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Ana Pérez-Quiroga, ¿De que casa eres? Los Niños de Rusia. Episodios de un cotidiano #2

Ana Pérez-Quiroga é uma das artistas portuguesas contemporâneas mais relevantes. Ativista por vocação, a sua arte é política e debruça-se de forma mais significativa sobre questões de género. O seu trabalho também incide sobre questões do quotidiano e do mapeamento de objectos e rotinas. ¿De que casa eres? Los Niños de Rusia, Episodios de un cotidiano #2 resulta de uma residência artística na Ilha da Madeira integrada na III temporada do MudaShotSummer do Mudas Museu de Arte Contemporânea e é a sua primeira exposição individual na ilha.

¿de que casa eres? é um projeto de investigação sobre um fenómeno histórico espanhol: o exílio de 2895 crianças republicanas enviadas para a União Soviética devido à Guerra Civil espanhola e o posterior impacto que a invasão alemã da URSS durante a II Guerra Mundial teve nestas crianças e os 19 anos passados na Rússia até ao seu regresso a Espanha. Só por si, este fenómeno político e social já seria suficiente para uma investigação artística aturada, mas torna-se ainda mais pertinente a partir do momento em que a artista inclui a sua história pessoal, já que a sua mãe e tia faziam parte desse grupo de crianças. Estas crianças eram acolhidas em casas comuns e daí vem a pergunta que titula a exposição e que as crianças faziam umas às outras.

Esta problemática extravasa fronteiras, pois em Portugal durante o regime do Estado Novo também foram enviadas para a Rússia crianças filhas de militantes comunistas, embora não seja assunto muito abordado. À artista importa levantar questões sobre identidade. Onde pertencem estas crianças que, deixando os seus familiares e o seu país de origem, a maioria das vezes ainda muito novas, foram para outro país onde fizeram as suas vidas, estudando (a sua mãe estudou medicina) e criando relações durante 19 anos, até voltarem às suas famílias de origem. Pérez-Quiroga trabalha também, questões ligadas aos fluxos migratórios, que têm sido cada vez mais pronunciados e que levantam agora, novas questões de identidade, étnicos e de patriotismo. Onde pertencemos afinal: ao lugar onde nascemos ou ao lugar onde escolhemos viver? E se a mudança não for uma escolha, como fica esse sentimento de pertença?

Assim, Ana Pérez-Quiroga utiliza objetos e mobiliário, alguns que pertenceram à sua mãe e que esta trouxe no regresso da URSS, outros desenhados pela própria artista que tem um percurso de investigação artística sobre objetos do quotidiano, para que também nós questionemos onde está a casa: o que constitui uma casa, uma habitação? As paredes ou os objetos que contém? Assim no Mudas, Pérez-Quiroga expõe candeeiro APQhome #30 (2017), Mesa de jogo APQHome #24 (2017), peças feitas por si, ou ¡Ay Carmela! (2017) um rádio gira-discos que debita canções espanholas e russas cantadas pela sua mãe, assim como oito fotografias da vida na URSS el cotidiano en la U.R.S.S. #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8 (2019), objetos que a sua mãe Angela trouxe da Russia. Para além destas obras que remetem para essa ideia de doméstico, a artista expõe também duas telas: Los niños de Rusia #1, #2 (2017) mostra os percursos das crianças para diferentes locais da URSS e El Regreso de los niños (2017) que mostra os locais em Espanha para onde as crianças voltaram.

Estes fluxos migratórios encontram na ilha da Madeira um eco muito particular, pois é um local que, desde há muito, é ponto de partida, de passagem ou de chegada para muitos migrantes, mas devemos estender este eco ao nosso país em geral que sempre foi e voltou agora a ser um país de migrantes. É ainda mais pertinente este assunto numa altura em que se tem questionado, pela Europa fora, como gerir a migração que se tornou ainda mais ativa com a abertura de fronteiras da União Europeia e agora com uma viragem política a uma direita de base nacionalista.

Esta exposição tem um caráter afetivo e doméstico, patente nos objetos expostos que foram trazidos da URSS pela mãe da artista mas tem esse carter político de questionar uma prática que hoje consideramos desumana: a de tirar crianças às suas famílias para que sejam recolocadas, seja por segurança das próprias, seja por outras questões menos honrosas, mas que embora se tenha tornado uma espécie de atividade muda e nesse sentido aceite, continua a acontecer pelo mundo, principalmente em contextos de Guerra, onde tudo é permitido. Talvez Ana Pérez-Quiroga não aprofunde tanto este presente, mas cabe a nós, visitantes, fazê-lo. Para isso serve, também, a arte.

Ana Pérez-Quiroga – ¿De que casa eres? Los Niños de Rusia

Episodios de un cotidiano #2 para ver no  Mudas Museu de Arte Contemporânea até ao final de janeiro.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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