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No dia 2 de agosto fui assistir à performance Nutritivo do catalão Sergi Fäustino no Negócio (ZDB) inserida na programação circunstancialmente encolhida da 35ª edição do festival de teatro mais antigo do país: o Citemor.

Ainda fora da sala, o performer irrompeu pelo átrio com uma bandeja com fatias de pão revestidas com morcela. Provei e soube bem. A performance tinha começado. Já sentados o performer avisa que vai tirar sangue. Ver ou não ver, eis a questão. Atrás de si tinha uma mesa com um fogão. Resultado: uma morcela feita com o seu próprio sangue.

Durante uma hora, assisti a uma performance dedicada a duas figuras proeminentes do Black Metal de seus nomes: Euronymus (co-fundador do grupo Mayhem) e Samoth (baterista de Emperor).

De seguida, Sergi Fäustino estabeleceu diferenças entre o Black Metal e o Death Metal e até com o Heavy-Metal.

Importa partilhar que a grande diferença entre o Black e o Heavy Metal é que os apreciadores do primeiro jogam basquete e os segundos não. Inversamente, os segundos bebem muita cerveja e querem é curtir enquanto que os primeiros bebem sumo bio-natural de mirtilos que, para além de ser oriundo de países nórdicos como a Noruega donde o Black Metal é oriundo para fazer renascer os seus deuses ancestrais contra o cristianismo que os erradicou, se assemelha à cor do sangue e sendo adoradores do Inferno pelo reconhecimento do mal dedicam-se a imolar igrejas.

Outra das diferenças entre o Black e o Death Metal são que no primeiro as vozes são mais desesperadas enquanto que as do Death são vozes mais graves, quanto às guitarras as do Death são mais agudas e histriónicas e as do Black são mais distorcidas e selvagens, ou seja, mais incendiárias, resultantes em comportamentos auto-libertadores aos seus olhos que resultam alter-destrutivos para os corpos, bens e locais de culto dos outros.

A minutos tantos da performance, Sergi Fäustino questiona-nos: – Para onde é que se envia um “blackero” depois de morrer? Depois de insistir muito com o público, lá se ouviu: – Para o Inferno! Ao que ele imediatamente retorquiu: – No! Eso sería un prémio.

No fim ficámos a saber que o medo para Sergi Fäustino é comer morcela feita com o próprio sangue, oferecendo a mesma bandeja aos espectadores. Nessa noite ninguém comeu, ao contrário da noite anterior.

Saí do espectáculo com fome e fui comer. Degustando a meias iguarias saborosas, e em conversa com a minha boa companhia, fomos atirando para o balcão raspas ressonantes do espectáculo. Eis uma: a maioria dos “blackeros” vivem o mal no seu quarto – em casa dos pais –, customizado com paredes revestidas a posters fanáticos ou pintadas de negro. Quando os pais vão de fim de semana, eles e elas calçam, depois de se maquilharem com cores escuras, umas botifarras, acendem uma luz negra e põem música num volume que interfere com a escolha televisiva dos vizinhos e simulam que têm e tocam uma guitarra. So play station as that.

Adorava ir petiscar a casa de um “blackero”.

Se um dia for conto-vos. A gosto.

Nelson Guerreiro (escreve em desacordo ortográfico)

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