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COSMO/POLÍTICA #5: Comunidades Provisórias

No final de 2018 saíram as primeiras notícias: algumas centenas de hondurenhos abandonavam o seu país em direção aos Estados Unidos da América. Caminhavam lentamente, como podiam, com os poucos pertences às costas e os mais pequenos ao colo. Na privação costumeira, e como Herta Müller escreveu, tudo o que se tem, traz-se consigo. Ausentes de preocupações, seguros de estarem a viver a aventura da ainda curta vida deles, as crianças seguiam determinadas a norte, sob a vigilância atenta e amargurada dos pais. Tinham um destino primeiro: a fronteira, a derradeira fronteira que separa a indigência do conforto, o atavismo da esperança, o crime da segurança – a fronteira do México com os EUA.

Na Guatemala e em El Salvador muitos se lhes juntaram, e o que inicialmente tinha a escala de uma aldeia errante, aparentemente controlada e inofensiva, depressa atingiu a proporção de uma pequena cidade. Unida na esperança, era uma “comunidade provisória”, que se consolidava passo a passo, fronteira a fronteira, e cujas leis que seguiam eram tão-só as do bom senso. O elo agregador era uma vontade comum por todos partilhada. Para trás ficou muita coisa, mas sobretudo as falhas dos sistemas em que nasceram.

Do ponto de vista sociológico importa questionar a génese desta comunidade. A forma que toma, os grupos que representa, a organização que propõe. Depois, claro, as hierarquias, os comportamentos e, enfim, os organismos externos e internos de apoio. Em termos políticos, a questão é mais complexa, pois que tanto a esquerda tarda em renovar-se, como a direita torna a extremar-se, forçando estas comunidades a entrarem num jogo político que redunda no desprezo e na incúria. Ainda assim, há que compreender a natureza política destas comunidades e o que estas resultam para as políticas nacionais em tempos de fluxos e câmbios globais. E perceber também como, numa época de atomização dos laços sociais locais e globais, as ideias de coletivo, de comunhão, união e comunidade persistem. Note-se que estas comunidades são produto da globalização, do capitalismo e da neoliberalização da política: o indivíduo moderno é nómada, segue o dinheiro para onde quer que vá.

Com as obras de Paulo Mendes, Tiago Baptista e Susana Mouzinho, COSMO/POLÍTICA #5: Comunidades Provisórias propõe justamente uma reflexão em torno destas questões, tomando como ponto de partida o romance de Alves Redol, Gaibéus, uma obra máxima do neo-realismo e do pensamento marxista-leninista. Designavam-se por gaibéus os portugueses que no século passado migravam das beiras baixas para as lezírias em busca de trabalho sazonal. Redol traça o quotidiano desses trabalhadores, das agruras a que se sujeitavam e da comunidade temporária de precários que se consolidou nas margens do rio, entre os suspiros de um trabalho árduo e a resignação de corpos e espíritos cansados. O Tejo era então símbolo de rendimento, de produtividade, de salário.

É possível olhar-se para a exposição com um sentido de escala e proximidades. Neste contexto, é a escala local que importa a Paulo Mendes, ao instalar o seu projeto no hall do museu para que houvesse um diálogo imediato com cidadãos que por ali passam. A transparência das fachadas deixa auscultar a estranheza da habitação que o artista desenhou e que se constrói de forma rudimentar e improvisada. Comungando da mesma expressividade da arte povera, mas também da assemblage e da visão crítica da arte social e política, e fazendo o levantamento construtivo das habitações da comunidade piscatória avieira, Mendes ergue uma instalação que se reveste de arquivos, documentos fotográficos e sonoros e materiais emprestados pela comunidade. A obra é, assim, duplamente exercício criativo e arqueológico, na esperança de fazer vibrar no presente a memória das atividades e vivências locais.

De Tiago Baptista chega-nos uma visão regional ou nacional, com a representação das grandes infraestruturas, que tanto promovem a ligação como a separação. Do ponto de vista plástico, é curiosa a forma como o artista usa a colagem como algo intrínseco à composição pictórica. A tela é um campo de experimentação, adição e subtração, aproximação e afastamento de objetos. As autoestradas, os viadutos, as linhas desenhadas pelos aviões no céu aludem às tensões da modernidade. Também o rio é representado nesta tensão de não se saber se é antes obstáculo se oportunidade, quando o artista desenha, num primeiro plano difuso, uma rede metálica. É o rio Tejo, mas podia também ser o Rio Grande – a grande e quase intransponível fronteira entre os EUA e o México, local de paragem para a grande comunidade provisória de migrantes acima descrita.

Alternativamente podíamos encontrar esta tensão no que não tem a escala humana (as fábricas, os muros, as vias de circulação) e perturba os ecossistemas existentes, mas que, ainda assim, permanece em nós como lugar de afeto e relembrança. O retrato de uma mulher anónima que Baptista representa é o reconhecimento que os lugares – mesmo os que feitos de muros altos e impositivos – são espaços habitados, repletos de memórias privadas e coletivas, que existem na medida em que são as pessoas que lhes dão alma e corpo.

Finalmente, Susana Mouzinho convida um estrangeiro a ler Gaibéus de Alves Redol, numa instalação de vídeo que partilha da mesma materialidade precária, ou improvisada, de Paulo Mendes. Num projeto que concilia a arte com a etnografia, Mouzinho concebe duas projeções em que num lado se mostram diversas composições fotográficas que aludem a essa união e, no outro, é a performatividade do texto falado que ganha destaque. Aconteça no meio o que for é simultaneamente um estudo sobre a palavra escrita e sobre a literatura e o movimento neorrealista enquanto motores pedagógicos e de consciencialização política.

A aproximar-se da fase final do ciclo expositivo, COSMO/POLÍTICA mostra mais uma vez a complexidade das matérias políticas que o presente tem de obrigatoriamente preparar para o futuro. Comunidades Provisórias é um olhar sobre a pluralidade, sobre os dissensos, sobre as múltiplas existências e a necessária tomada de posições políticas na governação da vida no planeta. E como visão congregadora, que reúne em si uma mundividência de espaços e tempos, a cosmopolítica recicla necessariamente velhas tensões porque o exercício crítico de que se faz a isso o obriga. Neste caso, são evidentes as diferenças de classes, que se mantêm com uma configuração aparente só um tanto quanto diferente das do século passado, mas, agora, à escala global.

No Museu do Neo-Realismo até 23 de fevereiro, com a curadoria de Sandra Vieira Jürgens e Paula Loura Batista.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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