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Metamorfose e Objetivo em Objects Recognized in Flashes

Objects Recognized in Flashes, em exibição no MUMOK, serve de testemunho para as ambiguidades nos processos de visualização; nas mudanças subtis entre o estático e o fluido na geração de imagens. As quatro artistas que exibem os seus trabalhos – Eileen Quinlan, Michele Abeles, Josephine Pryde e Annette Kelm – jogam com a sintonia do olhar, com a natureza misteriosa e particular do foco (colocado sobre um objeto, uma superfície, uma textura, um corpo, um campo de cor). A exposição abraça, formidável e corajosamente, a estética do consumidor, da fotografia cénica e a esfera digital como temas orientadores, que não são analisados diretamente na forma de obras de arte. São traçados, dissecados e deixados num estado ambíguo. A exibição integra um número substancial de peças de cada artista, unidas pela sobreposição e colaboração. Por vezes, a sincronicidade entre as peças leva-nos a questionar o conceito de autoria.

Uma das fotografias marcantes é a obra Untitled (Bag) de Annette Kelm, onde encontramos um saco de linho rudimentar, impresso com barcos a vapor e as palavras “American Queen” no centro. É um exemplo da natureza obtusa de um anúncio não publicitário (uma das propostas comuns na exposição), onde o produto “exposto” parece representar um serviço ou um assunto, o da “American Queen”, que não é algo adquirível, nem algo que deva ser afirmado como “utilizável”. Mas sim uma posição social imaginária como parte de uma monarquia fictícia. Na realidade, quiçá uma oligarquia baseada no consumo excessivo de recursos e no tráfico humano (sublinhado pelo padrão dos barcos a vapor, que circunda as palavras). Esta crítica inquietante esconde-se na simetria e nas cores neutras. A peça de Kelm é um forte argumento para o potencial perigoso da fotografia cénica e para a sua função enquanto parte de uma matriz maior, relacionada com o product placement orientado para o consumidor, com o objetivo de sublinhar a credibilidade de mensagens estrategicamente destrutivas, que raramente é sublimada, mas reside diretamente na superfície. Do ponto de vista dialético, o potencial alegórico inculcado na composição é abordado na peça Red Rock, Cigarettes, Newspaper, Body, Wood, Lycra, Bottle de Michele Abeles. O título da obra enumera propositadamente aquilo que é visível, mas deixa de fora um elemento dominante da fotografia: um tecido de gradiente arco-íris, impresso com código vertical, escrito numa metalinguagem composta por hieróglifos e números, num movimento descendente, numa aparente metáfora envolvendo uma bolsa de valores conglomerada. Este tecido cobre uma mesa que suporta um corpo masculino sem cabeça, em cujos dedos estão pendurados muitos cigarros por acender. A peça é cautelosa e vívida, o que sublinha a degradação moral, o esgotamento e a apatia associados à maquinaria viral do capitalismo neoliberal. Utilizando a superfície enquanto espaço de criação para ambientes híbridos, Abeles tece pormenorizadamente uma tapeçaria fotográfica, que não poder ser descrita como colagem. Na fotografia Statuary Marble, de Eileen Quinlan, uma forma é empurrada na direção do espectador. Parece ser pele, quiçá um ombro, talvez um joelho, ao ponto de essa suposta parte de um corpo preencher quase por completo a moldura, permanecendo inidentificável. A imagem a preto e branco é assombrosa e Quinlan utiliza este formalismo off-kilter para colocar a questão: “Estará a ver o que pensa que está a ver e, se for outra coisa, o que fará?”. Em muitas das obras de Quinlan, a amplificação deste desconforto intrínseco e básico, de não saber o que está a ser representado, produz uma tensão alienante, que nos atrai para a nossa alteridade. Com a peça Who were you?, Josephine Pryde mostra-nos também a perspetiva aproximada de algo, as mãos de uma mulher que seguram um smartphone, os dedos presos num esbatimento, capturados no ato de escrever. Este momento de comunicação antecipada é prolongado e suspenso na fotografia, que faz referência direta ao dispositivo da câmara para preservar a cinética e torná-la potencial.

As quatro artistas tomam a liberdade de organizar, provocar e teatralizar, com liberdade e calculismo, para que o espectador possa analisar as suas próprias expetativas sobre a economia contígua entre a superfície fotográfica e o objeto. Objects Recognised in Flashes tem a curadoria de Matthias Michalka, que, na breve entrevista abaixo, apresenta uma perspetiva sobre os bastidores da exposição e os seus colaboradores:

Josseline Black – As quatro artistas da exposição parecem apropriar-se e refazer, com alguma ironia, a natureza morta enquanto forma prototípica de publicidade. O que pensa sobre isto, tendo em conta o trabalho delas?

Matthias Michalka – Sei que algumas destas coisas estão relacionadas com a categoria tradicional de natureza morta, mas não tenho a certeza se isso poderá servir de resumo global. Prefiro o termo “fotografia cénica”. Uma determinada forma de encenação e de apresentação sem espaço. A natureza morta tem este contexto histórico. Quando olho para a fotografia contemporânea, encontro muitos objetos apresentados como se saíssem do estúdio, de uma revista de moda ou da fotografia de consumo. Se pensarmos na natureza morta, o aspeto do consumismo e da estética do produto não é tão importante. Para nós, a estética do produto foi uma categoria crucial.

