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Anozero’19 Bienal de Coimbra – A Terceira Margem

FACTOS

A cidade de Coimbra recebe a terceira edição da Bienal de Arte Contemporânea – Anozero’19. A curadoria-geral da bienal ficou a cargo do curador brasileiro Agnaldo Farias, tendo como curadores-adjuntos a portuguesa Lígia Afonso e o brasileiro Nuno de Brito Rocha. O projecto intitulado A Terceira Margem apresenta a obra dos seguintes artistas: Alexandra Pirici, Ana María Montenegro, Ana Vaz, Anna Boghiguian, António Olaio, Belén Uriel, Bouchra Khalili, Bruno Zhu, Cadu, Daniel Senise, Daniel V. Melim, David Claerbout, Erika Verzutti, Eugénia Mussa, Joanna Piotrowska, João Gabriel, João Maria Gusmão e Pedro Paiva, José Bechara, José Spaniol, Julius von Bismarck, Laura Vinci, Luis Felipe Ortega, Luís Lázaro Matos, Lynn Hershman Leeson, Magdalena Jitrik, Maria Condado, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Marilá Dardot, Mattia Denisse, Maya Watanabe, Meriç Algün, Przemek Pyszczek, Renato Ferrão, Rita Ferreira, Steve McQueen, Susan Hiller e Tomás Cunha Ferreira.

A bienal estende-se por diversos locais da cidade – Convento de Santa Clara-a-Nova, Convento de São Francisco, Museu da Ciência (Laboratório Chimico, Galeria de História Natural e Gabinete de Física), Círculo Sereia, Círculo Sede, Colégio das Artes, Edifício Chiado, Sala da Cidade e Galerias Avenida – e tem a organização conjunta do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), da Universidade de Coimbra e da Câmara Municipal de Coimbra. No âmbito da bienal foram organizados dois programas paralelos: ativação, desenvolvido pelos alunos do Mestrado em Curadoria do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra; e convergente, que consiste em diversas exposições e projectos organizadas por outras entidades em diferentes espaços culturais da cidade.

QUESTÕES E IDEIAS

A programação e produção de uma bienal levantam pertinentes questões, que permitem entender a intersecção entre o projecto curatorial, as obras de arte que dele decorrem, e a sua implementação no tecido urbano da cidade em que são apresentadas, a saber:

– Qual o papel das bienais no âmbito cultural e político das cidades? Segundo o próprio texto da Anozero, o objectivo da bienal é promover uma discussão alargada e de “confronto” entre a classificação da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia, a Património Mundial da Humanidade da UNESCO e a Arte Contemporânea, desejando ser um lugar privilegiado para questionar e transformar o território arquitectónico, social, cultural e político em que se insere. Neste sentido, poder-se-ia inferir que os interesses dos seus promotores estariam garantidos: o município retiraria benefícios políticos da visibilidade contemporânea da acção; a universidade teria um espaço de discussão e de formação de conhecimento com diferenciados agentes culturais; e o CAPC daria continuidade à promoção e produção de discursos de vanguardas artísticas.

– Qual o tema da bienal? O projecto curatorial toma como inspiração o conto A Terceira Margem do Rio que o escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967) publicou no seu primeiro livro Primeiras Estórias, em 1962. Segundo o curador Agnaldo Farias, a ideia de uma cidade como a de Coimbra, cortada por um rio, o Mondego, é muito “poética”. A relação entre o movimento do caudal das águas do rio com o burburinho da cidade dá a parecer que se encontram em uníssono. Esta relação amistosa poderá ser colocada em causa quando as margens do rio invadem a cidade, nomeadamente, no local onde ficava antigo convento de Santa-Clara, constantemente inundado pelas cheias do rio. Devido a este facto, o convento foi transladado para o ponto mais alto da cidade, na margem oposta à Universidade de Coimbra. No antigo lugar do convento, agora em ruínas, uma possível terceira margem do rio se ergue, como um lugar de reclusão e conhecimento, um lugar de excepção e suspensão. No conto de Guimarães Rosa, um pai de família decide viver no meio do rio, sem o confrontar, mas acompanhando-o, num lugar que não se aproxima de nenhuma das margens. Toda a família acaba por abandonar o pai, excepto o filho, que percebe que tem que substituir o velho pai. Nessa altura, o pai reconhece-o, cumprimenta-o e dirige-se a ele. O filho, com medo, foge e deseja que na sua morte seja depositado numa canoa nas águas que nunca param. Através de cinco frases retiradas do conto, a exposição desenvolve-se teoricamente numa pluralidade de vozes e visões abrangentes sobre o tema da bienal em particular e sobre arte em geral: “silêncio”, “passagem”, “marginalidade”, “invenção” e “militância”. Considerando a proposta curatorial, deve-se acrescentar que a terceira margem é a que não existe, um lugar de representação e expressão insuspeita dos sentimentos sensíveis que habitam o mundo contemporâneo.

