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Horacio Elena, artista argentino radicado em Sitges, estudou arquitectura, pintura e cinema em La Plata. Nos anos 60, integrou o Grupo Sí, motivado pelos professores Alfredo Kleinerth e Hector Cartier. Viajou pelo Brasil e pela América Latina, participando em movimentos de vanguarda. A sua obra transitou entre o informalismo e a figuração realista, revelando o seu comprometimento com os problemas sociais do seu tempo. Participou em várias exposições na Europa e na América Latina, dividindo-se entre a ilustração, a pintura e a escultura.

Conte-nos um pouco sobre a sua experiência no Grupo Sí?

O Grupo Sí constituiu na Argentina a mais importante contribuição da arte informalista dos anos 60. Teve uma vida efémera mas o seu impacto nas artes plásticas foi determinante, pois dali saíram importantes artistas que se destacaram internacionalmente. Participar deste grupo foi uma experiência que marcou o resto de minha trajectória artística, porque o grupo pertencia a  um movimento maior que abarcou a música, a dança, a literatura e que afectou mutuamente todos os que faziam parte de algumas destas disciplinas.

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Óleo Nº 09, óleo sobre madeira, 53 x 42 cm, 2003. Colecção particular. Fotografia: Ramiro Elena.

A sua obra sofreu algum impacto com sua estadia no Brasil?

Eu deixei a Argentina em 1963 com a intenção de viajar pela América Latina, porém o momento social, político e artístico que se vivia no Brasil interessou-me e fiquei algum tempo na Bahia. Nesse momento a minha pintura sofreu o impacto dessa realidade e tornou-se figurativa e realista. Sem deixar as técnicas informalistas, os temas pictóricos mudaram e reflectiram o que vivo e vejo no quotidiano. Depois mudei-me para Pernambuco, porém o golpe de estado de 1964 obrigou-me a sair  e a começar a viajar pelo nordeste. Fiz paragens temporárias em várias cidades até chegar a Manaus, onde estabeleci uma relação artística e de amizade com o Clube da Madrugada através do poeta Élson Farias. No tempo que ali passei, além de compartilhar tertúlias com pessoas de uma grande qualidade humana e literária, fui convidado a realizar uma exposição que teve uma certa repercussão na cidade.

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Fragmento Nº16", acrílico sobre tela, 100 x 100 cm, 2009. Colecção do artista. Fotografia: Ramiro Elena.

Fale-nos sobre as influências estéticas que recebeu ao longo de sua carreira.

As influências que recebi foram diversas. Não sou influenciado por uma só tendência nem por um pintor determinado. Posso citar alguns que foram muito importantes, como Kazuya Sakai, os informalistas espanhóis como Tapies e Cuixart, o argentino Alberto Greco e o teórico Eduardo Cirlot.

Como foi a sua experiência com a ilustração?

Iniciei-me na ilustração para obter recursos financeiros e assim poder pintar. Comecei com dois livros em Buenos Aires (1967/68) e ao mudar-me para Espanha a ilustração converteu-se na minha principal actividade profissional, chegando a publicar mais de 230 livros. De alguns sou o autor dos textos, tais como Majo el rinoceronte e Mar Marti el conejo.

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Horacio Elena, 2012. Fotografia: Ramiro Elena.

Descreva-nos o seu processo de criação.

Os meus trabalhos são extremamente elaborados e pensados, apoiados no esboço antes de serem levados à tela ou ao papel. As ideias surgem de momentos quase oníricos, propriamente do inconsciente. A partir dos anos 90 comecei a envolver-me com o mundo digital, que me abriu novas possibilidades.

A abordagem do corpo feminino tem sido constante nas suas obras.

Tenho retomado antigas ideias que desenvolvi na Argentina. Resgatar imagens anteriores para reelaborá-las sob novas técnicas tem sido uma constante no meu processo criativo. De facto, o corpo feminino já estava presente nas minhas pinturas de finais dos anos 60, inclusive nessa época iniciei-me no tridimensional que ultimamente tenho desenvolvido nas esculturas.

 

Fotografia de capa: Guerra I, acrílico sobre tela, 100 x 100cm, 2003. Colecção do artista. Foto: Ramiro Elena. Esta pintura foi inspirada numa fotografia publicada no jornal El Pais depois do bombardeio no Iraque pelas forças norte-americanas. O nome da menina é Ibtihal, que significa oração, súplica. É surda-muda de nascimento e perdeu seus pais neste bombardeamento.

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