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O artista argentino Alejandro Somaschini tem neste momento a decorrer uma exposição intitulada Caracol no Museu de Arte Moderna de Buenos Aires (MAMBA).

Aqui deixamos um texto escrito acerca da exposição e sobre o trabalho de Alejandro:

por Maria de Fátima Lambert

1. À noção de arquivo subjaz uma praxis e uma poiésis que encontram cumplicidade lúcida na obra de Alejandro Somaschini. Aby Warburg concebeu um “never ending” arquivo, sob auspícios de Mnemosine, acreditando que a força e dinâmica das imagens construíam uma historiografia da arte consistente. A fundamentação antropológico-cultural e simbólica presentificam-se nos elementos de natureza diversificada que o artista convoca sempre que inicia novo projecto de criação. As imagens sofrem processos metamórficos pois Alejandro Somaschini sabe recheá-las de matérias fabricadas ou elementos de radicação cosmogónica e memorial. E então, vamos assistir a um desfile de ideias que se passeiam em obras em mutação constante, transfigurando-se de acordo e a partir dos estímulos que o público possa potenciar. É um universo onde mecanismos psico-afectivos e a invenção hermética se associam a uma mestria técnica, provando que os gregos da antiguidade estavam certos… A tekné e a poiesis presidem, são cúmplices guiadas pela mão que responde ao cérebro do artista.

2. Em associação intuitiva, quase automática, relacionam-se arquivo, razões (e sensibilidade) de tempo e espaço que, por sua vez, se ramificam em concatenações. Quanto ao conceito de tempo: memória, património, duração, incompletude, perenidade, mutações (e metamorfoses). Quanto ao espaço: deslocação, transladação, fixação, dinamismo, hieratismo, indeterminação, sedentarismo…de lugar…Toda essa matéria bruta, que o autor foi acumulando, é crivada pelo pensamento, filtrada pela sua capacidade de outorgar corporalidade ao imaterial e vice-versa…ou seja, atribuir intangibilidade às substâncias. Eis, o plasmar de energias (intangíveis ou invisíveis?) que procedem quer da matéria do pensar, quer da ausência da existência visível. Estas ambiguidades atraem-se como se fossem casos magnéticos, ímanes psicográficos...

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3. A herança do homem imemorial como recolector, aquele que cativa para si, numa intenção de quase perenidade, preserva as coisas ínfimas, sentindo a satisfação assinalada por Nietzsche: a fruição das “pequenezas da vida”. De fragmentos, relíquias e vestígios se cumpre a decisão do artista argentino. A metodologia estética é cúmplice da estratégia, garante da mais genuína plasticidade documental. Esses elementos são matéria-prima ou ideias em potência que se convertem em objectos ou imagens plasmadas. A textura, a espessura, as saliências e os contornos das coisas, tão simples quanto o delinear ornamentativo de uma mesa ou estirador de arquitecto, podem ser palco para gerar espécimes que sejam “doppelganger”, duplos de si, a descolar para voos que celebrem a leveza de um espírito apaziguado. É caso de ofício da arte, tanto quanto da espiritualidade e do esoterismo que a alimentam.

4. Para a Estética do Organismo, vertente privilegiada no período Medieval, a natureza era símbolo vivo da criação de Deus, o que lhe conferia um grau analógico absoluto de beleza e perfeição, princípio formulado originariamente pelos Padres da Igreja, baseados nas ideias sobre a Criação - Livro do Genesis. Deus era o Grande Artista, à semelhança do qual o humano devia procurar, salvaguardadas suas limitações, exaltar pela sua criação, a excelência do acto divino. Durante o Renascimento, a natureza foi avaliada de formas diferentes: na linha platónica, Marsilio Ficino atribuía-lhe modesta situação; Leonardo da Vinci considerava-a perfeição suprema; Bellori entendia-a inferior à Arte.

5. Por outro lado, atenda-se à nota inovadora das construções virtuosisticamente pensadas e executadas por Somaschini, alinhado (também) pelo conceito de “novelty”. Assim, retroceda-se até a um dos filósofos que antes de David Hume, valorizou essa nota identitária para o pensamento e a arte. Francis Bacon afirmou: “Solomon saith, There is no new thing upon the earth. So that as Plato had an imagination, That all knowledge was but remembrance; so Solomon giveth his sentence, That all novelty is but oblivion. Whereby you may see, that the river of Lethe runneth as well above ground as below.” Tal argumentação evidencia-se, pois, através da metodologia poiética de Alejandro Somaschini que concilia o “novo” e memoria, aproximando-se de uma circularidade mítica que tempo e espaço lhe afiguram e propiciam.

6. Fernando Pessoa, num fragmento sobre "Goethe", afirmou: "O Homem de génio é um intuitivo que se serve da inteligência para exprimir as sensações." Nesse excerto, Pessoa comparava a criação do génio a um processo alquímico, conciliável à dimensão esotérica predominante em Almada Negreiros: "O génio é uma alquimia. O processo alquímico é quadruplo: 1) putrefacção; 2) albação; 3) rubificação; 4) sublimação. Deixam-se, primeiro, apodrecer as sensações; depois de mortas embranquecem-se com a memória; em seguida rubificam-se com a imaginação; finalmente se sublimam pela expressão."

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Este substracto pessoano fundamenta a dinâmica processual de Alejandro Somaschini, conferindo a sustentação de uma via que procura cumprir a ideia de projecto. Todas as suas apresentações de obra resultam do encadeamento de motivos antropológicos e ideologias estéticas que ganham mais e mais extensão e resistência através do processo – que reafirmo ser alquímico.

