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Form and Volume, um museu de escultura contemporânea na Cristina Guerra Contemporary Art

Quem não conhecer o curador, nem o projeto que esta exposição encerra, estranhará certamente o ambiente, ao entrar na galeria Cristina Guerra Contemporary Art. A cor vermelha que se propaga pelo espaço, o texto de entrada em dourado e a plataforma continua, onde as (muitas) obras são mostradas, transportam-nos para um espaço museológico fictício, que comprova a familiaridade que temos com determinados modos de expor.

Department of Carving and Modeling Section II: Form and Volume é a conclusão de uma trilogia de exposições comissariadas por Jens Hoffmann intituladas Museum of Modern Art and Western Antiquities. A primeira, realizada na Thomas Dane Gallery em Londres, em 2007, focou a pintura. A segunda, na Marian Goodman Gallery em Paris, em 2013, centrou-se na fotografia contemporânea. Esta última, por sua vez, aborda a escultura enquanto género artístico, propondo um olhar sobre a produção recente de um grande número de autores internacionais.

O título e o modelo do projeto do curador tem por base a ideia de museu imaginário concebido por Marcel Broodthaers entre 1968-1971 (Museum of Modern Art, Department of Eagles), que surgiu como uma paródia às exposições, e às instituições que as organizavam. Estas museologias ficcionadas pretendiam acima de tudo romper com ideias preconcebidas sobre como mostrar arte.

Hoffmann, partindo da mesma reflexão, introduziu neste ciclo uma diferença curiosa, os “seus” Museum of Modern Art and Western Antiquities foram sempre apresentados em galerias comerciais. A estranheza do cruzamento de um ambiente museológico de outro tempo, com o espaço de uma galeria é evidente, e coloca em causa ambas as definições. Geralmente, um é associado à preservação da arte, outro à sua comercialização.

A exuberância do display indicia um tom vagamente irónico, corroborado pela aparente utilização de estereótipos e pela sua simultânea subversão. Se uma exposição dedicada exclusivamente a uma disciplina parece despropositada à luz da contemporaneidade, as obras exibidas em Department of Carving and Modeling Section II: Form and Volume testam a elasticidade da definição de escultura. Além das tipologias facilmente associáveis à prática, surgem também obras em papel de parede (Kendell Geers), decalques sobre papel (Jennifer Bornstein), ou pequenas pinturas (Juan Araujo), por exemplo. Embora as querelas sobre a definição do que é ou não é – desenho, pintura, escultura, etc… – pouco interessem atualmente, a inclusão de um leque tão diversificado de abordagens exponencia o jogo de contradições e exageros que dinamizam a exposição.

Hoffmann demonstra a vitalidade da escultura, depois de um período em que a prática perdera fulgor devido ao aparecimento em massa de novos meios, e de outros géneros artísticos como a performance ou a instalação. São sessenta os artistas que representam a escultura contemporânea, e que permitem aferir algumas caraterísticas comuns: o regresso à manualidade; o reaparecimento da cerâmica; (ainda) a reinterpretação do ready-made; ou pontos de contacto formais, como nas três “caixas de papelão” de Matt Johnson (em madeira esculpida e pintada), de Mário Garcia Torres (em bronze), e de Jonathan Monk (em bronze) – mostradas lado a lado como se pudessem ser de um único autor.

Museum of Modern Art and Western Antiquities terá certamente mais secções além das três mostradas, mas, sendo um museu imaginário, as possibilidades são infinitas. Das três edições materializadas por Hoffmann, fica o registo de um projeto curatorial estimulante, que ao invés de ilustrar um tema ou uma ideia, incide sobre as possibilidades e os limites do ato de expor, e o modo como vemos arte. O facto de uma galeria arriscar projetos que questionam a sua prática, em conjunto com os artistas que a constituem, é assinalável.

Department of Carving and Modeling Section II: Form and Volume – para ver até 11 de janeiro na Cristina Guerra Contemporary Art.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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