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Em 1999 a editora Warp lançou um maxi-single cujo tema principal se chama Windowlicker do britânico Richard D. James (Aphex Twin). A controversa capa logo me despertou a atenção, pois, era o próprio Aphex Twin de argolas douradas nas orelhas, muito sorridente e exibindo um busto farto e amplo suportado por um bikini branco.

A música é uma amálgama de batidas quebradas, toques de caixa, samples de baterias, vozes moduladas e coros. Ainda que errática resulta numa espécie de softcore melodioso que a certa altura despenca num baixo muito distorcido terminando na imagem de uma espiral embutida com um espectrógrafo na música.

Transporta-nos para um mundo surreal e real em simultâneo. Talvez daí o título da música, pois o termo Windowlicker é utilizado para pessoas com algumas dificuldades de aprendizagem e assumpção da realidade. É talvez uma perspectiva retorcida da realidade.

O vídeo dirigido por Chris Cunningham é um misto de real com surreal. Numa sátira aos vídeos da época do gangsta hip hop, retrata um negro e um latino em Los Angeles que vão no seu descapotável para o engate. As moças que encontram não vão na conversa deles e dizem-lhes que eles são uns Zé Ninguém. Nesse momento uma modesta limousine branca com 38 janelas abalroa o descapotável dos gangsta engatatões. Lá dentro vem Aphex Twin todo pimpão exalando poder e dinheiro. As moças ficam logo todas interessadas. Depois de as levar num passeio de limousine e de elas trocarem de feições à vontade de Aphex Twin, desempenham uma coreografia organizada com muitas bundas em bikini na praia de Santa Mónica.

Quando uma das mulheres abana a bunda na direção dos dois gangstas, que foram seguindo a limousine, eles ficam muito entusiasmados. Mas a certa altura ela vira-se e eles ficam ofuscados pela beleza contundente da garota não de Ipanema mas de Santa Mónica.

A festa continua com champagne, o baixo a distorcer e as misses bikini molhado de Santa Mónica a bambolearem-se. A sátira é tal que a certa altura me pareceu ver o Michael Jacskon sapatear e pisar uma poça de água.

Recordo-me que uma vez ao tocar esta música no Op Art, (que para quem não sabe, é uma espécie de aquário envidraçado em pleno pontão da Doca de Santo Amaro em Lisboa onde se dançava vigorosamente), um rapaz decidiu do lado de fora colar a boca ao vidro. Eu ri-me e lembrei-me dos peixes limpa vidros. Passados dois minutos já eram várias as pessoas que colavam a boca ao vidro. Quando o baixo começou a distorcer fiquei sem perceber bem de que lado do aquário estava...

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