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Paul Bowles na Encruzilhada do Deserto.

Paul Bowles, escritor expatriado, compositor e viajante que viveu 52 anos em Tânger, Marrocos, figura notável cuja actividade artística reflecte profundamente as tendências dominantes do século vinte, é também uma figura-chave do existencialismo americano e da Beat Generation.

O autor norte-americano é um dos raros e privilegiados escritores do século vinte que conjuga a actividade de escritor com a de compositor, antecipando a pluralidade e diversidade criativa das gerações actuais. Só a partir de meados dos anos 80/90, todavia, é que o seu trabalho teve um amplo reconhecimento por parte do público e dos média, em geral. O romance The Sheltering Sky, a sua obra mais conhecida devido à adaptação cinematográfica de Bertolluci, é extremamente revelador sobre a sua relação com o deserto e a paisagem humana marroquina. Neste meu escrito, contudo, examino algumas das suas narrativas de viagem dos anos 50. Sábias, irónicas e, por vezes, desarmantemente actuais, estas narrativas constituem artigos de viagem do próprio autor incluídos num único volume, cujo título Their Hands are Green and Their Heads are Blue, glosa a poesia e a irreverência peculiar de Edward Lear e, cujo tema predominante, é o espaço e a música magrebina.

Ao longo de todo o volume, Bowles deixa claro que existe uma diferença fundamental entre o viajante e o turista. O viajante procura a diversidade, ao contrário do turista que projecta no outro a cultura de partida. O que fascina o viajante são as diferenças no elemento humano e, por extensão, na paisagem e não a excelência da arquitectura exótica, os souks ou o pitoresco através dos quais se procura captar o olhar estrangeiro, perpetuando uma visão romântica dos lugares inexplorados e sujeitos a um atavismo singular. São as pessoas que habitam o espaço e os lugares e neles projectam a sua filosofia espiritual e imaginário característicos que produzem a diferença. O que seria o conjunto de montanhas do Rif sem a sua música ou o deserto sem as suas tribos e/ou berberes?

O que seria das cidades marroquinas sem a sua gente e filosofia milenar que as distingue, senão uma outra cidade qualquer do México ou dos USA? Estas são algumas das questões em que Bowles nos põe a pensar. Em A Man Must Not Be Very Moslem, o autor reflecte sobre esta questão. A bordo das Linhas Marítimas Turcas com destino a Istambul, acompanhado do amigo Abdeslam, um marroquino muçulmano, Bowles vai desvendando a obsessão turca com a modernidade. E a realidade que descobre faz ressoar as palavras de W.H.Auden: «(…) num futuro não muito longínquo, será impossível distinguir os seres humanos que habitam numa área da superfície terrestre, de outros que habitam em qualquer outra.» É assim que num inócuo biscoito para acompanhar o chá, Bowles, qual Sherlock Holmes do divino pormenor, observa a inscrição das palavras HAYD PARK e prontifica-se de imediato a desvendar o mistério desta linguagem híbrida. De acordo com o seu inquérito, os turcos fonetizam palavras emprestadas de outras culturas e linguagens, tal como a invenção de SCOÇ TUID, seria Scotch Tweed, TUALET, toilette ou SEKSOLOJI, sexology. Palavras metamorfoseadas que apenas ganham sentido quando são ditas em voz alta, percebendo--se então a sua origem inglesa, francesa ou, mais raramente, árabe. Para Bowles, viajante privilegiado, a noção de modernidade dos turcos significa a aviltação do próprio vocabulário e língua turca. O seguinte excerto revela a intensidade dramática de tal opção: «O país rejeitou os conceitos do Oriente e do Leste, não apenas com o simples anseio, como outros países islâmicos, de se tornar europeu ou adquirir as técnicas americanas, mas com o propósito muito consciente de produzir uma transformação radical – até mesmo destruir a própria cultura, se necessário.» Será esta a opção desejável para quem quer ser moderno e não quer permanecer isolado do resto do mundo? Não será possível a coexistência da vontade de ser moderno com a vontade de preservar a própria cultura numa interdependência saudável e criativa? E até que ponto o enfraquecimento da língua não poderá contribuir para o desenvolvimento de novas linguagens e identidades?

