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Bacon en toutes lettres, as últimas duas décadas da sua obra, no Centre Georges Pompidou

Por vezes mais vale começar pelo fim: Francis Bacon foi – a sua obra ainda é – um dos pintores mais excecionais do século XX, e não só é injusto, como é absurdo, partir do princípio de que, por isso, uma exposição sua em 2019 seja redundante. A banalização de certos autores, por parte das gerações seguintes como resposta ao seu sucesso, é uma tendência comum mas dificilmente proveitosa. Obviamente que a questão é complexa, implica interesses comerciais, políticos e institucionais por trás de determinados artistas, cuja preponderância se torna autofágica para o próprio meio, impedindo o aparecimento de novos nomes e de outros com menor visibilidade. No entanto, o equilibrio é fundamental e pede-se aos inúmeros “agentes culturais” hoje existentes que estejam munidos do conhecimento e da sensibilidade requeridos para que as instituições não enveredem por academismos fundamentalistas (anti-academismo incluído), nem por lógicas meramente empresariais, que a longo prazo poderão resultar numa cena artística amputada, quer em termos qualidade de quer de diversidade.

Contudo, hoje, se há característica consensual na análise de obra de arte, esta é a sua intemporalidade, e, por essa razão, são ciclicamente referenciados artistas, preocupações estéticas e temáticas de outros períodos históricos, que se revelam perfeitamente atuais e centrais no desenvolvimento da arte e dos artistas contemporâneos – em Portugal a recente revisitação à produção ímpar de Álvaro Lapa, à qual se deveriam seguir tantas outras; Joaquim Bravo, por exemplo. É também o caso da pintura de Francis Bacon, que demonstra não ter perdido a sua premência, ainda para mais num momento de novo fôlego desse género artístico.

Bacon en toutes lettres reúne um considerável número de quadros, dos últimos 20 anos de vida do pintor, habitualmente dispersos pelo mundo, e que na maioria dos museus de arte moderna e contemporânea apenas ilustram o seu lugar numa qualquer sequência cronológica da história. Aliás, o aspeto mais assinalável desta exposição é tão simples quanto isso: a possibilidade de relacionar múltiplas pinturas entre si. Bacon afirmava que pintar era para si um modo de excitação, e de facto a passagem de uma tela para a outra faz-se por meio das constantes variações de impulsos e sensações, somente perceptíveis numa visão ampla sobre o conjunto.

Nesta fase a violência do universo pictórico de Bacon, que outrora se revelava de forma mais explícita, torna-se paradoxalmente mais corrosiva por culpa da justaposição de movimentos, ou estados, contraditórios: explosão e compressão; líquido e sólido. Daí, a brutalidade que emerge das telas não é imagética, é antes resultado do próprio ato de pintar. O jogo de opostos é enfatizado na relação figura e fundo pelo uso do pastel de óleo para a criação de grandes superfícies opacas de cores vibrantes, seccionadas pela rigidez das estruturas geométricas, de onde disparam os volumes, os “corpos sem ossos”, que apesar da sua fluidez (dada pela composição interna quase atmosférica, e corrompida por salpicos e massas de tinta) estão enclausurados no espaço denso que habitam.

Na exposição são apresentadas obras menos conhecidas como as várias Study of the human body, as paisagens, ou a insólita Street scene (With car in distance) de 1984, além dos diversos trípticos e das revisitações a George Dyer, o seu companheiro que se suicidou em 1971, dias antes da inauguração da exposição retrospetiva no Grand Palais que almejava consagrar Bacon como um dos expoentes da arte do século XX.

De facto, seria este o ponto de partida da exposição patente no Centre Pompidou, o trajecto desde a exposição no Grand Palais, e da morte de Dyer, até à sua morte em 1992. O que torna pouco compreensível o diálogo estabelecido entre Bacon e os livros, como enuncia o titulo. As seis pequenas divisões espalhadas ao longo da exposição, onde são escutados excertos de textos que contribuíram de algum modo para o imaginário do pintor britânico, (que reiterou em diversas ocasiões o desinteresse pela interpretação narrativa da sua pintura) são praticamente ignoradas pelos milhares de visitantes diários. Além disso, a ligação é no mínimo superficial uma vez que parece acrescentar pouco, ou nada, a um universo pictórico por si mesmo tão complexo; para quê os livros se neste caso o que importa são as pinturas.

Bacon en toutes lettres está patente no Centre Pompidou, em Paris, até 20 de janeiro de 2020.

Francisco Correia (n. 1996) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu a Pós-graduação em Curadoria de Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem escrito para e sobre exposições. Simultaneamente desenvolve o seu projeto artístico.

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