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As palavras “membrana”, ”não suporte” e “pele da pintura” surgem a propósito do trabalho do Daniel Melim. Palavras que referindo-se talvez mais ao processo, remetem, como a própria pintura, para o campo do orgânico, do vivo, do movimento. Nos seus quadros encontramos modelos de tecidos coloridos criados pelo pintor que parecem querer voar, parecem querer subir, parecem querer viver.

Quase enquadrados num azul ambicioso que os encoraja, sente-se neles a vontade da vida, desse descolar.Apesar deste enorme esforço, bem estéril, há sempre uma parte escondida, presa, que os segura e fixa a uma condição de inanimados, de amarrados, de objectos mortos. Da sua vontade sai apenas um belo acto falhado, em permanente suspensão. Estão então assim condenados ao eterno ensaio do que seriam, congelados no esboço pequeno de um movimento só. É desta incerteza poética entre o vivo e o morto, o movimento e o estático, o livre e o preso, o chão e o ar, que tratam os quadros e desenhos em exposição. Logo na entrada da galeria encontramos dois desenhos. Num deles vemos um estendal que esvoaça ao vento numa imagem de leveza e afirmação positiva. O outro desenho sugere o mesmo estendal, agora destruído, caído por terra. De um lado a vida ao vento, do outro a morte caída no chão.

Parece assim que esta dualidade, que quer ser o grande tema do pintor, se nos mostra claramente, de uma forma metaforicamente simples e completa, reduzida à sua essência, assim que chegamos. Todos os trabalhos que depois se seguem serão assim representações plásticas e variações de uma mesma manifestação: a tensão entre a ascensão e a queda, a relação entre o céu e um corpo, a limitação firme e branda do viver.

Daniel Melim é representado pelas galeria Mercedes Viegas no Rio de Janeiro.

Fotografias cortesia do artista.

Arte

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