DIÁRIOS DO UMBIGO

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Antes de mais, é importante explicar que eu não sei escrever sobre música de forma “convencional”. Faltam-me as sinapses que permitem ligar o ponto A ao ponto B, de forma eloquente e organizada. É como encher as páginas de um diário a falar sobre amor. Sobre o nosso amor. Aquelas palavras só fazem sentido para nós, não são transmissíveis e, muito menos, “publicáveis”. A minha relação com a música é emocional e física. Adolescente.

Portanto, este texto não é sobre música. É sobre tesão (sim, esta palavra vai aparecer muitas vezes por aqui).

No meu universo sensorial (ou disfuncional) os The Kills pertencem à mesma galáxia do 'Almost Famous' ou da cena em que se trocam músicas pelo telefone n'As Virgens Suicidas. São símbolos de uma época em que a música era um disparo directo às entranhas, sem paragens pelo caminho. A vida era explicada nas letras das canções, os discos eram ouvidos até à exaustão e gravavam-se mixtapes directamente da rádio.

Neste contexto, a Alison Mosshart e o Jamie Hince são os miúdos com mais pinta da escola. Não são os mais bonitos, mas têm aquilo que a beleza, por si só, não pode dar: inner coolness. Juntos, têm uma química palpável na qual a tesão e a cumplicidade são duas faces da mesma moeda. Entre o rock 'n' roll fofinho e o sexo platónico, há espaço para abarcar o som sujo de Fuck the People e a doçura melancólica de Baby Says. Pelo meio, covers dos Fleetwood Mac, da Patsy Kline e dos Velvet Underground, dão indícios do que Alison e Jamie ouviam no quarto, à porta fechada.

Entre o primeiro álbum, Keep on Your Mean Side, e o último, Blood Pressures, passaram oito anos. O som ficou mais polido, mas nem por isso menos genuíno. As letras podem ter “amolecido”, mas ganharam em experiência de vida. “Time ain't gonna cure you, honey. Time don't give a shit”.

Ainda de cabelo desgrenhado, jeans e camisa aos quadrados, continuam a atravessar o pátio da escola com atitude, mas sem arrogância. Não são deuses inacessíveis. São “golden gods”, prova viva de que o rock 'n' roll também é para humanos como nós (ainda que não tenhamos todos o mesmo nível de coolness).

No meu universo emocional (ou disfuncional) os The Kills aparecem à mesa de jantar, com um empadão e um copo de vinho tinto. Acompanhados pelas pessoas que alimentam a minha paixão adolescente pela música. Aquelas que fazem a banda sonora dos jantares com “youtube battles” e que na pista de dança nos fazem sentir como cantam os Oasis: “Tonight, I'm a rock 'n' roll star”. Pessoas com tesão pela vida e alergia ao bege. Como a música dos The Kills.

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