– Como é que os artistas respondem e correspondem aos desafios que lhes são lançados? Idealmente, de diversas formas, e indirectamente, sem revelar uma ilustração fidedigna dos pressupostos apresentados, mas também, espera-se, sem serem infinitamente desviantes ao tema proposto. Será necessário que, no caso de produção de novas obras, a organização da bienal dote os artistas de condições para que, no âmbito do seu trabalho e do percurso que estabeleceram, revelem pertinências e questões que não tinham sido clarificadas ou que não tinham as devidas condições para se realizarem. Neste sentido, o modo como estas perguntas inquietam os artistas deve ser visto à luz das consequências que tiveram nas obras apresentadas, e a pertinência das obras no lugar em que são apresentadas. Apenas na conjugação destes dois factores se pode aferir a pertinência da bienal para o contexto artístico e cultural da cidade em que se realiza.

CONSEQUÊNCIAS

Um dos casos mais paradigmáticos do modo como os artistas podem superar o seu trabalho, sem que com isso sejam desviastes da sua prática, são os desenhos apresentados por Rita Ferreira (1991, Óbidos, Portugal). Para esta ocasião, a artista realizou quatro desenhos – Figueira-da-Índia, Figueira-da-Índia, Foguete/Malmequer e Figo (2019) – de grandes dimensões (360 x 270 cm), que foram instalados em estruturas de ferro no final do corredor do Convento de Santa Clara-a-Nova. A noção de espaço arquitectónico – profundidade e horizonte – aparece constrangida pela escala dos desenhos que subjugam o corredor à sua condição de espaço de passagem, mas, ao mesmo tempo, transformam este espaço numa sala de exposição, ou seja, num espaço privilegiado para a fruição de obras de arte. O gesto audaz e corajoso que a artista imprimiu na dimensão dos desenhos revela-se só por si um rasgo que permite uma fissura no espaço em que são apresentadas.

Outro exemplo deste gesto destemido é o projecto curatorial ShipShape de Tomás Cunha Ferreira (1973, Lisboa, Portugal), instalado na totalidade do espaço do CAPC – Círculo Sereia. Através da recolha, arquivo e apresentação de livros de artistas e obras de poesia concreta e visual de diversos artistas, o curador-artista concretiza uma exposição coerente e muito significativa no contexto da bienal. Para além da montagem inebriante e acolhedora, a relação da escrita com a sua visualidade parece pertencer a um espaço híbrido e transcendente, como que questionando poeticamente se o que se lê e vê está ou não relacionado com o seu conteúdo e a sua forma.

O projecto delirante intitulado Eclipse – Interstellar Journey to the English Countryside (2019), de Luis Lázaro Matos (1987, Évora, Portugal), instalado no Edifício Chiado, em plena baixa da cidade, revela três pinturas da imagem estereotipada de extraterrestres num ambiente cósmico com esferas como planetas, que pontuam o espaço. Nesta inventiva criação, que revela a imaginação como um lugar de passagem, o artista realizou na inauguração uma performance que consistia na leitura de um texto pessoal sobre as suas relações amorosas, em contraste com a vida alienígena. Neste sentido, o espaço artístico já não está apenas ancorado à sua condição social, política, histórica e cultural, mas eleva-se e suspende-se num lugar privilegiado cheio de humor e cinismo. Outro projecto que questiona o espaço ficcional, é os Estudos das passagens (2019) de Renato Ferrão (1975, Famalicão, Portugal). O artista transforma pequenos quartos do convento numa instalação temporal e narrativa com objectos lumínicos que projectam um gato fantasma que acompanha o espectador.