7. A tendência para criar, consubstancializa-se na possibilidade de acção "dinâmica", sem que o homem a queira concluída em absoluto, nomeadamente, essa que considera "a sua mais bela criação" — garantindo-lhe a condição singular. Criar implica o acto: decisão de agir por quem vai agir; acto do humano sobre algo que será originado — obra a fazer. A posse e domínio da vontade para a acção são tema implícito ao pensamento ocidental, simbolizado na estruturação mítica de Fausto, o símile da Acção Divina:

"No princípio era o Verbo" vejo escrito,

E aqui já tropeço! Quem me ajuda?

(…) Está escrito

Que "No princípio era o Pensamento". —

Medita bem sobre a primeira linha,

Apressada não seja a pena tua!

Anima, cria tudo o pensamento?

Devera estar — "Era ao princípio a Força!"—

No momento porém em que isto escrevo

Diz-me uma voz que aqui não pare. Inspira-me

A final o espírito! alvitre,

Solução enfim acho: satisfeito,

"No princípio era a Acção!" — escrever devo."

8. O artista confirma-se na obra, em estado superior de personalização, preocupando-se "essencialmente em libertar também o mundo das suas próprias entranhas atávicas, as quais são afinal o único que ensombra a claridade e a luz." Mediante o acto de criação, nos domínios estético e esotérico, a personalidade do artista como autor é transformada em objecto-presença — e substância — da sua criação, atingindo a genuinidade, transposição da unidade entre si e a obra, pelo acto genésico: "O pintor tem de apurar-se a si mesmo; fazer de si próprio a obra-prima da criação, o homem." O acto de criação pode implicar a decorrência em estado de suspensão, onde o autor quase se liberta dos grilhões que possam manipular de forma atentatória a genuinidade de suas ideias. Essa suspensão que afasta o acessório, pode imperar e instalar-se em configurações realizadas a partir de materiais leves (espiritualizados) que sobrevoam a matéria mais densa de outras peças tridimensionais e escultóricas de Alejandro Somaschini. Parecendo que do peso das coisas desenhadas se eleva a sua alma, pendurada em fios que são teias de pensamentos.

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9. A Arte considera o património comum do Homem, na pluralidade de obras que preservam memória — individual e colectiva — ao longo da cronologia, servindo-lhes de impulso no devir: "A Arte é sobretudo atitude universal da pessoa humana."

Ao longo dos anos, Alejandro Somaschini tem privilegiado a incidência do seu olhar crítico sobre episódios e situações históricas localizadas nos conflitos societários, onde se destaca a denúncia metaforizada da escravidão no Brasil. Numa poética quase incongruente, o peso da história plasma-se na figuração intermedial do humano que carrega às costas a obediência. As coisas do mundo são menos pesadas do que as ideias que obrigam a esse mito de Sisifo…busca incessante pela razão das coisas…ou escopo do titã Atlas que carrega o mundo… (efabulações narrativas e visuais sobre a escravidão, residindo na fantasia estruturada do pensamento mítico-poético grego…

10. A Arte procura a unidade, integrando manifestações sob o denominador comum que é o indivíduo humano no seu todo. Atingir a unidade suposta na Arte "…não é mistério para alguns, mas é um segredo que fica no segredo de cada artista." Exige-lhe o domínio do mistério pessoal; alcançar conhecimento e sabedoria das coisas primordiais; cumprir a missão intransmissível de autoridade pessoal — invisível ou intangível alteridade — portanto, segredo de si mesmo. O artista preservará a coerência, produzindo algo que contemple a atitude humana revertida na arte , designadamente, na postura ética consignada no acto de criação. Uma das metáforas da construção (formação progressiva da consciência do eu) habita a definição de casa. Para edificar a identidade própria assim como assegurar a integridade de uma comunidade, deambula-se nos terrenos da edificação de uma pele que é a casa.

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A casa supõe unidades compósitas e funcionais que Bachelard analisou na Poética do Espaço. Tanto os materiais, quanto as partes desse todo, são convocados por A.S. para conceptualizar as suas produções quase de força alegórica. O telhado é uma zona de contacto e de fronteira, constituída por unidades concatenadas entre si, como um feixe unitário, que protege e se mantém inviolável. Cada telha “colonial” é parte indispensável, salvaguardada embora a sua fragilidade e potência dúctil. Assume um protagonismo investigativo (e metonímico) numa axiologia, também de cariz post-colonialista, por parte do autor.

11. A totalidade de uma qualquer tipologia – conceitual e/ou objectual - decorre da aglomeração organizada (analisada, sistematizada, revista para plausível interpretação), subsumada a dada categorização específica. Assim, imagem, objecto ou ideia adquirem carga suplementar, sem exigir um acto de total dissolução originária ou generalizado esbatimento singular. Cada elemento/obra que o artista produz, resulta de uma notável harmonia, de uma equilibrada relação entre um “saber fazer bem” (tekné) que domestica e executa o pensado. Pois que o artista é um artesão também, dominando os ofícios da acção sobre os materiais, quanto domesticando as suas próprias ideias. Assinale-se a circularidade alquímica, revestida de extrapolações, acumulada pelos meios, ferramentas e técnicas para aceder ao tangível e ao visível, transfigurados em matéria e correspondendo ao conceitual do Alejandro Somaschini.

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