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Vivian Suter, no Camden Arts Centre

Pretender conhecer a fórmula da arte é tão prepotente como pretender conhecer a fórmula da vida. Não quer isto dizer, contudo, que não hajam padrões, comportamentos e incógnitas que não possam ser expostas à luz do cálculo e da lógica – uma lógica, todavia, poética, nunca reducionista, capaz de revelar, de desocultar, a beleza para lá da aparente desordem, do aparente novelo de circunstâncias, afinal, não muito circunstanciais. Há uma reciprocidade na forma como a vida e a arte alimentam as ciências e como as ciências relembram à arte (e à vida) o espírito – amoral, imenso, ponderado e caótico – de que é feita.

A verdade por detrás da beleza das coisas – o objeto das ciências – acontece entre o equilíbrio e a desordem. É aí que encontramos a arte, nesse eixo vetorial de direções e forças oscilantes, nessa balança infinitamente inquieta. Se o processo artístico e criativo deve mais à entropia – em que a imprevisibilidade, o acidente e a desordem imperam – o resultado final, a consubstanciação processual dos vários agentes, é devedor da clarividência, da harmonia – aconteça ela onde acontecer: na tela, no papel, no espaço expositivo, na mente.

No campo de ação da arte, com os vários agentes e reagentes, o processo artístico é muitas vezes análogo a uma reação em cadeia: uma sequência reativa de produtos que resultam em novas reações – durem elas o tempo que durarem, tenham elas a cadeia de eventos que venham a ter. E porque cumulativas, as reações em cadeia têm em si uma série de feedbacks positivos que ampliam sucessivamente a ação anterior. O artista é um dos agentes por defeito. O outro varia: o tempo, o espaço, o tempo-espaço, a natureza, a sociedade, a política, etc. No encontro dos dois, acontece a obra, que muitas vezes dá origem a outra e depois outra, etc.

Em 2005, Vivian Suter (n. 1949) foi confrontada com dois cenários depois de ver o seu estúdio devastado por uma tempestade tropical em Panajachel, Guatemala: ou se entregava ao lamento de começar tudo de novo, ou abraçava a entropia de que a vida e a arte são feitas, aceitando a inevitabilidade dos elementos naturais como mais um processo, numa corrente de eventos em cadeia que podiam relançar o seu trabalho. E foi justamente isso que a artista decidiu fazer: Suter resgatou os trabalhos molhados, sujos e pejados de lama, guardou-os e iniciou uma nova fase de projetos submetidos aos mesmos processos da natureza. Como pano de fundo, a densa floresta guatemalteca, as montanhas vulcânicas e toda a fauna e flora selvagens. A Natureza é para Vivian Suter o agente entrópico de que necessitava para que novo trabalho acontecesse ­— o relâmpago que cai inopinadamente, cria, transforma. Há algo de thoreauniano em tudo isto

Tintin’s Sofa, no Camden Arts Centre, Londres, é uma produção imensa de óleos sobre telas, expostos ao vento, à chuva, ao sol, cama para bichos rastejantes, folhas seca e recreio para os animais de estimação da artista (Bonzo, Nina e Tintin). O acaso completa a obra, ao mesmo tempo que firma o elo cabal entre vida e arte. A pintura expande-se num ambiente que nos relembra as forças ctónicas e belas da natureza: no exterior, uma série de telas dançam com as correntes de ar, em cores saturadas sobre o verde e o cinza apaziguadores de Londres; no interior, os movimentos existem menor grau, mas a qualidade quase tátil e escultórica da obra sai redobrada. Telas pendem do teto, deitam-se no chão, dobram-se em pregas incessantes, sobrepõem-se umas às outras, ou sucedem-se em pérgulas de madeiras. Embora finita, esta parece uma paisagem sempre cambiante, de percursos múltiplos – um caminho de floresta que se bifurca continuamente em imagens variadas, um deambular peripatético que tem sempre algo novo para mostrar e ensinar, “um documento dos momentos”, assim refere a artista. Sim, há algo de thoreauniano em tudo isto: o isolamento, a solidão, a reconexão com a natureza, a parábola ecológica que suscita, um certo animismo das formas ou a dissolução do homem no verde, nas árvores, no vento, a reconfiguração da vida e a simplificação do quotidiano.

Do ponto de vista artístico e formal, relembra-se novamente a ideia de reação em cadeia, de que algo resulta em algo diferente, e assim por diante, numa produção artística que tem tanto de explosivo como de controlado. O espaço expositivo é um laboratório nuclear e reativo, no qual se ensaiam proposições pictóricas abstratas, que gravitam entre o contraste de cores, a complementaridade ou as semelhanças em tonalidades ou em objetos vagamente representados. Vagamente e nunca objetivamente, uma vez que se está mais perante uma representação sensorial ou sensitiva do que em formas plenas de definição e de identificação. Há aproximações à pintura neoexpressionista da década de 1980, mas também à reconceptualização do campo pictórico da pintura expandida. Pelas dimensões das telas e pela configuração espacial que propõem, as obras adquirem uma fisicalidade semelhante à escultura, em que o verso da tela é tão interessante quanto a frente. De facto, a vontade maximalista da mostra, é também uma derivação neoexpressionista, como oposição ao formalismo conservador e minimal quer do minimalismo, quer de muitas exposições intitucionais. Em tudo condizente com os motivos que evoca, Tintin’s Sofa prefere a profusão à ponderação.

Tintin’s Sofa é uma exposição que impressiona. Entre a coreografia imaginada de Viviam Suter a pintar e a patina do tempo impressa pela Natureza, estamos perante um caso em que a pintura tem a imensidão da vida. Horas passam sem que consigamos ver totalmente a exposição. E, no entanto, o gérmen criador e inspirador é notado logo no primeiro instante em que vemos a obra de Vivian Suter. Na plácida quietude das galerias, há, contudo, uma vibração e uma alegria palpáveis que nos abraçam. O que pode parecer inicialmente um espaço pesado e sobrelotado, é, na verdade, um reconfortante gesto de generosidade da artista que nos envolve e aperta, um gesto que muito provavelmente só a natureza feminina da mulher consegue oferecer.

A reação em cadeia é agora passada ao espectador.

Até 5 de abril, no Camden Arts Centre, Londres.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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