente em Casablanca, depois de ter caminhado pelo deserto quatro dias. Afinal tinha ido até à proximidade de Melilla, onde tinha tentado cruzar a fronteira para o lado espanhol. Foi apanhado pela polícia marroquina na floresta. Da primeira vez que foi apanhado, tinha sido despejado a 30km da cidade de Oujda com outros emigrantes, caminharam uma noite, conseguiram que um táxi os levasse até à cidade e refugiaram-se na Universidade de Oujda, onde aparentemente têm protecção diplomática. Desta última vez, foi um pouco mais complicado, o percurso de regresso demorou quatro dias desde o deserto. Os grupos de emigrantes que aqui chegam esperam que a polícia retome o seu caminho para voltarem de novo para Marrocos. Se passarem para a Argélia, os tratos serão piores e serão muito provavelmente deportados.

Estas experiências não impedem que o ciclo se retome e que tentem de novo. Said explicou-me da última vez que nos vimos que seria Barça ou a morte, como dizem no seu dialecto. Dizia-me com um brilho nos olhos que a Europa é o El Dorado e que aí poderia encontrar um trabalho digno, bem pago, que lhe permitiria de enviar dinheiro para casa, para a sua mãe e irmãos para comprar um terreno e uma casa. Eu tentava dizer-lhe que a Europa não corresponde a esse mito e que no caso de ele chegar seria desde já mal acolhido, possivelmente num centro de detenção para clandestinos. A entrada em Espanha não seria fácil, devido à falta de trabalho, mesmo para os europeus. O seu trabalho enquanto clandestino seria desvalorizado e provavelmente explorado. Apesar dos avisos, nenhuma destas pessoas parece entender que esse El Dorado é uma ilusão. Os casos de racismo agravam-se, bem como as restrições crescentes aos fluxos migratórios, mesmo os intra-europeus. Não existe do outro lado o cumprimento dessa promessa de sucesso.

E aqui chegam os europeus, esse povo geograficamente privilegiado, buscando igualmente as promessas de uma vida melhor. Os fluxos cruzam-se aqui. No fundo todos temos objectivos similares, condicionados pelos nossos lugares de nascimento. As migrações sempre foram fenómenos naturais da condição humana, buscando recursos para a sobrevivência e para a melhoria do modo de vida. A evolução da sociedade contemporânea impõe que as relações territoriais sejam condicionadas esquecendo o verdadeiro impulso das necessidades básicas e dos direitos do homem, favorecendo as relações assimétricas do capitalismo e da exploração económica.

 

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