FOTOGRAFIA

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Aos 20 anos comprou uma máquina fotográfica e começou a “brincar” com ela, explorando as suas potencialidades. Foi assim que começou a pintar com as imagens, numa exploração sensual, lenta e atenta. As suas fotografias são dotadas de magia, incerteza de formas e provocam-nos a alucinação, uma existência real ou imaginada? Simpático, conversador, com muitíssimas histórias para contar, dotado de um sotaque brasileiro de um português que há muitos anos vive nas terras de Vera Cruz. Foi assim o primeiro contacto com Fernando Lemos, mestre da fotografia surrealista em Portugal. Mas nem só de fotografia vive a sua arte. A pintura, o desenho e a poesia ocupam um grande lugar na sua vida.

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Fernando Lemos/ Auto- Retrato (1949-52) Colecção Museu Berardo

«Sou uma caixa de vários lados / com vários cantos / com duas sombras / uma escura que nasce da clara / outra clara que nasce da escura». Fernando Lemos

Como é que integrou o movimento surrealista português?

Foi pouco depois de ter visto a primeira exposição surrealista. Eu já trabalhava na área das artes, como artista gráfico, estava a fazer o curso da António Arroio e da Sociedade Nacional de Belas-Artes, e ao ver a exposição fiquei deslumbrado. Era uma bandeira de liberdade total. Já conhecia os artistas que expuseram, entre eles António Maria e Mário Henrique Leiria. Mas a certa altura, os surrealistas já estavam divididos em dois grupos. O grupo do José Augusto França, António Pedro, Marcelino Vespeira e Fernando de Azevedo era o grupo com que mais me identifiquei e onde acabei por ficar. Todos nós tínhamos divergências, aliás nós adorávamos divergências. Automaticamente assumi um compromisso como surrealista com a primeira exposição na Casa Jalco.

Fale-me do magnetismo dos encontros do seu grupo de artistas surrealistas.

Encontrávamo-nos em cafés. Eram centros de conversa e discussão e ao mesmo tempo lugares clandestinos. Procurávamos cafés não frequentados por agentes da PIDE. Quando íamos à Brasileira, local muito frequentado por eles, tínhamos a preocupação de nos divertirmos e de dizer parvoíces que eles não entendiam e não achavam graça, mas registavam tudo. O nosso prontuário policial tinha coisas hilariantes. A nossa actividade era de anti-burgueses e tudo o que fosse burguês ignorávamos profundamente. Combatíamos tudo e fazíamos uma vida nocturna de andar nas ruas. Divertiamo-nos imenso ao passar nas lojas na Rua do Carmo e nos Armazéns do Chiado. Adorávamos conversar com os manequins, e eles ficavam ali imóveis a ouvir (risos). Identificávamo-nos com eles, conversávamos e fazíamos poemas, e muitas ideias surgiram destas conversas.

Como foram os preparativos para a sua primeira exposição na Casa Jalco?

Não foi fácil. Conseguimos convencer o dono a fazer o que queríamos lá dentro, o que de certa forma era complicado pois tratava-se de uma casa de luxo. Ele emprestou-nos uma série de materiais, entre eles cadeiras sem forro, e nós montámos todo o “cenário”. Pedi-lhe manequins antigos, e ele disse-me que no último andar tinha uma série deles. Entro na oficina e deparo-me com um dos manequins que eu já conhecia. Estava desmembrado, com a cabeça e uma coxa em cima da mesa, braços pendurados e entretanto eu disse: “mas eu conheço este manequim, sou amigo dele”. A pessoa que trabalhava na oficina ficou estupefacta a olhar para mim. Tirei a fotografia ao manquim sem mexer em absolutamente nada e passei a usá-la sempre nas capas dos catálogos e em convites.

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Fernando Lemos - Intimidade do Chiado (1949-52) Colecção Museu Berardo

Uma vez que era uma época complicada, conseguiam ter informação do que se fazia a nível artístico no exterior?

Não era nada fácil, só a partir de uma certa altura é que começámos a ter referências porque não tínhamos informações sobre o que acontecia. Aliás eu conheci o Man Ray em Paris, na casa da Vieira da Silva.