Ao longo do artigo são-nos dados sucessivos exemplos da apressada ocidentalização da cultura turca, ao nível linguístico, como vimos, ao nível das formas de lazer e de relaxamento e/ou euforia, resultando na substituição do tradicional kif pelo álcool. O que importa, segundo o autor, uma verdadeira revolução das mentalidades: «Se um país deseja, por muito errado que seja, ocidentalizar-se, a primeira coisa que tem a fazer é deixar de consumir haxixe». Tal processo reflectir- -se-ia também na religião, considerada pelo novo regime “o ópio do povo” e na tradicional distinção radical entre muçulmanos e não-muçulmanos, garante da identidade e, consequentemente, do seu isolamento do resto do mundo. No domínio do espaço, são ainda referidas a vastidão e a incongruência da paisagem urbana, onde a imensidão dos souks contrasta com a arquitectura mais recente, numa mistura bizarra que faz lembrar ao autor o romance América de Kafka. Será este o resultado do choque das civilizações ou antes o do choque da ignorância como dizia Said? Bowles, pergunta-se se os benefícios materiais tirados duma situação de encontros mal geridos valerão a pena face à destruição cultural observada.

De novo em Marrocos, em The Rif to Music, Bowles constata que a música é o elemento mais importante da cultura marroquina e com o patrocínio da Rockefeller Foundation parte em busca de amostras genuínas desta arte, procedendo à recolha, edição e gravação dos músicos norte-africanos. Em Marrocos, a iliteracia e, consequentemente, a falta de uma cultura literária tem como contrapartida o grande desenvolvimento das artes da música e da dança e, nestes termos, a música substitui o vazio literário. Toda a história e mitologia do povo marroquino pode “ler-se” nas canções e na música dos seus instrumentistas e cantores, que são os grandes cronistas e os poetas nacionais. O seu sentido rítmico, altamente desenvolvido, como o dos negros da África Ocidental, usa abundantemente as justaposições de ritmos (ritmos cruzados ou poliritmos), escalas limitadas de não mais de 3 tons próximos e uma maneira única de cantar/vocalizar. Esta arte, pelo facto de se encontrar apenas nas montanhas e nos pontos mais altos e inacessíveis da região, local privilegiado dos berberes nativos, tornou-se numa arte verdadeiramente intacta e autóctone. Quando os Árabes invadiram a região trouxeram, no entanto, a música deles que possui características diversas das dos berberes.

A música e a dança indígena envolvem a participação colectiva e têm um carácter encantatório e ritualístico com o objectivo de provocar efeitos psicológicos associados ao transe que garantem o estabelecimento de um elo social, psicológico e afectivo entre os indíviduos. Num estudo sobre as sociedades africanas, o etnomusicólogo J.H. Kwabena fala precisamente no modo como a música associada ao corpo convoca estados de transe preparando os indivíduos emocionalmente para o contacto com entidades divinas e com o sagrado. A música árabe tem uma filosofia diferente porque é direccionada para o indivíduo e para uma especulação filosófica de tipo contemplativo. Do mesmo modo, a conquista árabe introduziu um grande número de escravos negros, fomentando uma gradual mestiçagem de raças e contaminando por idêntica mestiçagem a música. Nas zonas planas das montanhas do Norte, os berberes introduziram elementos musicais árabes e nas zonas do Sul, do Pré-Sahara, introduziram elementos dos Negros, adquirindo assim um carácter híbrido. A tarefa de Bowles foi recolher modelos de todos os géneros musicais que representassem as formas mais simples e autóctones, bem como modelos mais complexos, que integram elementos das variadas mutações, tentando captar o espírito marroquino em movimento, espírito esse moldado na diversidade de encontros vários ao longo da sua realidade histórica. Neste sentido a música seria o factor fundamental na construção da identidade magrebina e nela se poderia “ler” a sua alteridade essencial e os acontecimentos mais significativos. O conceito de solidão, por exemplo, ganha a sua plena expressão num solo de qsbah (flauta de cana com registo grave) muito raro e só existente nalgumas regiões do Sul como salienta o autor: «Na imensidade e na desolação da paisagem é muito comovente deparar com um solitário condutor de camelos, sentado diante do fogo à noite, enquanto dormem os camelos, e ficar ali a ouvir demoradamente as cadências hesitantes e lamuriantes do qsbah. A música, mais do que qualquer outra que eu conheça, expressa a verdadeira essência da solidão.»

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