Apesar de não serem todas inéditas, as obras de João Maria Gusmão e Pedro Paiva (1979 e 1978, Lisboa, Portugal), Mariana Caló e Francisco Queimadela (1984, Viana do Castelo e 1985, Coimbra, Portugal) e Belén Uriel (1974, Madrid, Espanha) revelam aproximações interessantes a um lugar cheio de intenções. Todas as obras foram instaladas no Convento de Santa-Clara-a-Nova e colocam o espectador num lugar de meditação e contemplação. Se as primeiras obras (Gusmão e Paiva, e Caló e Queimadela) escurecem o espaço para fazer sobressair a luz das projecções, as obras de Uriel contrastam com o espaço inóspito do convento, tanto numa das pequenas salas com objectos de dimensões domésticas, como na parede de vidro que realça a luz natural do próprio convento.

O vídeo Landscape painting (2015) de Julius von Bismarck (1983, Breisach am Rhein, Alemanha) mostra-nos uma anulação da realidade. Ao pintar uma paisagem de branco, o artista apaga a história e as intenções desse mesmo lugar. Este gesto intencional revela-se muito pertinente numa sociedade cada vez mais opinativa e que nunca se coloca num lugar silencioso para simplesmente contemplar ou ouvir o outro. A obra da artista Marilá Dardot (1973, Belo Horizonte, Brasil) é apenas visível do exterior e ocupa a fachada do convento. Tal como outras obras da artista, a justaposição e deslocação dos significados são a fonte do seu trabalho. Desta feita, a artista pinta uma frase do poema Ricochete, de Natália Correia, que dialoga com o conto de Guimarães Rosa que dá o mote à bienal. Numa pequena capela exterior do convento a artista apresenta o surpreendente vídeo Ir e volver (2019), que pinta e repinta num muro a frase “A la esperanza vuelvo” e a frase persistente desaparece. Ambos os artistas – Bismarck e Dardot reflectem sobre a importância do espaço envolvente para a fruição das obras de arte.

IMPRESSÃO FINAL

Ao contrário de edições passadas, e mesmo tendo acesso a obras de artistas icónicos como Susan Hiller e Steve McQueen, parece que a edição desta bienal não conseguiu alavancar e apresentar projectos de grande visibilidade e que, de algum modo, perdura o mote de excelência a que a bienal se habitou a apresentar. Parece que os projectos artísticos estão muito condicionados aos espaços físicos onde foram instalados e não negociando essa relação. A esperança voltará a erguer-se daqui a dois anos, quando talvez os seus promotores não tentem ocupar os seus espaços e permitam ao projecto curatorial e aos artistas ocuparam a cidade a seu bel-prazer, numa relação mais orgânica e mais ajustada às obras que irão apresentar. Outra possibilidade passa por restringir a bienal ao exigente convento e conter as obras e os espectadores numa mesma clausura e possibilidade de escape. Mesmo que o projecto curatorial possa ser um transvazar de ambas as margens, não podem ser as condicionantes do espaço físico a conterem e castrarem os projectos artísticos. Em última instância, deveria ser privilegiada a liberdade artística em detrimento das opções organizativas de um evento com a colaboração institucional da Direção Regional de Cultura do Centro e o Turismo Centro Portugal.

Para ver até até 29 de Dezembro.

 

(O autor não escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico.)

Hugo Dinis nasceu em 1977, Lisboa. Licenciatura em Artes Plásticas – Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Portugal. Pós-graduação em Estudos Curatoriais, na mesma faculdade e na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Venceu o Prémio de Curadoria Atelier-Museu Júlio Pomar / EGEAC 2016, com o projecto Estranhos dias recentes de um tempo menos feliz, realizado em Maio de 2017. Em 2015 comissariou a exposição Eu (título em construção) no Espaço NovoBanco, Lisboa. Em 2008 comissariou a exposição intitulada Desedificar o homem, na Galeria Municipal Paços do Concelho, Doispaços Galeria Municipal e Transforma em Torres Vedras, Portugal no âmbito do projeto itinerante Antena da Fundação Serralves, Porto, Portugal.

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