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Délio Jasse e Carlos Noronha Feio, Zero/zero

Délio Jasse nasceu em Angola, mas foi em Portugal que desenvolveu o gosto e o trabalho em fotografia. Artista na diáspora, é esta condição que foca nos seus trabalhos. Carlos Noronha Feio, vive e trabalha entre Lisboa, Moscovo e Londres, é também um artista na diáspora, cujo corpo de obra foca cultura e identidade local e global. Ambos os artistas trabalham de diversas formas e sobre diversos formatos, questões de identidade, pertença e memória, utilizando referências históricas, geográficas e iconográficas.

Zero/zero tem curadoria de Filipa Oliveira e está patente na Galeria Municipal de Almada, no âmbito da 9ª edição do Mês da Fotografia de Almada. Os artistas partilham um projeto colaborativo sobre estas mesmas temáticas, incluindo um tema muito caro a Jasse: o colonialismo português. Trabalham sobre materiais diversos, desde a fotografia ao cimento e com diferentes escalas, e não conseguimos destrinçar facilmente onde está uma intenção ou um trabalho maior de cada artista. Mas embora possa ser uma curiosidade, o importante nesta exposição é encontrar esta colaboração entre dois artistas que partilham relações familiares e pessoais com Angola e a forma como se apropriam de materiais existentes para criar novas narrativas sobre um colonialismo ainda em estudo. Esta colaboração tem ainda outro ponto comum de partida: o livro de cariz etnográfico A Maravilhosa Viagem Dos Exploradores Portugueses (1946) de Fernando Castro Soromenho, um forte crítico do regime Salazarista.

Deste modo, em zero/zero, os artistas apropriam-se de imagens de arquivo que manipulam para tecerem novas narrativas e releituras do que são, em alguns casos, memórias privadas, trazendo-as para o espaço público e convocando questões sobre a memória coletiva.

Assim fazem com vários aerogramas (que na época da guerra colonial eram trocados entre os soldados e as suas famílias em Portugal), que ampliam para uma grande escala, desfasada da que serve a correspondência, mas que nos mostra impressões e afetos que, sendo privados, nunca o foram quer por os aerogramas não terem envelope quer pela censura do Estado Novo, atenta a toda a correspondência estrangeira, principalmente a que era trocada por soldados e seus familiares, não nos permitir averiguar a veracidade das palavras escritas. Aerogramas que, como escreve a curadora Filipa Oliveira na folha de sala, podem ser encontrados à venda em qualquer feira, como um objeto quase arqueológico, que entrou no domínio público.

Podemos ver uma série de impressões em grande formato que junta diversas fotografias e fontes, onde o nós europeu se mistura com o outro africano e cujos títulos como uma Lição de história, nova L, terras ultramar entre outros (impressos nas próprias obras) remetem para um questionamento acerca do que é a memória coletiva e de que forma nos vemos nessa memória.

Radio e Televisão de Portugal (2019) é um vídeo duplo que exibe imagens de arquivo da RTP que nos mostram diferentes programas dos anos 60 e eventos vários relacionados com uma ideia de multiculturalidade deturpada que existia na altura. A montagem é rápida, dada por várias cenas cacofónicas.

Tipo-dado (2019) mostra uma fotografia de uma rapariga da tribo dos Gingas, que vai sofrendo progressivas modificações e desfigurações até ao total desvanecimento, enquanto a fotografia de um homem sofre o processo inverso, do desvanecimento para o retrato. No fundo, é uma metáfora para o que acontece à memória coletiva que ora é objeto de esquecimento coletivo, ora sofre empolamento ou até branqueamento e alterações.

Vemos amiúde a palavra metrópole, que hoje nos parece risível, mas que na altura tinha um peso absoluto sobre quem vivia na diáspora ou era africano e notícias sobre os grandes avanços construtivos que fazíamos em África. Zero/zero não deixa de ser sobre identidade global e local e, ainda, podemos considerar, sobre identidade artística. Dois artistas com um corpo de obra individual tão caraterístico como Délio Jasse e Carlos Noronha Feio, focam-se no que têm em comum, para construir um projeto expositivo que é tanto de um como de outro.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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