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Exúvia de Filipe Cortez na galeria Acervo em Lisboa

Exúvia, termo com origem no latim, exuviae, para significar “camisa” ou “pele vazia”, é o nome dado à pele ou carapaça largada por insectos, crustáceos, aracnídeos e répteis durante o período da muda. A necessidade de libertação da exúvia acompanha o crescimento de cada ser, ao contrário da pele humana, elástica que se adapta ao crescimento dos humanos.

Nesta carapaça ficam cristalizados, para além do tamanho e caraterísticas morfológicas de cada espécie, as suas cicatrizes e marcas de eventuais acidentes ou deformações. A exúvia preserva portanto para além da memória de um corpo que deixa de abraçar, a memória do ser vivo que outrora habitou esse corpo. Personifica assim uma paragem do tempo.

Filipe Cortez apresenta na Galeria Acervo em Lisboa um conjunto de trabalhos cujo processo vai justamente ao encontro desta ideia de memória fixada. Na exposição Exúvia estão reunidas peças que fixam memórias relacionadas com determinados corpos arquitetónicos. Utiliza diversas técnicas para registar elementos constituintes de espaços cuja memória procura preservar através da cristalização das suas caraterísticas plásticas e formais.

Opera portanto em torno da memória, do tempo, da mutação de um determinado espaço ao longo do tempo, da sua efemeridade. Neste sentido, a ideia de ruína orienta e estrutura o corpo de trabalho de Filipe Cortez. “Quando um espaço deixa de ser habitado, começa a envelhecer num curto espaço de tempo, as suas peles começam a ceder e as memórias das suas vivências começam a tornar-se visíveis” refere o artista.

O trabalho de Filipe Cortez personifica uma dissecação do espaço necessariamente imbuído de um tempo – superfícies de parede são transpostas para “panos” de látex que ainda retém detritos dos vários constituintes da parede que os originou, blocos em gesso cofrados diretamente sobre o pavimento do atelier, transportam camadas de pigmentos e outras substâncias que cristalizam as vivências daquele espaço, pinturas sobre tela, vivas, em constante mutação, sugerem uma ideia de superfície em ruína alcançada através de um processo de adição de camadas e da sua posterior subtração pelo uso de substâncias abrasivas.

Ao longo do tempo as peças transformam-se através do seu envelhecimento. As imperfeições e fendas propositadamente abertas na pintura, através de processos de condensação ou de reação química das substâncias utilizadas, tornam-se maiores deixando antever uma maior área das camadas inferiores. Detritos das camadas superiores libertam-se e caem por ação da gravidade. As “peles” em látex tornam-se mais finas e começam a estalar sendo transformadas em tijolos através da sua compactação.

Filipe Cortez explora e desafia a própria efemeridade da arte sujeita a constantes processos de restauro e conservação no sentido de assegurar a sua perenidade. A ideia de memória associada à efemeridade assenta no facto de as próprias memórias se transformarem ao longo do tempo, seja por esquecimento seja por acrescento de detalhes a essas mesmas memórias provocado pela mente. Uma efemeridade que dá corpo a um sentimento de saudade.

Fascinado pela ideia do transporte de um espaço ou de uma memória desse espaço para outro espaço, após o seu regresso de Nova Iorque, deparou-se em Portugal com uma realidade de regeneração das cidades onde muito património se tem vindo a perder. Assim, procura através do seu trabalho “constituir uma espécie de relicário, uma espécie de último sudário, de última memória desses espaços que têm vindo a desaparecer”.

A exposição Exúvia de Filipe Cortez, a última no atual espaço da galeria Acervo, que transitará de instalações em breve, poderá ser vista até 31 de janeiro 2020.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquiteta e curadora, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o mestrado integrado em arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa em 2011, frequentou a Technical University of Eindhoven na Holanda e efetuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com vários arquitetos e artistas nacionais e internacionais desenvolvendo uma prática entre arquitetura e arte. Em 2018, funda atelier próprio, conclui a pós-graduação em curadoria de arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e começa a colaborar com a revista Umbigo.

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