DIÁRIOS DO UMBIGO

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“No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima, que provocou reacções como se fosse uma enzima” (Da Weasel)

Quando usamos as palavras como matéria-prima do nosso trabalho, a dada altura elas misturam-se umas nas outras como peças de dominó que tombam em cadeia. Pelo uso rápido e continuado tornam-se garfos, facas, objectos funcionais. Somos operários a repetir a mesma acção vezes sem conta. Quando o trabalho acaba, já não queremos escrever mais, não queremos ler, não queremos falar, ouvir ou pensar. Queremos desligar as palavras como quem desliga a luz e ir para a cama. Como se o silêncio fosse um limpa-palatos.

A verdade é que este processo pode demorar muito mais do que um jantar de nove pratos e longo e árduo é o caminho de volta ao verbo. Normalmente, apanhamos boleia de palavras alheias. São elas que nos devolvem o prazer de brincar com as nossas. E o privilégio de ler, falar, ouvir e pensar com os outros.
Esta semana, partilho a estrada com o Alexandre Francisco Diaphra aka Biru .

 “Brincar.

Foi a brincar que dei o meu primeiro beijo.

Foi a brincar que fui mãe e pai pela primeira vez.

Foi a brincar que descobri o que queria ser quando fosse grande.

Foi a brincar que caí e a seguir me levantei.

Porque é que não se brinca com a comida?

Foi para brincar que acordei.”

Nascido na Guiné-Bissau como Alexandre Francisco, o Biru emergiu como rapper, MC, poeta, beatmaker e “edutainer” (educador + entertainer) em 2003. No entanto, aquilo que o move, o seu “propósito”, já se tinha iniciado muito antes. Que propósito é esse, onde e quando surgiu, não interessa muito saber. É mais importante testemunhar a força que o move através das palavras que usa. Ao fazer isso, estaremos mais próximos de perceber a origem das mesmas. Até porque, “as palavras têm muita força, porque não têm força nenhuma para além daquela que lhes é dada”, diz.

Fez parte dos Social Smokers entre 2009 e 2010, na companhia de Alex Cortez, Silva o Sentinela, Jorge Vaz Nande e João Pedro Gomes, entre outros. Nos últimos dois anos, assumiu-se como colaborador permanente do projecto Batida (sob a batuta de Pedro Coquenão, é uma das propostas mais interessantes nascidas por cá nos últimos anos. Mas isto fica para outro dia. Batida é o ritmo primitivo do corpo e isso não se espreme assim em duas linhas).

Eu cheguei até ele em 2010, no Festival Silêncio, durante um workshop de spoken word para crianças. Com o próprio diz, “uma oficina à volta da palavra falada”. Não era um professor, mas sim um educador. As palavras eram estimuladas dentro do universo de cada criança – umas tímidas, outras mais expressivas, uma sempre em modo “palhaço”. Personalidades diferentes, com respirações distintas e ritmos únicos. Eu, já muito saturada das minhas, dei por mim entusiasmada com as palavras deles. Foi a minha primeira boleia com o Biru. Entretanto, perdi-lhe o rasto. Até o voltar a encontrar agora, já enquanto Alexandre Francisco Diaphra.

O primeiro nome já sabemos de onde vem, o Diaphra é a junção de várias coisas: Diafragma, oriundo de África, Biafra de Jello Biafra dos Dead Kennedys (a parte punk da sua identidade). É tudo aquilo que desconhece sobre si próprio, representado num sobrenome. “O Biru partiu em busca de quem era e do que andava para aqui a fazer e encontrou a sua morte em Alexandre Francisco Diaphra e hoje está mais vivo do que nunca através do mesmo”, diz. “O Alexandre Francisco Diaphra é a desconstrução do Biru, membro a membro, órgão a órgão em unidades de Planck”.

Expressa-se artisticamente através do GhettoGUMBE. O Gumbé é um estilo musical e uma dança oriundos da Guiné-Bissau. O termo significa também união, concentrando em si tudo o que é Guineense. Talvez por isso, o Biru diga que para ele o Gumbé é um “ritmo, UM coração”. No fundo, a identidade.

“O gueto reúne em si pessoas diferentes sob a mesma condição, sendo esta o gueto. E isto é algo surpreendente, porque assim sendo parece que o gueto é o sítio "perfeito" para se ser e viver. No entanto, a realidade mostra e não mostra outra coisa completamente oposta”. Por isso mesmo, no universo de Diaphra, o gueto aparece como utopia e distopia ao mesmo tempo. “Ver o gueto desta forma foi algo abismal e transformador para mim”, diz.

Esta busca pela identidade e pela origem foi registada num bloco de rascunhos, 'Diaphra's Blackbook of The Beats'. Registos imperfeitos que são o coração de dois projectos a lançar este ano - o primeiro álbum, ainda sem nome, e um livro de textos e poemas.

O livro vai ser editado pela Mental Groove Records e vem acompanhado de ilustrações de Fidel Évora, um DVD com vídeo arte / vídeo poesia da autoria de Manuel Bello Lino e do próprio Diaphra, assim como um CD com instrumentais assinados em parceria com o beatmaker DPHR2795, o seu “braço direito nesta jornada, a muitos níveis”.

“Sabem quantas pessoas tem havido desde o princípio do mundo até hoje? - Duas. Desde o princípio do mundo até hoje não houve mais do que duas pessoas: uma chama-se a humanidade e a outra o indivíduo. Uma é toda a gente e a outra uma pessoa só.”

Esta citação de 'Pierrot e Arlequim', de Almada Negreiros, serviu de inspiração para uma série de fotos criadas em parceria com Manuel Bello Lino. O projecto 'Humani Versus Humanitas' foi desenvolvido no âmbito do colectivo Human Afterall, do qual Biru também faz parte.

“O Versus aqui não é um contra, é um frente a frente”, esclarece. “O que eu sinto como Ser Humano é que a Humanidade está mais Humana hoje do que alguma vez já esteve”.

Mais humanos, mas menos conectados com a importância das palavras?, pergunto eu. Onde é que elas encaixam aqui? “Nós falamos muito, conversamos pouco e questionamos muito menos. Para a Humanidade, eu acho que as palavras são um vício. A gente consome as palavras sem já perceber bem o que elas são, chegamos ao ponto de nem perceber quando as usamos, quase como respirar. Conectar com algo implica um certa atenção, e atenção requer tempo, e tempo é dinheiro e como sempre estamos em tempo de crise. Eu acho que a humanidade está pouco conectada consigo própria e com muita pressa.”

E a pressa reflecte-se em tudo. Nesta minha segunda boleia com o Alexandre Francisco Diaphra aka Biru, ficou muita coisa guardada na mala – a spoken word, os palavrões e mais uma mão cheia de observações sobre o mundo dos Homens e das Palavras que o Biru teve a generosidade de partilhar comigo. Mas não cabe tudo aqui.

Pelo menos até Novembro, estes novos trabalhos vão andar pela estrada. França, Alemanha, Portugal e, provavelmente, também o Brasil e a Suíça, já fazem parte do itinerário.

Para quem estiver interessado, a próxima paragem em terras lusas é no Musicbox, a 19 de Abril. 'Diaphra's Blackbook of The Beats' ao vivo, para sentir a intenção por detrás das palavras.

“Eu posso não ter nada, mas aqui há tudo o que preciso” (Biru)

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