JOALHARIA

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«Sempre vivi muito a joalharia, no sentido verdadeiro não só de fazer, mas também de estar com e ir à procura de. As viagens que fiz foram sempre derivadas dessa procura. Sempre humanizei muito a jóia». Quem o diz é Cristina Filipe, professora de Joalharia no Ar.Co e mentora da PIN, Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea. Na nossa saga de desvendar os meandros desta área artística, e depois do historiador de arte Rui Afonso Santos, foi a ela que passámos esta tarefa.

Começando pela importância internacional dos joalheiros portugueses, a opinião de Cristina Filipe não difere muito da já proferida pelo historiador de arte e design: «Acho que temos uma força muito grande, no sentido em que as pessoas de facto conhecem e sabem que existimos. Mas dizer, como o Rui diz, que Portugal, Alemanha e Holanda são os mais importantes centros de produção de joalharia contemporânea é muito difícil. É tudo muito subjectivo. Mas individualmente, com a experiência que tenho, aquilo que se faz cá tem tanto peso, em termos de valor artístico, conceptual, de qualidade e de design como a Alemanha ou a Holanda, países com os quais temos parecenças em termos de identidade na joalharia».

Dedais - Inês Nunes - Fotografia de C. B. Aragão

Mas tendo nós uma criatividade e qualidade tão desenvolvidas seria de esperar que a joalharia artística avançasse mais depressa. A verdade é que continua a ser muito difícil fazer vingar a joalharia de autor dentro de portas... Para Cristina Filipe, «o grande handicap é não haver mercado. Não temos coleccionadores nem instituições, à excepção do MUDE. Há também pouca dinâmica e poucas pessoas a fazerem as suas demarches. As galerias de joalharia também merecem uma crítica pois sinto que não trabalham. Têm já muitos anos e foram importantes mas deviam ter feito um trabalho de galeria e tornaram-se loja. Não têm exposições com um critério e uma aposta. A Reverso é mais contínua na sua programação mas tem um grande pudor e não faz exposições individuais com artistas portugueses. Nos outros países, as galerias investigam os alunos das faculdades e procuram artistas. Cá ficam à espera que lhes batam à porta. Tanto as galerias como os joalheiros estão muito fechados sobre si mesmos. Deviam ser as instituições públicas a criarem público porque eu acredito que há pessoas interessadas, mas não há informação».

«A jóia é uma peça que tem uma interacção muito grande com o corpo. Não é um trabalho estático»

Distinguimos na edição passada da Umbigo os conceitos de joalharia e ourivesaria. Mas para Cristina Filipe, não faz muito sentido esta discussão: «Já ultrapassei essa questão. Trata-se apenas de vocabulário e do significado das palavras que cada pessoa interpreta da sua forma. O termo geral adoptado internacionalmente foi joalharia, por ser mais abrangente. Joalharia era a jóia que, para além dos metais, possuía pedras. Por exemplo, na área da escultura, esta também pode ser em pedra, bronze, etc. por isso a distinção entre ourivesaria, joalharia e prataria já não faz sentido. Também se pode dizer joalharia contemporânea ou de autor mas não vejo essa necessidade. Simplesmente há uma falta de informação que obriga a clarificar as coisas: Não sei se joalharia é a palavra certa para todas estas áreas, mas foi o termo que se adoptou porque implica um menor comprometimento com os materiais utilizados. Na verdade, uma peça contemporânea totalmente feita em ouro pode perfeitamente chamar-se de ourivesaria. Por isso, o termo mais convergente é joalharia e depois podemos dizer que é contemporânea ou de autor para ajudar a entender melhor de que tipo de trabalho se fala. Para além disso qualquer outra distinção não faz sentido e quem faz joalharia deve esquecer essas questões de preconceito».

«A joalharia é um veículo de uma identidade, que comunica visões de uma cultura e visualiza expressões individuais ou de um grupo que trabalha para o corpo de uma forma poética, experimental e simbólica»

Colar de Marília Maria Mira

A joalharia é uma arte nómada, transportável. É também uma questão de beleza e nisso tem elementos em comum com a moda. No entanto, a maior parte dos joalheiros recusa-se a ser associada aos criadores de moda. Parece paradoxal, mas existe uma explicação. «São metodologias de trabalho», explica Cristina Filipe. «Nas escolas onde se ensina joalharia não se trabalha com a planificação da moda por estações. A moda é umtrabalho mais de consumo, muito mais efémero. Não se adoptou essa estrutura ao nível do ensino da joalharia. Adoptou-se o método das artes plásticas, com todo um conceito, uma reflexão. Para além disso, muitos trabalhos de joalharia, pelo custo e tempo aplicado na sua execução, estão impedidos de serem avaliados dessa forma». Mas, sendo a jóia algo para o corpo, porque não se mistura e converge com a moda? Todos os estilistas fazem acessórios e há a excepção de Valentim Quaresma, um joalheiro que começou a sua carreira com Ana Salazar... «Mas o Valentim adoptou um processo criativo completamente colado aos moldes da moda», responde Cristina. «Tenho pena que não haja mais pessoas a trabalharem com estes moldes porque é uma possibilidade óptima de ganhar dinheiro e trabalhar numa dinâmica diferente. Depois vemos as revistas de moda com jóias ou acessórios que nunca são dos nossos joalheiros contemporâneos».

«A joalharia pode ser moda, a joalharia pode ser narrativa, a joalharia pode ser conceptual, a joalharia pode ser apenas acerca da joalharia ela própria ou estar relacionada com todas as áreas de expressão. Pode ser para o corpo ou sobre o corpo. Pode ser sobre tudo o que se está a passar no mundo e/ou o que está à nossa volta».

O surgimento da PIN representou um alerta para o movimento dos artistas joalheiros em Portugal. Cristina Filipe diz que «começou por ter uma atitude agressiva, quase encostando as pessoas à parede no sentido de demonstrarmos que queríamos fazer coisas. Fomos extremamente ambiciosos com o projecto do Simpósio Ars Ornata. Essa atitude de entrar por diversos locais diferentes em Lisboa mexeu imenso com as pessoas e com as instituições, o que abriu muitas portas». Outro grande passo foi a exposição Impressions on Portuguese Contemporary Jewellery, em Nuremberga, em que a PIN formou um grupo eclético de criadores, não reflectindo uma tendência particular. «Comecei a querer humanizar o trabalho, olhando para as temáticas e abordagens. O que é uma jóia, para onde ela olha, quais são as preocupações que cada um tem enquanto artista, mas também enquanto público comum. Depois traduzi em palavras essas impressões. Os temas criados foram: Drawing, Enhancing (tornarmo-nos mais belos), Remembering (a jóia enquanto peça que acarreta uma memória), Listening (o momento em que a jóia passa a ser um objecto de contemplação) e Trusting (a confiança que depositamos num objecto e a forma como apostamos nele).»

Pin de Leonor Hipólito

A PIN apoia as comemorações dos 200 anos da ida da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro, a convite do Brasil. O desafio proposto aos joalheiros foi conceberem novas peças inspiradas nas jóias da corte com vista à realização de uma exposição em Março. Em Novembro de 2008 estes trabalhos estarão expostos no Palácio da Ajuda.

www.pin.pt

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