Hoje é um dia especial. Chega a Marraquexe um pequeno grupo de portugueses que ficará por cá alguns meses em trabalho para uma companhia aérea. O ponto de encontro será o sítio do costume. Vamos encontrar-nos à volta de uma mesa, no Mama Afrika, escutando uma vez mais os sons africanos da kora que se juntará certamente à voz marroquina.
A chegada a um lugar como este é sempre um momento especial, cheio de emoções e dúvidas que são fruto de muitas ideias feitas que nos são passadas. Quando planeei a minha vinda para Marraquexe colocou-se a questão que assombra qualquer estrangeiro: medina antiga ou cidade moderna? A medina é deslumbrante e sedutora, mas cheia de mitos e mistérios, na cidade moderna a maior parte dos estrangeiros decidem instalar-se em busca de um equilíbrio entre a realidade marroquina e os padrões do ocidente. Queria muito ir viver para a medina, mas não queria perder a minha independência, os meus hábitos ocidentais, a minha liberdade de escolha. Alguns amigos assustavam-me com histórias sobre os perigos desses estreitos becos... mas ao mesmo tempo, isso despertava ainda mais a minha curiosidade. Diziam-me que enquanto mulher a viver sozinha em Marraquexe seria arriscado instalar-me na medina. Felizmente, um bom amigo, o viajante português João Leitão residente há vários anos no Sul de Marrocos deu-me o conselho inverso e incentivou-me a ir precisamente para um dos bairros mais populares da medina, Berrima. Berrima é um bairro simples, pobre, muito local, com pouco turismo, vizinho do grande palácio real, mas próximo de tudo o que é necessário para a agitada vida da medina, e que teve a sua origem no século dezasseis. O bairro surgiu para albergar os trabalhadores que vieram para construir o palácio real, segundo os seus habitantes. A minha rua era a Derb Hel Sousse, a rua das gentes que vieram do Sousse (região de Agadir). Fiz vários amigos em Berrima. Fiquei por ali um ano, antes de mudar para o meu novo bairro, o Kasbah.
Medina de Marraquexe. Fotografia: Paulo Arcanjo
Em Berrima aprendi os códigos corporais que são necessários para viver em Marrocos e aprendi que a liberdade da mulher é também respeitada por aqui, a postura pessoal, como qualquer outra coisa é negociada. Senti-me aqui mais segura e protegida do que nunca. Só o facto de dizer a um qualquer taxista: “ana sakena f-Berrima” (eu vivo em Berrima) é um motivo de espanto, pois é raro, muito raro, o estrangeiro que por lá vive, e é um motivo de quase riso e muito espanto. É claro que juntar um pouco de dialecto marroquino também ajuda bastante a criar esta relação íntima com a cidade. Ao fim de pouco tempo percebi que estava integrada, quando os jovens do bairro me começaram a dizer que se houvesse algum problema comigo deveria dizer-lhes, uma espécie de cosa nostra à marroquina. Fiquei amiga dos comerciantes, dos guardas do parque de estacionamento, do carpinteiro, do imobiliário, do vendedor de ovos, do de fruta, dos pasteleiros, dos padeiros do forno colectivo.
foto do forno de pão de Berrima: Ana Neno
De cada vez que chegava alguém para me visitar, o ponto de encontro era a mesquita de Berrima, pois a partir daí começavam as ruas serpenteadas capazes de confundir mesmo o marroquino mais habituado. Aí toda a gente dizia já conhecer a portuguesa. Uma vez colocaram-me uma questão bastante curiosa: “a que distância de tua casa podemos perguntar por ti e vão conhecer-te? Mmm... - pensei - a uns bons quinhentos metros certamente encontrarás alguém que te leva à minha porta.” Um dia quando me deslocava em Guéliz, a cerca de cinco quilómetros de casa, gritavam-me uns miúdos eufóricos, que vendiam lenços de papel num cruzamento: “Mosquée de Berrima!!!” Fiquei eu própria em êxtase! Não me parecia provável, nem tão pouco possível, tal acontecimento. Há pouco tempo precisei de mudar de casa. Embora Berrima permaneça inesquecível nesta experiência, tendo marcado o início de uma bela fase da minha vida, considerei mudar de bairro, mas nunca sair da medina. O meu amigo imobiliário e os vizinhos ajudaram na procura. Rapidamente encontrei o meu novo abrigo, bastante próximo de Berrima, mas do outro lado do imponente palácio real, no bairro que se chama Kasbah.
Ruas de Berrima. Fotografia: Paulo Arcanjo
Kasbah é um bairro bastante diferente. É preciso dizer que a medina não é toda igual, o ambiente, a postura, a segurança, a energia de cada bairro pode ser bastante diferente neste denso aglomerado urbano. A primeira coisa que notei logo nas primeiras visitas foi uma forte presença feminina e infantil que em Berrima era bem diferente. Berrima foi uma ótima experiência, o que não quer dizer que não seja um sítio duro, com difculdades sociais. Em Berrima a rua era sobretudo dominada pelos homens, sobretudo os jovens que faziam de cada canto um lugar de encontro. Até as crianças que se juntam na rua são sobretudo rapazes.
(continua no próximo artigo)





























