DIÁRIOS DO UMBIGO

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Mise-en-abyme ou os ecos de uma obra que há-de vir-se para fora desta crónica.

A música estava tão boa. Digo isto como se eu estivesse aqui sozinho. Nesse isolamento auto-sustentado, fui à procura de uma música que não me fizesse finalmente chorar. Como se fosse um corpo entregue a uma vontade-reviravolta em frente a uma Jukebox, e com apenas uma moeda na mão e com o bar a fechar sem mais ninguém a não ser o dono que estava de volta das grades da Sagres, arrisquei tudo.

Escolhi o tema escondido, porque estava encostado à sua extremidade – à sua, quer dizer à do electro-doméstico-público - e com as letras muito comprimidas por todas as músicas postas até àquele momento vital, afundei a tecla com o número 99. Eis a ficha técnica da minha escolha: Théme de Camille de George Delerue, uma música integrante da banda sonora do filme Le Mépris de Jean-Luc Godard, estreado em 1963.

Ele - Esta música sempre me provocou uma bonita desolação.

Estas palavras são uma espécie de didascália de leitura para si caro/a leitor/a. Escrevi isto e lembro-me de ter ouvido esta expressão numa entrevista promocional de Joseph Kosinski, o realizador do filme: Esquecido - que acaba de estrear em Portugal -, em que só dou mais uma informação: o protagonista é Tom Cruise.

Tele-transportando-me no tempo - que se me perdoe a redundância conveniente para que não saia do seu lugar caro/a leitor/a, - para um palco em que dois actores estão a dizer um texto meu intitulado “A Vontade do Impossível”, reservo-me o direito de não difundir tais vibrações sentimentais para não contaminar o andamento do texto. Este e o outro. O outro porque ainda não sei qual é a actriz para a qual vou escrever. Não havendo castings, será a vida que a permitirá encontrar. Ressalva: isto não é um “open call”, muito menos um anúncio encapuçado.

Duas citações e uma extra que se auto-citou

Só me resta partilhar duas frases de Belén Gopegui em “La escala de los mapas” para me sentir feliz por hoje. “Business class. Habría preferido decir primera clase. Ir en primera significaba pertenecer al grupo de los que tienen dinero en abundancia y lo derrochan, pero la situación de quienes viajaban en business resultaba, se dijo, bastante más confusa. Casi nunca sacaban ellos sus billetes sino sus empresas. Ellos quedaban al margen de la ostentación o del derroche. Estaban allí porque alguien había juzgado conveniente que viajaran en mejores condiciones que la mayoría, o al menos así podían creerlo.”

Para acentuar a minha admiração por esta obra e pela autora - deva-se dizer que em boa hora descoberta pela mão sensível do meu amigo catalão Raul Moya, que me despertou com uma lovesong durante uma semana até eu ter deixado de chorar – recito esta frase que me apeteceu, vá-se lá saber porquê, traduzir directamente enquanto a dedilhava no teclado: “Uma acção ou uma tarefa. Acrescentar-se à revolta num país latino-americano. Ou retirar-se, ferido, e conhecer a dor que faz a conduta, cada gesto e cada acto que já não se pode rectificar. O mito é sentir um bálsamo no peito, uma mulher que diz o nosso nome e não sofre e nos faz livres. O mito é a mentira.”

Reli a crónica e num gesto impulsivo e resistente, qual disrupção fácil ou mesmo choque frontal hermenêutico, apresentando uma reclamação a este texto ou pelo menos a parte dele. Eis o conteúdo da reclamação através das palavras de Enrique Vila-Matas na obra Perder Teorias. Porém e antes disso, não me peçam o número da página a esta hora, nem neste contexto. Leiam-se estas palavras incondicionalmente. Estas que agora apregoo entre aspas e as outras replicadas lá atrás. Fazem todas parte do mesmo saco-reportório. “Não tenhamos ilusões: escrevemos sempre depois dos outros. No meu caso essa operação de ideias e frases de outros que adquirem outro sentido ao serem levemente retocadas deve acrescentar-se uma operação paralela quase idêntica: a invasão. Nos meus textos e citações literárias totalmente inventadas, que se misturam com as verdadeiras, isso complica ainda mais o procedimento, mas também é verdade que o alegra.”

Preciso de abandonar esta crónica. Desvio de emergência.

Quero falar sobre as minhas experiências esporádicas, mas muito e sempre inesperadamente desejadas, no McDonald’s.

Quero falar da coreografia inusitada e fascinante no render da Guarda no Largo do Carmo às seis da tarde.

Quero falar de cúmulos! (a título de exemplo, o da publicidade enganosa: uma actriz ter feito uma lipo-aspiração e logo a seguir ter sido imagem da Bio-Slim-Duo – espero que se perceba).

Quero falar dos alunos da última fila.

Quero falar dos “lapsus linguae” dos amores felizes em interacções com pessoas que admiram.

Quero deixar de falar de amores nefastos. Quero deixar de falar a partir de acontecimentos sobre-expostos e ultra-manipuladores da agenda mediática.

Quero falar de frases que nos fascinam, enternecem e inspiram e que nos fazem rir quando descobrimos que são slogans de grandes marcas. Por exemplo (“Abre a felicidade”, by Coca-Cola).

Quero falar de gestos futurológicos.

Quero falar das vidas secretas dos artistas que admiro, destacando aspectos inspiradores das suas biografias, moralismos à parte.

Quero falar de duplas artísticas amorosas.

Quero voltar a citar esta greguería de Ramón Gomez de la Serna: “Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal era a força do amor que logo os dois comboios se puseram a andar para o mesmo lado.”

Quero falar de espectáculos fundamentais.

Quero falar do biblioclasmo como fim do reinado do livro, logo da morte do autor, e sobretudo da leitura e do leitor. Quero falar disto como uma questão-dúvida, não como uma aporia.

Quero falar de títulos de livros como: Educação Sentimental; O Ofício de Viver; O Livro do Desassossego; O Outro Que Não Era Eu; Bartleby & Companhia;  Los clássicos también pecan. La vida íntima de los grandes músicos; Os meus sentimentos. A lista é quase infinita.

Quero falar de pessoas sem paladar e sem olfacto e da sua tendência discursiva romanesca para os descrever para e com os demais, não abdicando de os sentir, nem que seja através da sua imaginação.

Quero falar de ti e de mim e das nossas despedidas infindáveis em que evitamos a palavra: - Adeus.

Quero falar do Godard assumindo a dificuldade de dizer sempre as mesmas coisas sobre os seus filmes, como se não fosse satisfatório o que tínhamos dito - por defeito, claro.

Quero falar sobre jantares que merecem uma sobremesa textual.

Quero falar sobre a proximidade diferencial entre as palavras telepatia e sincronia.

Quero falar de finais de crónicas impetuosas, ou melhor, auto-impostas porque tem que ser e o resto já sabemos. É aqui que reside a força da escrita e da leitura. A saber: a possibilidade de um encontro agendado no mesmo dia, local e hora sem marcação prévia ou partilhada entre autores e leitores. Em caso de dúvidas, acrescento isto para si caro/a leitor/a: cresci ouvindo a minha mãe a dizer-me que as putas não se procuram, encontram-se.

Olá! O meu nome é Nelson Guerreiro. E o seu?

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