JB – Distinguir os trabalhos é também uma questão importante. Noto uma sobreposição entre as quatro. Elas colaboraram? Selecionou trabalhos que partilham coincidências entre si? É uma mostra coletiva, mas parece uma multidão que partilha uma única visão…

MM – Concordo, era isso que procurávamos. Queríamos essa tensão. Por um lado, a conexão, as semelhanças e as sobreposições. Por outro, as diferenças. Escolhemo-las por questionaram essa estética de consumo e fazem-no ao colocar em cheque as superfícies das coisas, dos corpos e da fotografia em si.

JB – Podemos falar sobre o título Objects Recognized in Flashes?

MM – Chegámos a ter um título diferente e discutimo-lo profundamente. A Josephine acabou por surgir com este título. Trata-se de uma citação de Wordsworth, um filósofo romântico, que utilizou esta frase de forma diferente. Para nós, ela funciona em relação aos objetos, ao flash. E os flashes são também comuns no estúdio onde as coisas são encenadas.

JBRecognized é uma palavra interessante. O reconhecimento é uma das camadas da perceção, mas é quase um ato final. E sinto que a exposição não se trata de uma conclusão. E, quando falamos de reconhecimento como conclusão de um processo de perceção, como é que consegue lidar com essa contradição?

MM – Reconhecimento em flashes pode também significar reconhecer algo imediatamente, e não como um desenvolvimento. Foi assim que esta frase foi originalmente interpretada. Não teve nada que ver com fotografia. Funcionou connosco. Permitiu associá-la sem uma dimensão literal.

JB – Na mostra, há dois carros em duas partes. Pode detalhar essa escolha?

MM – Na publicidade, um carro não é apresentado enquanto ferramenta funcional. É apresentado para produzir emoções, desejo, beleza e dinâmica ou qualquer outra coisa. Annette Kelm e Josephine Pryde apresentam-no de forma totalmente diferente. Penso que a questão da formalidade nestas fotografias tem que ver com a forma como o desejo na publicidade em geral é produzido. E isto tem que ver com uma certa tensão entre a fisicalidade e a visualidade das coisas.

JB – O trabalho central deste tríptico é uma mulher com uma bolsa verde, que segura um cone de gelado. E da fotografia brotam também eixos metálicos. De que forma lida com a intervenção escultórica na superfície?

MM – Isso faz parte da questão sobre a superfície enquanto área onde o visual e o físico se encontram. É algo crucial na discussão contemporânea sobre como lidamos com as fotografias. Na nossa exposição, temos uma série de Josephine Pryde que termina com um tablet. É a forma como atualmente percecionamos a fotografia, através destes ecrãs táteis, onde tocamos em vidro. A forma como se questiona a superfície pode ser feita de diferentes maneiras.

JB – Sinto que é uma boa forma de resumir os trabalhos. Nas suas palavras: “uma transformação de uma transformação de uma transformação, que passou por alguma metamorfose”.

MM – Fizemos esta mostra em conjunto. Convidei estas artistas e decidimos coletivamente. Foi uma abordagem muito importante para estabelecer a mostra coletiva. Tentei evitar a ideia conservadora de que um curador tem o seu argumento e depois escolhe certas peças. Aqui foi o contrário. Identifiquei uma certa questão ou tendência nos trabalhos destas artistas. Poderia ter envolvido mais artistas. Mas, se o fizesse, não teria sido possível alcançar esta colaboração.

 

Museu Moderner Kunst Stiftung Ludwig Wien (MUMOK) Michele Abeles, Annette Kelm, Josephine Pryde, Eileen Quinlan, com curadoria de Matthias Michalka, até 13 de abril.

Josseline Black-Barnett é curadora de arte contemporânea, escritora e investigadora. Tem um Mestrado em Time-Based Media da Kunst Universität Linz e uma Licenciatura em Antropologia (com especialização no Cotsen Institute of Archaeology) na University of California, Los Angeles. Desempenhou o papel de curadora residente no programa internacional de residências no Atelierhaus Salzamt (Austria), onde teve o privilégio de trabalhar próximo de artistas impressionantes. Foi responsável pela localização e a direção da presidência do Salzamt no programa artístico de mobilidade da União Europeia CreArt. Como escritora escreveu crítica de exposições e coeditou textos para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Madre Museum de Nápoles, para o Museums Quartier Vienna, MUMOK, Galeria Guimarães, Galeria Michaela Stock. É colaboradora teórica habitual na revista de arte contemporânea Droste Effect. Além disso, publicou com a Interartive Malta, OnMaps Tirana, Albânia, e L.A.C.E. (Los Angeles Contemporary Exhibitions). Paralelamente à sua prática curatorial e escrita, tem usado a coreografia como ferramenta de investigação à ontologia do corpo performativo, com um foco nas cartografias tornadas corpo da memória e do espaço público. Desenvolveu investigações em residências do East Ugandan Arts Trust, no Centrum Kultury w Lublinie, na Universidade de Artes de Tirana, Albânia, e no Upper Austrian Architectural Forum. É privilégio seu poder continuar a desenvolver a sua visão enquanto curadora com uma leitura antropológica da produção artística e uma dialética etnológica no trabalho com conteúdos culturais gerados por artistas. Atualmente, está a desenvolver a metodologia que fundamenta uma plataforma transdisciplinar baseada na performance para uma crítica espectral da produção artística.

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