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Álvaro Siza: in/disciplina em Serralves

Nome: Álvaro Siza

Disciplina: Tão pouca quanto possível

Assim preencheu o arquiteto Álvaro Siza Vieira (Matosinhos, 1933) a identificação de um dos seus cadernos de desenho. Foi essa (in)disciplina o ponto de partida para a exposição Álvaro Siza: in/disciplina, com curadoria de Nuno Grande e Carles Muro, que está a decorrer no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves.

Por ocasião da celebração dos trinta anos da Fundação e do vigésimo aniversário do edifício do Museu, de que Álvaro Siza é autor, foram escolhidos trinta projetos, construídos ou não, desenvolvidos pelo arquiteto entre 1954 e 2019, que são apresentados através de uma grande variedade de documentos originais – desenhos, maquetas, cadernos de esquissos, apontamentos de viagem, fotografias de autor ou mesmo testemunhos de figuras que com ele se cruzaram durante o seu percurso.

Tal não seria possível sem a colaboração fundamental entre o Arquivo Álvaro Siza do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves, o Álvaro Siza Fonds do Canadian Centre for Architecture (CCA), Montréal, e o Arquivo Álvaro Siza da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), Lisboa. Trata-se da primeira exposição do arquiteto após a doação do arquivo às três instituições.

Desde as quatro casas em Matosinhos que concebeu no início da sua prática até ao edifício em torre recentemente pensado para Nova Iorque, a amostra dos trinta projetos selecionados é reveladora da evolução do trabalho do arquiteto. Partindo do “regionalismo” introduzido por Fernando Távora, seu professor e amigo com quem colaborou, traduzido nas suas primeiras obras, como as quatro casas em Matosinhos ou a Piscina de Marés em Leça da Palmeira, passa-se pelo explorar geométrico e formal anunciado pelo pós-modernismo através de obras como a Agência Bancária em Oliveira de Azeméis ou a Casa Beires na Póvoa do Varzim e pelo seu envolvimento no Processo SAAL (Serviço Ambulatório Local) após a Revolução de Abril de 1974 onde desenvolveu projetos em conjunto com as comunidades que procuraram resolver as condições de alojamento precário dos bairros operários do centro do Porto, tomando-se como exemplo os bairros de São Victor e da Bouça.

Seguidamente, destaca-se o ano de 1988, altura em que venceu o Prémio Europeu de Arquitetura Contemporânea – Prémio Mies van der Rohe e foi convidado para reconstruir o Bairro do Chiado na sequência do grande incêndio. Já nos anos 2000 a sua prática alarga-se para lá da Europa, destacando-se a construção do edifício da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, no Brasil, o Mimesis Museum, em Paju Book City, na Coreia do Sul, o China Design Museum, em Hangzhou, na China e o seu projeto mais recente para um arranha-céus no bairro Hell’s Kitchen em Manhattan, Nova Iorque.

No texto que escreveu para o catálogo da exposição, Álvaro Siza refere a significativa influência que a breve experiência como jogador de hóquei em patins teve para a sua prática profissional enquanto arquiteto. Ao comparar as duas práticas, define arquitetura como “um longo e ininterrupto percurso que exige (in)disciplina. A disciplina talha por fim a ‘pedra de fecho’. Não atua em pleno sem se envolver com uma espécie de desordem que a precede e invoca, tornando-a a um tempo livre e abrangente. Assim rola o trabalho do arquiteto. Tudo depende da pequena ponta do stick.”

O excerto do livro de artista “indisciplina rigorosa”, de Isabel Carvalho, no arranque da exposição, dá corpo aos pensamentos de Álvaro Siza acerca da arquitetura enquanto disciplina, onde se lê que “a aprendizagem é constante (…) na aprendizagem de uma disciplina, encontra-se uma nova disciplina (…) no erro descobrem-se virtudes (…) onde há acidente há descoberta” e por fim “qualquer disciplina é autodisciplina”. Colocam-se assim em paralelo as (in)disciplinas de uma prática artística e de uma prática arquitectónica onde existe um rigor e uma disciplina entre o caos da indisciplina.

Por outro lado, a reprodução em grandes dimensões na parede logo à entrada da exposição de parte de um esquisso feito pelo arquiteto em Berlim, constitui uma metáfora em relação à sua prática. Fragmentos de corpos – torsos, bustos, pés, mãos – pousados sobre uma grande mesa que formam no seu conjunto uma outra coisa são análogos à prática de Álvaro Siza, que um dia quis ser escultor, e cuja obra encontra referências em inúmeros elementos por vezes díspares que em conjunto lhe dão corpo. Metaforicamente poderá ser comparada aos jogos surrealistas “cadáver esquisito”, uma vez que cada um dos seus edifícios comporta fragmentos de história, do lugar onde se insere, de devaneios pessoais e de um humor que lhe é característico que os imbuí de uma certa ironia histórica.

Do ponto de vista museológico, foi intenção dos curadores que o edifício participasse e servisse como mote para a exposição. Nas salas em que Álvaro Siza desenhou mesas invertidas colocadas no tecto que proporcionam a iluminação indireta dos espaços, foram instaladas mesas sobre o chão, que são reflexo das no tecto, onde estão pousados todos os elementos de exposição relativos aos trinta projetos. A mesa, plano horizontal, espaço de trabalho do arquiteto, assume protagonismo em detrimento das paredes que se encontram totalmente despidas. O ambiente informal da exposição assemelha-se ao de atelier onde desenhos, maquetes e cadernos de esquissos, cujos fac-símiles poderão ser manuseados pelos visitantes, se encontram espalhados sobre duas grandes mesas.

Para além dos projetos, a exposição apresenta outras três partes. Percursos, onde se reúnem diversos elementos pessoais que Álvaro Siza forneceu propositadamente para a exposição – fotografias antigas, livros e revistas que foi adquirindo e lendo ao longo do seu percurso ou mesmo desenhos de viagens que realizou onde registou com humor lugares e gentes que lhe suscitaram interesse. Testemunhos, onde se reuniram testemunhos de vinte e seis personalidades que se cruzaram com o arquiteto durante o seu percurso. E por fim, Registos, compilação de alguns registos fotográficos da obra de Álvaro Siza de diversos fotógrafos (alguns deles também arquitetos) e as publicações correspondentes em livros e/ou revistas.

Na exposição é notório como o trabalho de Álvaro Siza se caracteriza por um profundo conhecimento da história da arquitetura motivado pela sua enorme curiosidade em conhecer e estudar obras do passado que mede e regista compulsivamente através do desenho. Nos seus edifícios é visível a tradução e reinvenção à luz da contemporaneidade das dimensões subliminares desses edifícios que são objeto de estudo. No testemunho que deixou para a exposição, o arquiteto Manuel Aires Mateus questiona se terá sido o Cabo Espichel anterior à Escola de Setúbal ou o contrário enunciando que através da obra de Álvaro Siza conseguimos ler a história da arquitetura. Gustav Mahler referiu que “a tradição é a passagem do fogo e não o culto das cinzas”. A obra de Álvaro Siza constitui-se certamente como um excelente exemplo da passagem do fogo de que fala Mahler.

A exposição Álvaro Siza: in/disciplina constitui uma oportunidade única para revisitar a in/disciplina de Álvaro Siza e poderá ser vista até 2 de fevereiro, no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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