Diziam que o Fernando Lemos era o Man Ray português. Concorda com a comparação?

Sim, por analogia de fenómenos de época, muitos surrealistas se identificaram entre si. São situações que já não acontecem. Man Ray era de facto o artista com o trabalho mais semelhante ao meu. Nenhum dos surrealistas até então tinha feito fotografia. Não ao mesmo nível que eu. Não fizeram nenhuma pesquisa técnica, como eu fiz, no sentido poético. A forma como eu fotografava era como se estivesse a pintar. Comecei a dedicar-me cada vez mais à fotografia e à pintura. O desenho e a poesia foram ficando para trás.

É verdade que conseguiu alguns efeitos de sobreposição devido a uma máquina que tinha comprado, a Flexaret?

Sim, era uma máquina com uma boa óptica, mas sem automático, ou seja era preciso dar corda ao rolo para este avançar. Eu virava o rolo e se quisesse continuava a fotografia na mesma chapa. Usava o mesmo negativo, ocultava uma parte e registava uma imagem, já sabendo que na outra faria algo que se iria somar como se eu estivesse a pintar. A química toda funcionava como se fosse pintura. É um tipo de trabalho que questionou muita gente. Foi muito discutido nas várias exposições que fiz.

Fale-me um pouco da época do Salazarismo, das dificudades que sentiam a criar e dos problemas que tiveram aquando da exposição na Casa Jalco.

Era particularmente difícil porque a nossa própria postura pública era sempre contra tudo. Não queríamos conquistar o mundo e não queríamos que o mundo nos conquistasse. Tínhamos sempre propostas bastante provocadoras, o que irritou toda a gente, desde a Igreja, à Sacristia, escolas de Belas-Artes e por aí fora. Aquando da exposição, os alunos da escola de Belas-Artes foram lá, cuspiram nas obras e provocavam-nos na rua. Os comerciantes do Chiado fizeram um manifesto e apresentaram-no à polícia para solicitar que fechassem a exposição e nos colocassem na cadeia. Dois indíviduos da PIDE seguiam-me todos os dias no eléctrico. Era de um rídiculo atroz. Eram uns saloios que não tinham nada para fazer, mas criavam mal-estar. Quando acabou a exposição usámos um camião onde colocámos todo o meu material, do Azevedo e do Vespeira e pintámos uma faixa que colocámos em volta do mesmo que dizia “Fiquem Tranquilos Burgueses. Nós Terminámos a Exposição” e demos a volta a Campo de Ourique, Alto de São João e Penha de França.

Foi considerada a exposição mais escandalosa que se tinha feito até então.

Sim, estava tudo muito quieto e pacato. Tudo bem muito obrigado, então sim, foi considerada uma revolução, quando na Europa já se faziam muitas exposições do género. Toda a crítica que se fez parecia conversa de bêbedos, já não tinham o que dizer e inventavam coisas para nos condenar. Só agora a área do Surrealismo da Colecção Berardo é que nos colocou numa plataforma internacional, juntamente com todos os grandes expoentes do movimento. Finalmente, os surrealistas portugueses saíram dessa coisa de serem provincianos.

Decidiu então ir-se embora...

Sim, já estava completamente farto e não conseguia calar-me e deixar de responder a provocações. Não queria entrar nos extremos e começar a lançar bombas na rua..

Como foi a reacção às suas fotografias quando chegou ao Brasil?

Andei para trás e para a frente com as minhas fotografias numa caixa e uma vez até apanharam chuva. Mas valeu a pena, fiz uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, numa altura em que não se fazia exposições de fotografia em museus. Fui para o Brasil num período muito significativo. Tinha começado o projecto de Brasília, a grande expansão da indústria automobilistica e o aparecimento do grupo dos concretistas. Foi um momento de grande evolução e cresceu tudo a partir daí.

Como foram os primeiros anos? Conturbados?

