FOTOGRAFIA

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Cartilha Ilustrada do Neo-Vitoriano Iluminado.

Assombrado, depurado, intimidador, surrealista, desproporcionado, sinistro, evocador. Uma das chaves possíveis para o quarto dos sonhos de Chris Anthony pode residir na forma como diferentes viagens foram influenciando o seu percurso interior.

CHIVALRY TOWARDS LADIES

Desde logo, a viagem inicial desde o ambiente campestre sueco onde nasceu até Estocolmo, continuando de seguida pelo Sul de Espanha, Marrocos, Nova Iorque, Itália e finalmente até Los Angeles, onde se fixou. Chris Anthony começou por fotografar bandas quando tinha doze ou treze anos – não tanto pela arte em si como pelo seu interesse em música e no negócio musical –, semi-profissionalizou-se por volta dos quinze anos e prontamente se reformou pelos dezassete; mudou-se para Itália para estudar História de Arte e parou de tirar fotografias para se tornar realizador de filmes publicitários e vídeo-clips, actividade que prosseguiu durante os doze anos seguintes, antes de regressar à fotografia – comercial, mas sobretudo artística. Este vai-e-vem entre imagens fixas e em fluxo consiste na sua segunda viagem e atrevemo-nos a aventar que uma terceira se consubstancia numa peculiar viagem no tempo – a acelerar em direcção ao passado.

A sensibilidade artística de Chris Anthony está longe de ser contemporânea, professando o artista a sua admiração pelos pintores britânicos do século XIX, Pré-Rafaelitas e Simbolistas. Artistas como Caravaggio, John Singer Sargent, Millais e Edward Gorey são citados como influência e inspiração, e os únicos fotógrafos a merecer menção são Julia Margaret Cameron, Richard Avedon e Irving Penn. Se soubesse desenhar, ele ter-se-ia tornado provavelmente pintor em vez de fotógrafo. O fascínio pelo arcaico espressa-se no seu próprio modus operandi, quando sabemos que fotografa exclusivamente com câmaras de grande formato (4 X 5 polegadas), confecciona muitas vezes pessoalmente os adereços (nomeadamente as máscaras que têm proliferado na sua obra), prefere quase sempre a iluminação natural (sobretudo a que jorra de cima, à maneira das clarabóias) e colecciona as mais variadas lentes vintage do século XIX e inícios do século XX, mais exactamente do período compreendido entre 1870 e 1910, sobretudo de proveniência francesa.

Quando Chris Anthony retomou a actividade fotográfica após os filmes, a sua abordagem inicial à composição foi relativamente simples e depurada – são da sua responsabilidade algumas das imagens mais esotéricas da campanha da Playstation 3 –, tendo sido apenas na série pessoal Red, White, Black and Blue (o seu primeiro arco conceptual), que começou a experimentação na decomposição das imagens, fundindo duas ou três fotografias numa só e depois revertendo o processo, decompondo-as e recompondo-as novamente. Podia ser algo demorado, mas era certamente intuitivo. Duas coisas aconteceram então quase simultaneamente: a descoberta de uma nova liberdade artística e de um estilo próprio de recomposição; e, propulsionada pela tomada de consciência das limitações práticas a essa mesma liberdade – por ausência de meios financeiros ou recursos que lhe permitissem ter a totalidade dos elementos que pretendia num mesmo local e altura –, a assunção de uma técnica a que poderemos chamar mista: se a captura das diferentes partes das imagens se fazia através de meios arcanos naturalistas, a sua junção e composição finais tinham lugar digitalmente (Photoshop, scanner).

Será que esta síntese meticulosa e feliz entre o antigo e o novo torna Chris Anthony no modelo do fotógrafo do futuro? Ele afirmou-nos que continua interessado em explorar cada vez mais o passado, mas que as infinitas possibilidades da composição digital lhe serão sempre úteis. «Tudo o que é antigo volta a ser novo». Tem vindo a testar as suas novas (velhas) lentes, sobretudo em retratos, explorando com evidente gozo retro a qualidade ligeiramente desfocada e vertiginosa das imagens resultantes – que não necessitam praticamente de pós-produção, ficando concluídas para todos os efeitos na altura do disparo, o que paradoxalmente representa uma exploração fresca do seu processo de criação.

A maioria das fotografias “compostas” de Chris Anthony são resultado de inúmeras sessões separadas no tempo e no espaço – outras de duas ou três apenas –, muitas vezes na sua própria casa, quase sempre a solo. A variedade das experiências e modos agrada-lhe e este nível de controlo e liberdade no processo é essencialmente o que o faz preferir a imagem fixa à experiência como realizador – a filtragem directa ou indirecta dos clientes e das equipas, a logística inerente às sessões e as constantes limitações de tempo tendem a provocar distracções e distorções no impulso criativo puro, que, no extremo oposto, não conhece limitações quando se trabalha sózinho. Mas é interessante verificar que, em derradeira análise, a abordagem do artista se faz quase sempre sob a forma de uma narrativa mais ou menos consciente, que ele procura um contexto onde as figuras se enquadrem e se transfigurem em verdadeiras personagens de um qualquer filme secreto, completado com um guarda-roupa e adereços tão minuciosos quanto anacrónicos.

TOO_MANY_HANDS

Chris Anthony confirmou-nos que por vezes as suas imagens «se parecem com fotogramas de uma película» e que os modelos são normalmente actores reais seus amigos, os mais habilitados a incarnar fantasmas. Afinal, ele é a pessoa mais normal que conhece, como diz uma das suas séries mais conhecidas.

Apesar de fixadas, essas imagens possuem uma natureza íntima de algo em fluxo, de estarem inseridas numa realidade em movimento, a evocar um sentimento de precipitação num drama, num mistério encenado. O imenso espaço negativo e a horizontalidade extrema que caracterizam algumas das suas séries – executadas na maioria com um rácio de 1 para 2,5 – confirmam esta qualidade de palco onde se parece desenrolar (literalmente) uma acção dramática, para onde o observador é convidado a entrar (e a reflectir como é que esse espaço o afecta emocionalmente). O convite à fusão com quem olha é ainda explicitado pelo facto de a dimensão das ampliações, quando expostas – em papel de textura espessa, naturalmente – chegar a atingir os dois metros.

A peculiaridade do apenas aparente espaço vazio das imagens, em conjunto com a desproporcionalidade dos seres e a perspectiva relativa aos objectos fez-nos confrontar o artista com a hipótese de o seu trabalho ter o ponto de vista de uma criança, talvez adormecida e sonhadora. Chris Anthony concordou mas sublinhando vigorosamente que «nunca num estado de sonambulismo, ela é muito real e muito presente, estando talvez apenas vestida com roupagens a fazer lembrar o mundo dos sonhos». Sonhos ou revisitações de um mundo steampunk gótico, vitoriano (ou seja, estrito, secreto, perverso) mas muito sério. O mundo do futuro?

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