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Autor flutuante em ilha flutuante

Autor que foge do autor. Espaço que foge do espaço

Para quando…

Palavras sem imagens. Imagens sem palavras. Palavras sem palavras. Imagens sem imagens

O Vazio

ou

A Escrita-Imagem?

Para quando o gesto no Vazio?

Para quando o Autor?

ψ ψ ψ

 

Assim é Álvaro Lapa e aqui o evocamos, perguntando: “Lendo resolve-se”? O próprio título, retirado de uma das suas obras, não se decide. Nele as imagens, seus sentidos e significados movem-se pela água e pelo ar. Furtivas, débeis, dúcteis também são as “imagens do mundo flutuante transitório” ou ukiyo-e. Entrar no seu mundo é vaguear por uma espécie de livro e, dentro dele, perscrutem-se múltiplas sombras, maciças silhuetas e gestos no vazio.

Inicialmente era a forma. Reminiscências de outros mestres na colagem de letras dactilografadas em, por exemplo, Instrução Pessoal. Para além da insurreição e uso de materiais mais humildes, a obra de Lapa verte a estética e uma certa poética surrealista mas ele não a parece ter assumido. Entramos no portal dos sonhos e a sua biblioteca também o exala, emergindo nomes como Luiz Pacheco, André Breton, Antonin Artaud e Man Ray. Mas para onde direccionamos primeiro o nosso olhar? Para o texto? Para a imagem? Por vezes o texto parece assumir o papel de legenda, outras de título e outras de mais uma imagem – ora corte, ora refúgio. Há que reaprender a olhar e a ler e foi isso que os modernistas nos trouxeram, ou seja, uma armadilha. De qualquer forma, uma imagem é sempre visceral e predadora: fixa o seu alvo, a sua “presa” e petrifica-a. Visceral também é o olhar. Por vezes ele torna-se demasiado táctil, o autor torna-se demasiado físico com a tela e seus materiais, quase que os atira, rejeita, abjecta. As manchas não são assim tão limpas e “puras” – gráficas. Afinal, na pintura entra em acção o pictural, o corporal. Desferindo um golpe se inflige uma marca. Quem diz marca diz signo, quem diz signo diz desenho. Ele também aqui respira mas nesta confluência o gesto é quem impera. O gesto impõe-se mas não aos limites do quadro. Este, inscreve sempre uma perspectiva e ponto de vista, um corte da realidade. Contudo, aqui a perspectiva é anulada pois quem vê terra, vê céu e vê mar, são uma e a mesma coisa.

Entrando no suporte, o corpo de trabalho de Lapa, a teia de relações é muito mais com a literatura do que com o livro. No entanto, não será menos relevante a relação física e sensível que temos com um livro-de-artista ou livro-objecto. Não sendo o museu totalmente aberto e vigilante, pode ser um nicho e lugar de recolhimento. Tê-lo como ponto de partida e desmontá-lo, pode ser algo absolutamente revolucionário e que abre todo um mar de possibilidades. O livro-objecto acaba por ser uma simbiose entre imagem, texto e objecto. A imagem é texto e o texto é imagem – uma espiral sem saída. Por outro lado, podemos transportá-lo e vivê-lo ao nosso próprio tempo. É algo com peso e ritmo, podendo-se parar em determinado sítio, voltar para trás, ir para a frente. Assim, o puro visual não existe, existe sim o sensorial. O olhar é táctil e todo o corpo é banhado por ele. Vemos com a pele e com os dedos, ouvimos e tocamos com os olhos. No fundo, é uma vivência mais democrática que preenche o fosso entre autor (o artista) e leitor (o público). Ora, a série Cadernos inspira a esse contacto mas, muito provavelmente, um museu não o permitiria. Nesse jogo surrealista, se faz uma homenagem ao 25 de Abril e à liberdade. Se percorrêssemos esses cadernos, o trilho desenhado nunca poderia ser linear nem a lógica arquitectada estanque. Como nos livros, saltar de um capítulo para o outro, seria plenamente possível e natural. Fica no ar: Como qualquer outra matéria, de que forma o livro pode ser explorado e vivido? E, já agora, como pode ele ser um dispositivo, toda uma exposição?