Morei no Rio e posteriormente fui trabalhar no quarto centenário de São Paulo, em 1954. Fiquei ligado aos exilados políticos e por isso prendi-me mais lá. Fiquei perigosamente político, mais do que em Portugal. O meu ficheiro da polícia em Portugal era uma piada comparado com o meu ficheiro do Dops (polícia política brasileira), porque entrei por fatalidade noutra ditadura. Já estava ligado à política, trabalhei com políticos como Fernando Henrique Cardoso, que foi Presidente da República, participei na campanha dele, envolvi-me e fiquei proibido de vir a Portugal até 1974. Depois disso, comecei finalmente a ter algumas regalias, como exposições e prémios. Comecei a vir todos os anos e estou a resgatar uma parte das coisas que conquistei com as fotografias dos anos 50, o que na minha idade é uma glória. Ainda hoje no Brasil conquisto prémios de fotografia e tenho à minha volta diversos jovens fotógrafos. Mas, eu não sou fotógrafo, fui atrás da fotografia como poderia ter ido atrás da cerâmica.

Disse numa entrevista que os seus quadros são uma experiência de vida.

É demais fazer alguma afirmação do tipo “graças a Deus sou pobre”, mas a minha origem de classe proletária obrigou-me a lutar. O meu pai era marceneiro, a minha mãe fazia renda e eu, com uma poliomielite de infância, tive que trabalhar e esforçar-me. Tive que me afirmar para não ficar com mentalidade de doente porque o pior não é a doença e sim a mentalidade de doente. Sempre tive uma vida de ir à procura e no Brasil tive uma série de profissões. Enfim, um português à procura de coisa melhor.

Desde sempre se interessou por poesia...

Tinha 14 anos e li no jornal que ia haver um recital de poesia, mas não sabia o que isso era. Parecia-me algo de revolução, de briga. Vão atacar a poesia? O que é que será isto? Cheguei à porta e estava tudo muito bem vestido e uma senhora mandou-me entrar. Entrei e era a Manuela Couto a recitar Fernando Pessoa. Fiquei extasiado, e foi com essa idade que comecei a ouvir Fernando Pessoa. Ainda hoje se lerem A Tabacaria à minha frente eu choro.

Notei ao longo da entrevista que tem alguma mágoa de Portugal.

Portugal roubou-me a minha juventude e a de muita gente. E eu não perdôo. Eu gosto dos portugueses, não gosto é de Portugal. Portugal irrita-me, chego aqui e lembro-me de muita coisa. Quando ando de carro e passo pelas casas dos amigos que eu frequentava e que já morreram custa-me imenso. Portugal é um país que não andou para a frente. Não foi só Salazar. O português estava à espera de alguém que chegasse e dissesse “Nós somos humildes” e toda a gente acreditou. Os alemães também tiveram Hitler. O povo pode sempre mudar as coisas e em Portugal ninguém se mexeu, deixaram-se dominar.

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Fernando Lemos/ Alexandre O'Neill/ Lavagem Cerebral (1949-52) Colecção Museu Berardo

As suas pinturas reflectem essa angústia?

Sim, a minha vida foi a pintura e as artes como uma forma de afirmação e de um encontro que poderia não ter resultado.

Com toda a sua experiência como é que olha para a arte que se faz hoje em dia?

Os artistas... Eu olho para um artista e para mim ele é sagrado, não interessa o que ele faz, se ele é bom, se é mau. A arte tornou-se algo mais do que se esperava, é muito abrangente e todas as experiências podem resultar em algo estético. A arte de hoje, as próprias instalações, que são meio condenadas, são importantíssimas. São a continuação do desenho industrial. A arte de hoje tem toda uma vibração, uma nova vida, uma nova esperança. O que é que deu ao mundo uma onda de optimismo e esperança depois da Segunda Grande Guerra? Os artistas, os cubistas, os surrealistas, os dadá. Fora da criatividade o homem não tem para onde ir.

Actualmente desenha e escreve. Pode dizer-se que o desenho interage com a sua poesia?

Sim. Para mim, a pintura, o texto e a fotografia, são um todo. Estou a fotografar e estou a ser poeta. Quando escrevo estou a pintar...

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