FOTOGRAFIA

  • none

Pierre Gonnord dá alma aos seus retratos. Basta um clique e o papel fotográfico assume as emoções transmitidas pela pintura. Por vezes hostis, outras frágeis, mas sempre belos, os seus retratos emanam sentimentos facilmente apreendidos pelo espectador. A Pierre agrada a ideia de fotografar a singularidade e individualidade de personagens pertencentes a grupos sociais. Eles representam realidades específicas que vão desde a imigração, ao êxodo rural, aos movimentos feministas, passando pela tão em voga crise económica. É dotado de uma capacidade introspectiva e consegue através do seu trabalho estabelecer o perfeito equilíbrio entre o psicológico e o sociológico. Nasceu em França em 1963, vive actualmente em Madrid e nutre uma paixão por Portugal, fazendo parte da exposição colectiva Políptico, que esteve no espaço Bes Arte & Finança. Para esta foi-lhe pedida uma interpretação da obra Painéis de São Vicente de Fora, pertencente ao Museu Nacional de Arte Antiga. Esta obra representa para o artista histórias de indivíduos intemporais e foi também um pretexto para voltar a Lisboa.

Costuma dizer que escolhe os seus retratados no anonimato das grandes cidades. Como escolhe as suas caras? Têm elas algo em comum? O que representam?

Eu escolho o ser, o indivíduo, único, à margem do seu grupo social. As personagens de que falo são pessoas que brilham através de uma luminosidade interior muito intensa, sensível e é devido a ela que decido falar delas, de mostrar essa luminosidade que me aquece e prova que a condição humana é imensa. É falar do silêncio que paira à volta destas pessoas. Decidi ir ao encontro de personagens mais afastadas do epicentro e do bem-estar da nossa sociedade urbana. Pessoas que existem e que são por vezes ameaçadas por cataclismos sociais, políticos, económicos ou históricos. Estes indivíduos, provenientes de grupos que correm o risco de desaparecer ou que aparecem no nosso quadro de vida diário mas para os quais não olhamos, ainda que os vejamos. Teremos a memória curta e o campo de visão restrito para esquecer que fomos e seremos de novo imigrantes, que fomos e que provavelmente voltaremos a ser ameaçados, perseguidos ou marginalizados pelas nossas ideias, a nossa raça, o nosso género…? Explorar estas margens representa a minha forma de reconhecer a importância do silêncio construído socialmente e de dar a estas personagens a sua condição de testemunhos de uma existência que lhes é própria e única.

O que representam estes retratos para si? Podem todos eles tornar-se num só?

O rosto, colocado de forma absoluta entre presença e ausência, entre semelhança e desvio, obriga-nos sempre a uma meditação complexa sobre o ser, sobre o “eu-mesmo” e sobre “o outro”. Nós somos absoluta e irremediavelmente implicados na diversidade. Queria que os meus retratos nos situassem como espectadores face a estes outros que são ao mesmo tempo o nosso espectador. O outro existe porque nós existimos e temos uma dívida para com eles. Olhar nos olhos estes modelos é sentir de certa forma que olhamos a nossa própria essência enquanto seres humanos. Instalado na intimidade do estúdio analiso estes rostos e repito dia após dia este velho ritual.

Consegue encontar as máscaras no interior destas pessoas?

Mas o retrato é também, e sobretudo, um terreno de encarnação e sublimação. “Pode sempre crer no que os seus olhos vêem?” Interrogou-se Sigmar Polke numa das suas pinturas de 1976, descrevendo assim as situações nas quais é difícil permanecer único perante o que aparece em frente ao nosso olhar. Quando um retrato nos conduz a um outro lugar! O reflexo não parece mais espiritual que o objecto reflectido? Gosto de idealizar os seres e criá-los à sua semelhança.

 Cria amizades com as pessoas que fotografa?

É muito difícil fazer verdadeiras amizades, mas tenho o hábito de voltar a bater às portas de quem me acolheu. Em Espanha mantive o contacto com os meus modelos madrilenos, com os mineiros de carvão e com a comunidade cigana de Sevilha.

Já ocorreram casos em que as pessoas se recusam a ser fotografadas?

Existe uma história que se passou numa pequena comunidade em Trás-os-Montes em que o presidente da Câmara chegou a chamar a polícia. Considerou-me suspeito por andar a rodear a região e abordar pessoas idosas e jovens raparigas. Seguidamente apercebeu-se de que podia confiar em mim e começou a ajudar-me.

A sua arte já viajou por diversas cidades…

Cada viagem deixa lembranças marcantes: A minha estadia em Sevilha no bairro cigano foi extremamente forte, tal como a experiência na bacia mineira asturiana. Em Portugal também, e tenho sobretudo o desejo de regressar para um longo trabalho.

Sim, sei que adora Lisboa e que tem mais projectos por cá. O que tem em mente?

Tenho a ideia de voltar em Setembro após o trabalho que irei desenvolver esta Primavera em Alabama em torno da memória de William Faulkner. Para além disso tenho inúmeros projectos. Adoraria fazer um livro sobre os ciganos, sobre os antigos judeus que residiram escondidos em Belmonte, sobre os últimos heróis do mar, os pescadores, sobre os novos chegados da imigração, sobre as periferias de Lisboa e Porto, sobre a terra e os seus lugares mais inacessíveis… temas e álibis não me faltam, são infinitos.

Elabora uma espécie de diário com os seus retratos?

É evidentemente uma construção dentro da qual eu me implico consciente e inconscientemente e inclui a minha história pessoal. “Todo o retrato que foi pintado com sentimento é um retrato do artista e não do modelo” assegurou Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray. Cada uma das minhas obras aproxima-me por conseguinte de mim próprio. Para além do acto fotográfico, todos estes encontros e estas viagens são histórias de vida e testemunhos que vão muito além do retrato.

Alguma vez pensou em fazer um auto-retrato?

Não, não me interesso pela minha própria figura. Prefiro falar de mim através do rosto do outro para sentir essa parte comum de humanidade.

Fazer retratos foi a sua primeira incursão no mundo da arte?

Não. Fazia retratos por necessidade, como uma terapia. O mundo da arte não me interessava realmente. É um projecto que vai bem além. Uma experiência de vida.

 

ARTIGOS RELACIONADOS

Fotografia

Newsletter

Subscreva-me para o mantermos actualizado: