Top

Mudando de Perspetiva: Daniel Steegmann Mangrané no Pirelli HangarBicocca

A Leaf-Shaped Animal Draws The Hand é o intrigante título da nova exposição individual de Daniel Steegmann Mangrané, no Pirelli HangarBicocca, em Milão. A exposição apresenta um panorama abrangente da obra do artista, estendendo-se desde os anos 1990 até ao presente e incluindo trabalhos em papel, escultura e filme, bem como instalações de grande escala, hologramas, dispositivos de realidade virtual e até ecossistemas vivos. No seu amplo corpo de trabalho, o artista explora paradoxos e interdependências dos sistemas naturais, artificiais e abstratos – todos eles interligados, como o título sugere, através de gestos mútuos de desenho (jogando com os múltiplos sentidos do verbo to draw: desenhar, puxar, atrair).

Nascido em Barcelona, Daniel Steegmann Mangrané (1977) mudou-se para o Rio de Janeiro em 2004, motivado por um interesse na fauna e na flora tropicais e pelo legado histórico do movimento neoconcreto. A abordagem poética, multissensorial e democrática da arte defendida por estes artistas brasileiros nos anos 1950-60, moldou profundamente a prática contemporânea de Steegman Mangrané. Um exemplo frutífero é o trabalho Orange Oranges (2001), incluído na exposição – um ambiente conformado por um filtrado alaranjado, onde podemos entrar, sentar e preparar um sumo de laranja (laranjas, facas, copos e um espremedor estão à disposição), para o saborear com todos os sentidos. A peça evoca as instalações imersivas de Hélio Oiticica, como Penetrável Filtro (1972), e também as experiências com cor e sabor de Lygia Pape. Quanto mais tempo ficamos dentro de Orange Oranges, maior é o impacto à saída: no exterior, tudo parece matizado por um azul elétrico, num contraste com o tom quente do interior.

Esta sensação prolongada reflete o que, para o artista, uma exposição deve ser: “um espaço onde podemos renegociar a nossa relação com a realidade”. Steegmann Mangrané criou com uma exposição experiencial repleta de subtilezas, mas o que o preocupa especialmente é aquilo que acontece assim que deixamos o HangarBicocca e enfrentamos a realidade lá fora. Os seus filmes em 16mm veiculam notavelmente esta relação dialética entre arte e realidade – com forte influência do cinema estrutural, que se afasta da narrativa para se focar no vocabulário idiossincrático do cinema enquanto meio temporal. Em 16mm (2007-2011), a câmara penetra hipnoticamente as profundezas da floresta tropical, suspensa por um cabo com um comprimento igual ao da própria película de filme: “cada metro de filme filmado corresponde exatamente a um metro de floresta percorrido”. O artista tem-se embrenhado na floresta tropical brasileira por mais de uma década, mas os recentes incêndios florestais na Amazónia parecem pairar sobre a exposição, ampliando o seu sentido de urgência e atualidade.

Outros trabalhos exploram a interdependência entre elementos animados e inanimados, incidindo muitas vezes sobre fascinantes insetos que se assemelham àquilo que os rodeia, como as espécies phasmida, ou bicho-pau. No filme Phasmids (2012), um grupo destas peculiares criaturas move-se lentamente contra um pano de fundo que muda gradualmente, passando de um ambiente natural para um cenário totalmente abstrato. Por sua vez, a obra A Transparent Leaf Instead of the Mouth (2016-2017) consiste num terrário de vidro que acolhe um ecossistema composto por plantas locais, onde vários bichos-paus e insetos-folhas se escondem à vista de todos, fazendo-nos olhar demoradamente, com toda a atenção, na esperança de detetar o mais pequeno movimento, variação de cor ou forma que assinale a sua presença.

A abordagem poética do artista à natureza e ao corpo faz-nos reconsiderar a nossa relação com o mundo natural – ou, melhor, a nossa posição dentro dele. Desde o início dos anos 2000, o artista tem mostrado um crescente interesse nas implicações associadas ao Perspetivismo Ameríndio, uma teoria antropológica cunhada por Eduardo Viveiros de Castro, que contrapõe dicotomias ocidentais entre natureza e humano, objeto e sujeito, afirmando que o sujeito é criado pelo ponto de vista, e não o contrário. Esta configuração ontológica reformulou por completo a sua visão sobre a arte, como o próprio artista explica: “Quando deixa de haver objetos e sujeitos fixos, deixa de haver obras de arte e espectadores, passando a existir relações dinâmicas de transformação mútua”.

Neste espírito, a exposição é organizada em torno de um trabalho site-specific intitulado Phantom Architecture (2019), composto por sinuosos painéis de um tecido branco translúcido, que coreografam a experiência performativa do visitante, que atua tanto como sujeito quanto como objeto da mostra. Espalhados pelo espaço, os trabalhos em holograma integram de forma singular muitos dos elementos que permeiam a obra do artista: gesto, elementos naturais, estruturas abstratas e movimento – neste caso, o nosso -, reformulando a noção de imagem em movimento.

A sua prática vasta e plural é, contudo, incrivelmente consistente, evidenciando sempre diferentes mudanças de perspetiva: não só no contexto de cada trabalho, como também na nossa relação com a obra, com o espaço, e com o outro. A exposição A Leaf-Shaped Animal Draws The Hand lê-se como uma primorosa extensão da prática artística de Daniel Steegmann Mangrané, explorando as relações simbióticas entre cultura e natureza e expondo as suas inerentes fragilidades.

A Leaf-Shaped Animal Draws The Hand está patente no Pirelli HangarBicocca até 19 de janeiro.

Joana Valsassina é curadora, escritora e produtora cultural. Atualmente trabalha como curadora independente e co-curadora do espaço The Art Gate em Lisboa, tendo trabalhado anteriormente no MoMA e no Drawing Center, em Nova Iorque, e no MAAT, em Lisboa. É formada em museologia pela New York University e em arquitectura pela Universidade de Lisboa. Para além de desenvolver a sua prática curatorial, escreve regularmente para a revista Umbigo e é produtora das iniciativas Bairro das Artes e Mapa das Artes.

Assine a Umbigo

4 números > €24

(portes incluídos para Portugal)