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Stephen Kaltenbach, The Beginning and The End

O trabalho de Stephen Kaltenbach é sobre o tempo: como este altera tudo, como a introspeção adquire consistência ao longo da vida, como a identidade evolui lentamente, como os valores mudam ou se aprofundam, ou ambos. O artista tornou esse interesse literal ao criar muitas cápsulas de tempo durante a sua carreira: recipientes de metal selados, com títulos e datas para abri-los. Desconhece-se se haverá algo dentro das cápsulas de Kaltenbach, pois nenhuma foi aberta até hoje. Contudo, do ponto de vista histórico, esta prática tem tendência para incluir peças efémeras do tempo em que foram criadas. Segundo o fabricante, essas peças teriam um interesse que, de outra forma, acabaria por ser olvidado. Como tal, é bastante apropriado que a exposição retrospetiva, intitulada The Beginning and The End, com co-curadoria de Constance Lewallen e Ted Mann, seja em si uma espécie de cápsula do tempo, focada na negligenciada obra inicial do artista, criada em 1967-70. “Aberta” depois com um coda mais pequeno de uma galeria, incluindo as suas criações magistrais das décadas seguintes.

Outro aspeto comovente desta exposição é acontecer no Jan Shrem and Maria Manetti Shrem Museum of Art, na Universidade da Califórnia, no campus Davis, onde Kaltenbach estudou há cerca de seis décadas (ao mesmo tempo que o seu contemporâneo Bruce Nauman). Ambos tiveram aclamação quase imediata num curto espaço de tempo, após terem deixado a escola como mestres precoces da prática conceptual. Kaltenbach mudou-se para Nova Iorque e o seu sucesso foi tanto que teve uma exposição individual com curadoria da grande Marcia Tucker, no The Whitney Museum, no espaço de três anos. Mas Kaltenbach acabou por ser vítima dos excessos de Nova Iorque e, para salvar a sua vida, regressou à Califórnia. Tornou-se um cristão renascido e ensinou arte em relativo anonimato numa universidade pública até à sua reforma já perto de 2010.

A ideia inovadora de Kaltenbach foi colocar peças de texto disfarçadas de anúncios na revista Artforum. Doze delas estão em exposição, incluindo o seu pequeno anúncio e, como contexto, a capa da edição. O texto foi sempre parte central da prática concetual (particularmente em Lawrence Weiner e Joseph Kosuth em Nova Iorque e dos seus professores na UC Davis William T. Wiley e Robert Arneson). Os anúncios de Kaltenbach são geralmente instruções ou conselhos, como “Torna-te uma Lenda” ou “Constrói uma reputação”. São como updates ao livro de conselhos escrito por Yoko Ono em 1964, intitulado Grapefruit, mas sem a componente teatral. Foram os primeiros a perceber que os artistas poderiam cooptar os meios de comunicação de massa e usá-los para distribuir o seu trabalho.

A arquitetura – como forma escultórica e como construção social – é outro tema encontrado no trabalho do artista. São frequentes os desenhos e propostas para salas inacessíveis em museus e galerias. Essas salas tinham como objetivo ser ocupadas por Kaltenbach. Mas, à semelhança das cápsulas de tempo provavelmente vazias, jamais saberíamos o que estaria dentro delas. Instalou também trabalhos com paredes pintadas (um dos quais é recriado para a exposição), onde uma tonalidade cinza, ligeiramente alterada em relação à pintura institucional, poderia afetar a experiência do visitante de uma sala, sem que este estivesse consciente da intervenção. Os seus pequenos textos, colocados em placas de latão, que apenas estão completos quando inseridos em calçadas públicas, destinam-se a ser corroídos pelos transeuntes, numa espécie de arte pública centrada no tempo sobre a arquitetura da caminhada. Esta abordagem sido imitada em várias formas de arte urbana nos Estados Unidos.

Kaltenbach foi convidado a participar em grandes exposições internacionais, incluindo a lendária When Attitude Becomes Form, com curadoria de Harold Szeeman. Kaltenbach enviou um carimbo de borracha com lábios vermelhos para ser estampado à mão, estilo grafite, nas paredes do museu e por toda a cidade. Noutras ocasiões, concordou em participar nas exposições, mas nunca enviou qualquer objeto de arte, e essa foi propositadamente a sua contribuição. Ele estava interessado na pergunta: se a sua contribuição para a exposição não é visível, será que isso é análogo às suas cápsulas de tempo provavelmente vazias, ou às suas possíveis salas ocupadas? O trabalho pode ser “escondido, parcial, inexistente ou retido” e, ainda assim, continuar a ser arte?

A sala final da exposição apresenta os destaques da produção de Kaltenbach pós-Nova Iorque. É dominada por três grandes e extraordinárias pinturas. Cada uma, com formas diferentes, é uma meditação sobre o tempo, a transcendência e a mortalidade. Agora com 80 anos de idade, Kaltenbach reflete claramente sobre o fim da vida, com mais ou menos sucesso. Em Sunset, uma representação simples de um crepúsculo com cor fluorescente e flamejante, vista através do filtro de uma floresta, é problematizada por uma superfície complexa. Dezenas de formas redondas, tridimensionais e escalonadas, em forma de mapa meteorológico, ondulam sobre a superfície. O efeito é a encarnação da experiência psicadélica enquanto paisagem sagrada. International Harvester cria um monumento à experiência comum de conduzir à noite numa autoestrada. Neste caso, trata-se de um momento efémero, onde um camião de passagem evoca emoções profundas e incómodas. A terceira pintura é a obra-prima de Kaltenbach, Portrait of My Father. Nunca conheci alguém que tenha visto este objeto e não o tenha considerado uma das maiores pinturas do século XX. Representa realisticamente uma cabeça de um homem idoso, em repouso, sobreposta a um padrão abstrato e transparente com base em arabescos islâmicos. Toda a imagem está preparada para se fundir por completo em luz; é um momento siderante na pintura, que retrata a graciosidade humana. Uma definição médica para o ato de morrer é: parar de comer, parar de beber, parar de respirar. A versão de Kaltenbach desta lúgubre litania encerra a mostra, com um tríptico em forma de cápsula do tempo, com os títulos, Last Act, Last Word, e Last Thought.

O reconhecimento crescente de Kaltenbach, devido às suas maiores contribuições para a prática concetual, será claramente exponenciado por esta ainda imponente exposição. A sua carreira pós-1970 é como a de um artista diferente, cujas meditações sobre a mortalidade e a nossa relação com o cosmos não poderiam ser mais díspares. E, no seu melhor, igualmente impressionantes.

Nasceu em Nova Iorque, em 1948. Diretor da New Langton Arts, São Francisco, até 1992; curador principal do Yerba Buena Center for the Arts até 2004; diretor e curador até 2012; curador principal do The Contemporary Jewish Museum, São Francisco, até 2018. Autor de quatro livros de poesia, mais recentemente. A Quiet in Front of the Best Western, 2015. Lecionou no programa de graduação em práticas curatoriais no California College of the Arts, 2004-2015.

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