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O artista entrava sozinho num Porshe 911 Carrera com um cockpit de avião de guerra acoplado ao tejadilho no qual estava um portfólio dos seus trabalhos. Metia-se nas estradas europeias para depois estacionar em frente de alguns importantes museus e  entregar o portfólio a responsáveis dos mesmos. As reacções eram uma incógnita. Caso para dizer que era o artista a fazer-se à estrada ou a fazer-se à vida. Penso que foi esta a primeira vez que prestei atenção ao nome de Miguel Palma, estávamos em 2005 e tinha lido isto numa crítica de um jornal. Era o Projecto Aríete. Formidável e ousado para o que regra geral se faz em Portugal. Decidi que estaria mais atento a esse nome.

E isso foi facilitado mais tarde através de um convite para fazer “crítica de arte”.

O famoso mundo hermético da crítica de arte. Talvez a mais ingrata das funções jornalísticas. Um palavrão para muitos. Na verdade foi uma actividade estimulante e que permitiu um conhecimento e uma aproximação a muitos trabalhos interessantes.

Entre eles… Miguel Palma. Foram três críticas a exposições deste artista. Na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural tínhamos um modelo de antiga casa sulista americana ao qual estava apontada uma arma que ia simulando disparos para o interior da mesma. Um vídeo no interior dava a impressão de estarmos lá dentro, à mercê do atirador. Outra foi a exposição no Museu do Neo-Realismo onde foi apresentado o vídeo Ultramar e uma peça de artilharia, vulgo canhão, que em vez de projécteis lança sementes à distância. Por fim, na Galeria Baginski apresentou um carro de corrida sobre uma base e no qual as rodas eram accionadas através de painéis solares. Estes três trabalhos são exemplares do estilo de Miguel Palma, daquilo que é conhecido, daquilo que nos é dado a ver. Nem tudo.

Nos desenhos entre pinceladas e manchas de tinta estavam fotografias a preto e branco de um homem em 1974 a atravessar as extintas torres gémeas do World Trade Center através de um simples arame. Impressionante o feito, não só a habilidade mas também a audácia de um homem enfrentar a gravidade, de tentar superar-se, apenas por prazer. Ou loucura. Foi a percorrer as salas do atelier do artista, uma espécie de fábrica de brinquedos misturados com ficção científica que me deparei com estes quadros que constituem uma série. Passado muito pouco tempo e com grande surpresa minha estreia nos cinemas o documentário Homem no Arame de James Marsh (Óscar de melhor documentário de 2009) sobre essa travessia efectuada pelo sonhador funâmbulo francês Philippe Petit. Incrível coincidência ou premonição artística? Agora escolha. E entretanto escolhi sem hesitar que aquela série tinha de ser exposta ao público. É que ao observar os inúmeros desenhos, pinturas e colagens espalhados pelas paredes já tinha decidido sugerir ao artista uma exibição deste seu lado menos identificável, menos instalação, menos escultura.

Miguel Palma não viu, ou melhor, nem sabia que o documentário tinha sido feito mas nunca se esqueceu que quando criança viu as imagens da travessia das torres. Para ele Philippe seria um pêndulo humano em pé no cabo àquela altura, naquele vento, sozinho, era a instabilidade, e as torres eram a firmeza, o estático, aquilo que nunca seria abalado…. E aqui temos estes trabalhos no ano em que faz oito anos dos atentados. Audácia humana na sua construção, e destruição.

Além desta temos outra série de trabalhos que envolvem a questão do homem e da máquina, na sua ânsia de ser mais eficaz, mais rápido, de ir mais longe, mais máquina? Ou o homem que utiliza a máquina é uma espécie de super herói real e moderno como afirma o artista? E isto no ano em que se comemora a chegada do homem à lua. Audácia humana.

E é assim. Depois de Nova Iorque ou Vilafranca de Xira, Londres ou do Beato em Lisboa, aqui temos Miguel Palma no Chiado a exibir os seus trabalhos em desenho, colagem e fotografia, com a audácia de mostrar o homem moderno nos seus limites e vontades. No arame.

Para contextualizar a exposição, no dia da inauguração 12 de Outubro de 2009, às 21h,  será exibido o documentário Homem no Arame.


O projecto “Miguel Palma – Entre o Limite e a Audáciaesteve patente na Galeria Fábulas (Calçada Nova de São Francisco, nº 14) ao Chiado. Uma exposição Umbigo, com curadoria de Leonel de Jesus e Elsa Garcia. De 12 de Outubro a 11 de Novembro de 2009.

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