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House, de Uri Aran

Há muitos estímulos possíveis quando se entra numa exposição de arte, onde todos os sentidos são permitidos e devem ser desafiados. É isto que o artista Uri Aran faz na sua exposição patente na GBE (Gavin Brown’s Enterprise) em Nova Iorque, até 5 de abril de 2020.

Uri Aran (nascido em 1977, Israel) vive e trabalha em Nova Iorque. Estudou Design na Bezalel Academy Jerusalem antes de, em 2007, obter um MFA em Artes Visuais na Columbia University, em Nova Iorque. O trabalho de Aran abrange vários meios, incluindo filme, escultura, desenho, montagem, pintura. Tudo isto é sagazmente organizado no espaço, criando uma instalação de arte maciça e, ainda assim, una.

Em 2016, a GBE’s abriu uma nova galeria no Harlem. Este espaço é tudo menos um convencional cubo branco e a magia da sua estrutura provém precisamente dessa identidade. O edifício do século XIX, ocupado atualmente pela GBE, foi outrora uma cervejaria. A maioria dos seus traços arquitetónicos foi mantida intata, incluindo os tijolos e as vigas, que foram intencionalmente incluídos no espaço expositivo.

De alguma forma, esta solução espelha aquilo que a GBE pretende ser; fá-lo ao explorar a fisicalidade do edifício como proposta, ou talvez desafio, para os seus artistas, dentro de um espaço arquitetónico como uma catedral, onde o esqueleto é mais do que um simples anfitrião de objetos artísticos. Como resultado, todas as exposições feitas nos últimos três anos, de artistas como Ed Atkins (Exposição de Abertura), Dara Friedman, Rachel Rose, Avery Singer, ou exposições coletivas como a mais recente Bethelem Hospital, com obras de Thomas Bayrle, Stan Douglas, Jasper Johns, Joan Jonas, Mark Leckey, Willem Oorebeek, Adrian Piper, Frances Stark Sturtevant, Rirkrit Tiravanija, Anne Truitt, Jack Whitten tendem a ser uma experiência estética de nível elevado, em muito ajudada pela grandeza estrutural desta casa artesanal iluminada.

A exposição de Uri Aran recebe o visitante no rés-do-chão com uma introdução às caraterísticas inesperadas da sua House (título da exposição). Somos acolhidos por vídeo, pinturas, impressões, outras obras em papel. Há também uma instalação de parede feita em 2020, que partilha o espaço comum da cozinha neste primeiro andar, intitulada Bread Library. Não é mais do que uma parede de prateleiras de madeira, com pães inteiros, brancos e de trigo, meticulosamente organizados.

O que poderia ser potencialmente uma metáfora para o espaço doméstico pessoal do artista, transpõe esses limites. Ao mesmo tempo, explora cenas de um quotidiano que podem ser vistas em espaços públicos menos íntimos e até evidentes. Mas o pessoal e o íntimo são muitas vezes rasurados nos espaços e nas obras, com referências a animais de estimação. Exemplo disso é a obra Fish Food Vs Turtle Food, ou todo o quarto andar, onde o som do vídeo de um único canal Clean ecoa o que poderá ser entendido como declarações de amor a um cão (My fucking dog). Mesmo aquilo que poderá parecer ofensivo ou perturbador, após vaguearmos e passarmos tempo na casa de Uri, torna-se familiar, carinhoso e, por fim, confortável. Apesar de haver apontamentos distópicos, a repetição de objetos domésticos normalmente subdimensionados ou desproporcionados ajuda o visitante a transpor sentimentos inquietantes para espaços pessoais possivelmente carinhosos.

Esta exposição na GBE é uma excelente oportunidade para descobrir a criação artística de Uri Aran e conhecer a sua astúcia, naquilo que pode ser discurso dissonante e desarmonioso quando vivenciamos o novelo composto por linguagens distintas. Trata-se de uma extraordinária exposição multifacetada nos meios, com uma instalação singular. E, apesar do acima referido, inteligentemente comercial.

 

Nota: A Gavin Brown’s Enterprise, à semelhança de muitas outras galerias a nível mundial, encontra-se atualmente encerrada ao público em ambas as suas localizações, Nova Iorque e Roma. No decorrer deste período a galeria disponibiliza no seu site diversos textos, vídeos, e viewing rooms relacionados com a atual exposição de Uri Aran, assim como outros artistas da galeria, exposições terminadas e ainda futuras. Documentação adicional também disponível e atualizada no Instagram e IGTV (Instagram TV).

Sérgio Parreira (Évora/Portugal) – Atualmente vive e trabalha em Nova Iorque. É licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e mais recentemente completou um Mestrado em Nova Iorque em Estudos de Mercado da Arte. No último ano tem colaborado enquanto curador independente com diversos artistas nos EUA. No decorrer dos últimos 15 anos em Portugal fez a curadoria e assistência de produção de inúmeras exposições de artes visuais (Isaac Julian, Miguel Palma, William Kentridge, Gary Hill, Mariko Mori, Rui Horta Pereira, Antoni Muntadas, Sharon Lockhart, Rigo 23, Marcel.li Antunez, Vasco Araújo, Pedro Valdez Cardoso, Ana Perez Quiroga, entre muitos outros), e produziu diversos projetos de diferentes espectros artísticos, da dança ao teatro, performance e música, para inúmeras organizações (ZDB, RE.AL, Temps D'Images, Duplacena, FUSO, Vagar, Horta Seca Associação, entre outras).

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