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Your Money and Your Life, de Claire Fontaine

O trabalho de Claire Fontaine (coletivo artístico sediado em Paris e fundado em 2004) pauta-se pelo completo desprezo pelo Apolíneo na arte. A prevalência do conceptual aniquila por completo qualquer preocupação plástica: não encontramos a proporção clássica nem a ordem espacial moderna nas peças. Mesmo nas peças bidimensionais com ligações ao desenho ou à pintura que encontramos na exposição a tónica está na capacidade de representação de ideias e de conceitos, na objetivação e na iconicidade. Quando encontramos algum vislumbre de beleza sensível, ele é resultado de um encontro fortuito nos materiais de que os artistas se apropriaram, como o pavimento de folhas de jornal que, no caso de Lisboa e ironicamente, ganha repetidamente prémios de design. Nenhuma ferramenta crítica de natureza plástica é adequada para dar conta do trabalho que Claire Fontaine produz, nem isso é de alguma maneira importante para eles, apesar do seu statement fundador que todo o seu trabalho é uma investigação visual. É interessante e muito pouco óbvio que uma investigação visual contorne o formalismo e isso, como acabamos por apreender ao longo da exposição, só pode ser alcançado com o recurso à Retórica, especialmente às figuras não-visuais, que Claire Fontaine manipula com distinta mestria.

É nas palavras dos próprios artistas que ficamos a saber que o mecanismo de produção de sentido mais frequente e mais importante para o seu corpo de trabalho é a metáfora. Isto não é surpresa nenhuma, uma vez que a arte predominantemente conceptual, para funcionar, tem de se apoiar nas ferramentas do discurso, nos mecanismos da linguagem. Não será, certamente, uma coincidência o facto de a arte conceptual ter nascido no período em que os estudos da linguagem se entusiasmavam com o seu carácter formal e estruturante, o que levou a um revivalismo funcional da Retórica, com a consequente revalorização da metáfora e da metonímia que, durante as vanguardas tinham sido proscritas. É logo na entrada da exposição que nos deparamos com um vídeo pedagógico de que os artistas se apropriaram — o ready made e a apropriação são fundamentais no seu trabalho e é frequente serem o plano da expressão a partir do qual partem os percursos metafóricos e alegóricos que lhes permitem produzir o discurso artístico e a reverberação política que impregna toda a sua produção e atuação —, um vídeo que nos ensina a produzir as ferramentas necessárias para abrir um cadeado sem a respetiva chave. O vídeo é-nos dado a ver como uma metáfora da violação, como uma afronta à intimidade, sem afastar a conotação sexual evidente. Estes temas são-nos novamente oferecidos na peça que encontramos mais adiante, composta por um cofre onde foi aberto um orifício que permite a entrada de uma mão vazia mas lhe impede a saída se quisermos retirar alguma coisa do interior do cofre.

A violação do indivíduo, numa abordagem um pouco mais literal, está presente nas duas cracked lightboxes que apresentam impressões de grande formato de duas fotografias que surgiram na Internet há algum tempo, onde prisioneiros do Iémen partilham, em ilustrações desenhadas em pedaços de esferovite, as sevícias de várias naturezas a que são sujeitos. Claire Fontaine usa mais um dispositivo retórico para adicionar uma camada de sentido às peças ao aplicar um vidro estilhaçado sobre a imagem original, relembrando a relação íntima e táctil que temos com o telemóvel. O vidro do telemóvel partido é também um indício de classe e fala-nos da impossibilidade que o cidadão comum tem em manter-se a par com as exigências da obsolescência programada com que o sistema industrial e económico contamina a nossa relação com os objetos de consumo.

Disseminado pelo espaço da galeria há um conjunto de figuras escultóricas que dialogam com a tradição da estatuária, recuperando o poder de representação das estátuas monumentais e celebratórias mas, num gesto provocador de grande sarcasmo, deslocando o seu universo para o lugar comum. Mais do que uma metáfora ou, o que poderia parecer mais adequado neste caso, um ícone, estas figuras representam por sinédoque tipologias predominantes na sociedade contemporânea, figuras que tipificam lugares políticos bem conhecidos e ativos (de um yuppie trumpiano acéfalo ao Yoda, passando pelo anonymous). Mas o traço insólito que as une é a presença de um copo para recolher esmolas, um dispositivo que as coloca na posição de pedinte, de figuras que solicitam desesperadamente as duas coisas que mais movem a sociedade contemporânea e, por isso, aqui são evidenciadas com espírito crítico: atenção e dinheiro. É também importante notar que todas as figuras, de uma maneira ou de outra, se munem de disfarces, se metamorfoseiam e se adaptam operacionalmente em função do objectivo, como um produto a que se adiciona uma nova embalagem na esperança de colher melhor aceitação. É um claro procedimento mercantilista que nos obriga a questionar tanto a integridade como a dignidade da pessoa-produto que se reimagina para agradar.

É neste conjunto de peças que encontramos mais facilmente o sentido do título da exposição. Your money and your life é um estádio à frente do clássico Your money or your life. O capitalismo viveu obcecado com a extração do dinheiro (e, nesse tempo, celebrizou-se a expressão o dinheiro ou a vida usada nos assaltos). O Neoliberalismo mais selvagem que nos domina não se contenta apenas com o dinheiro e procura incessantemente mecanismos subliminares para se apoderar também da própria vida, recorrendo a qualquer estratégia para fabricar necessidades virtuais e instalar angústias validação social. É este o tema que perpassa todo o trabalho de Claire Fontaine e esta exposição ajuda-nos a olhar para o nosso contexto sociopolítico despertando-nos um sentido crítico na esperança que, dele, possa surgir alguma ação transformadora positiva.

Claire Fontaine – Your Money and Your Life, com curadoria de Anna Daneri, para ver na Galeria Avenida da Índia até 5 de janeiro.

Formado em Arquitetura e pós-graduado em Teoria da Arquitetura, teve atelier durante vários anos até divergir para outras práticas ligadas à arte. Em 2007 foi curador do ciclo Praxis ou como fazemos o que fazemos na António Arroio e, entre 2008 e 2014 foi cocriador e curador da Escritaria. Passou pelo cinema documental, realizando várias longas e curtas-metragens centradas na literatura e no património edificado e, no seguimento de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e de formação em fotografia no Ar.Co, focou-se na produção artística, tendo apresentado trabalhos na BoCA Bienal, Fórum Eugénio de Almeida, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra ou New Art Fest. Neste momento, está a concluir a Pós-Graduação em Curadoria de Arte na FCSH da Universidade Nova.

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