Cultivando um museu-santuário

Desaguamento na Voz e, consequentemente, no autor. Ele não morre nem morreu nem tão pouco o seu leitor, mesmo nunca o encontrando por completo, importa procurá-lo. Em Charles Baudelaire e nos românticos – puros autofágicos -, o autor é xamã estando no seu esplendor absoluto. Já em Cesariny e nos surrealistas, ele não está tão presente e as suas “iluminações” não caiem totalmente do céu, praticando-se um jogo de escrita colectiva. Lapa encontra-se noutro nível e um dos mais envolventes encontros com ele é através de um “corpo-manifesto” – As profecias de Abdul Varetti, escritor falhado. Aí, sobre múltiplas “esteiras” ou “folhas” suspensas arrancadas de um livro, se cozem palavras do próprio artista e de várias égides literárias. Exemplos disso são: “O sono e a morte serão mais uma vez equiparados. O homem aprenderá a morrer” e “Sendo a vida uma arte, a linguagem será universal (cfr Rimbaud), incluindo tudo”. Assim, o artista dilui-se num meio onde se coloca lado a lado com pesados nomes. Afinal quem aí vagueia? Onde se esconde Lapa? Ele é categorizado como um “anti-pintor” e “anti-escritor”. No entanto, pintor e escritor não sumiram visto que se encontram, sim, numa perpétua relação de união-tensão. Nesse jogo, a marca do autor não é tão transparente, permeável e fluída como, por exemplo, em Cesariny (pintor=escritor). Lapa parece demasiado ancorado e preso às suas homenagens e invocações, ao culto do seu museu-santuário. Tanto escreve em forma de diário e se torna ruminante de si mesmo, como se “cola” a outros autores. As obras já não poderão ser completamente orfãs nem viver autonomamente do seu dono. Por seu lado, o público torna-se até certo ponto igualmente orfão uma vez que é “obrigado” a seguir as inúmeras pistas deixadas pelo artista.

Desvelando, mas nunca revelando

Passado, presente e futuro estão sempre presentes no acto de ler. O texto dá-nos mais tempo do que a pintura. Vemos porque lemos. Olhamos para cima, para baixo, para o lado, para a frente, para trás – para um texto, uma mente e um ser únicos. Pode-se decidir nada ver mas o que é o nosso “nada”? A forma, o suporte e a voz de Lapa moldam uma determinada poética. Contudo, ela dificilmente se descola do seu poço de autores. Retomando a proposição inicial: “Lendo resolve-se” mas o quê? Lendo não se resolve, bem como vendo não se resolve. Ora caímos numa absoluta necessidade e vertigem de palavras, ora de imagens ora de ambas. Qual a solução? Os chineses há muito que resolveram esse problema e dilema ao criarem uma “escrita-imagem” da Natureza. Deste modo, há que regressar ao físico pois na arte não existem fronteiras, tanto na esfera da mente e do pensamento como da própria matéria. É esse um dos ensinamentos que a obra de Lapa também nos relembra. E a realidade, o que “ensina”? Próteses melancólicas e inebriantes em tempo sem tempo, sem história e sem espírito. A acção do corpo já não conta e o ser humano que está a nascer, começa a definhar e ficar irreconhecível. Não há reflexo, espelho, silêncio e vazio, só ecrãs baços, opacos, duros e glaciais. O olhar frente-a-frente, esse, é temido. Onde está o humano?

Hoje, parece também não haver grandes narrativas e autores dado que meros consumidores podem sê-lo. De qualquer modo, a arte é profética e a voz dos artistas é a da comunidade e do ser por vir. Há que cultivá-lo porque só assim poderemos chegar ao eu e ao outro. Um autor também é um actor pois conversa consigo próprio e com outros “eus”. O próprio Lapa é sugado por essas múltiplas vozes e personas. Como contraponto, em momento da sua vida inspirado pelo Budismo, torna-se ermita. Ultimamente, a existência humana não deixa de ser um sonho, um vazio, um nada que nos escapa. Do Nada o autor emerge, para o Nada o autor submerge. Assim é. O artista parece não se querer confrontar totalmente consigo próprio, foge da sua própria imagem e não a encara nem a fixa. Ora se aproxima, ora se afasta de si mesmo. Eternamente preso ao peso de inúmeras camadas que o desvelam mas nunca revelam. É essa a assinatura de Lapa. É, assim, um autor flutuante em ilha flutuante.

Lendo Resolve-se: Álvaro Lapa e a Literatura está patente na Culturgest, embora se encontre suspensa devido à pandemia covid-19.

 

A autora não escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

Nasci em Coimbra em 1994. Licenciada em Arte e Design, com mestrado em Antropologia Social e Cultural e, atualmente, doutoranda em Estudos Artísticos – Arte e Mediações. Tudo começou no desenho, depois descobri o design gráfico e comecei a viver a arte de outra forma - na escrita. Afastando-me desse contexto, entrei na antropologia. Contudo, não saí da arte, apenas a vi com outros olhos. Aí jogaram-se múltiplos papéis - ora de antropóloga ora de artista - através de um diálogo em forma de diário entre um autor e dois narradores. Mais tarde, e juntamente com o artista Rubio, experimentei o papel de "curadora" com o projeto de artistas independente Cão Português - Espaço Difusor de Arte, em Coimbra. O que permeou todas estas passagens foi uma escrita ensaística e algo poética mas o vaso comunicante foi o desenho. Ultimamente, a utopia seria articulá-lo com tudo o resto que me move: livros, design gráfico/editorial, escrita/reflexão crítica e fotografia. ◎ ◎ ◎ A vivência é uma ilha, sempre uma ilha. Aí se tenta seguir um fluxo, uma corrente - o próprio espírito do momento e tempo. O tempo não existe, é uma mera forma. A forma é o vazio e o desenho, a sua Sombra. Meras sombras, liquefeitas - nadas. Não sabemos nada, somos Nada. É esse o alvo.

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